Correio Unifor

papel de carta com bege com um selo de coração escrito

 

O projeto Correio Unifor demonstra uma preocupação ainda mais profunda da Universidade de Fortaleza em relação à atual situação do mundo diante da pandemia do novo coronavírus. A instituição promoveu anteriormente ações diretas de combate, como campanhas informativas, de pesquisa e de vacinação. Agora, essa atenção se estende para outro nível: a criação de conhecimentos por meio do debate filosófico, potencializando esperanças para a construção de dias melhores. O fluxo do projeto se dá da seguinte maneira: cada professor que for contemplado com a carta de um amigo, se compromete a escrever outra missiva para outro amigo professor, dando continuidade à corrente.

 

Correspondências

professor Humberto Cunha

Fortaleza, 28 de julho de 2020.

Querida colega Marina Cartaxo,

Faço votos que você e toda a sua família estejam bem.

Esses augúrios, não precisaria dizer, são por causa da pandemia, que foi elevada à condição de nossa colega, uma vez que todos querem saber o que aprendemos com ela, essa duríssima professora que ao escutar respostas erradas sobre higiene, distanciamentos e excessos, não se contenta em repreender com advertência, nem mesmo com uma palmatória, mas com a própria morte!

Para gente como você, que gosta dos clássicos, este terrível evento planetário não é uma surpresa e, infelizmente, pouco passa de um protocolo que o ser humano engendra contra si próprio, quando age com desrespeito para com o seu semelhante e a mãe comum de todos, a natureza, fato que - dói dizer – é e provavelmente continuará sendo rotina.

Caríssima, rogo muito para que o aprendizado coletivo retirado da pandemia não seja apenas o manuseio de ferramentas de comunicação à distância as quais, se não forem apropriadas com cautela, nos legarão um mundo ainda pior, de distância nos relacionamentos, de transmudação definitiva de cidadãos em meros consumidores, de eliminação de empregos, de concentração de riquezas, e de todos os males que dessas coisas resultam.

Tomara que enxerguemos os caminhos sobre os quais foram lançadas poucas luzes e que fique evidente não haver a necessidade de ampliarmos produtividade, jornadas laborais, mobilidades aleatórias; ao contrário, precisamos conferir densidade às coisas e sair das superficialidades toscas, tão presentes em nossas vidas ao ponto de vermos até mesmo quem conteste a validade da ciência!

Esse meu desejo imagino não ser uma simples influência das reiteradas leituras da Utopia, de Morus, mas de experimentos como a assistência emergencial que vários países propiciaram aos seus cidadão, inclusive o Brasil, o que para mim constituiu-se em uma prova fortíssima de que justiça social não é devaneio de constitucionalistas sonhadores, como nós dois somos.

Que meus medos e meus pessimismos constantes desta carta sejam infundados; que minhas esperanças e otimismos se multipliquem por mil; que nossos pósteros construam e vivam em um mundo muito melhor que o nosso.

Com afeto fraternal,

Humberto Cunha