Seg, 5 Novembro 2018 10:01

Entrevista Nota 10: Bete Jaguaribe e uma Unifor cinematográfica

Professora Bete Jaguaribe, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor (Foto: Alan Sousa)
Professora Bete Jaguaribe, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor (Foto: Alan Sousa)

Uma década se passou desde que o curso de Cinema e Audiovisual da Unifor foi criado, entrando para o rol daqueles que receberam nota máxima do Ministério da Educação (MEC). Em flashback, a coordenadora e professora Bete Jaguaribe analisa a trajetória cumprida desde a renovação da matriz curricular, em 2017, sem esquecer de dar ênfase aos conteúdos audiovisuais já realizados e celebrar um mercado criativo em expansão que tende a abraçar cada vez mais o profissional qualificado que sai da universidade.

Desde 2016, a também jornalista e diretora do Porto Iracema das Artes, escola de formação e criação do Instituto Dragão do Mar, assumiu a coordenação do curso, fazendo valer uma ideia de formação que não desvincula as expertises inerentes às novas tecnologias aos valores éticos e estéticos de nosso tempo. Graduada em Comunicação Social pela UFC , com Doutorado em Sociologia e Mestrado em História Social pela mesma instituição, Bete Jaguaribe vem, assim, consolidando um projeto pedagógico de graduação onde o desenvolvimento de carreiras e a produção audiovisual estão organicamente ligados à dimensão das artes e à força-invenção como um dos principais combustíveis da contemporaneidade.

E nada mais justo portanto que, no Dia Mundial do Cinema, comemorado em 5 de novembro, entrevistássemos a coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor.

O Curso de Cinema e Audiovisual da Unifor completa dez anos avaliado com nota máxima do MEC, por duas vezes consecutivas. Qual foi a trajetória cumprida para que alcançasse esse padrão de qualidade?

BETE JAGUARIBE: No segundo semestre de 2017, houve a implementação de uma nova matriz curricular do curso de cinema. E isso é um divisor de águas mesmo. Porque o curso nasceu muito ancorado no jornalismo e publicidade, a exemplo das demais graduações em cinema do país. Com a reorganização das disciplinas, o projeto pedagógico mudou e novos professores entraram no quadro docente a fim de que o curso de aproximasse mais do campo das artes do que do campo da comunicação. Assim, passamos a dar ênfase em processos de realização desde o primeiro semestre. Há inclusive uma disciplina que se estende por todo o curso que se chama cine-experiência e o aluno vai vivenciar, de acordo com a temática escolhida a cada semestre, um saber ligado ao fazer, ou seja, uma experiência de formação que modifique a sua visão de mundo mesmo. Tanto que a primeira coisa que fazem ao entrar no curso é serem convidados a conhecer a cidade. Parece algo banal, mas a maioria não conhece Fortaleza. Salta do ônibus ou dos carros de casa para a universidade e esse trajeto de todos os dias em geral não resulta em aderência alguma com o cotidiano da cidade. Então, arte e cidade é sempre o tema número um. E essas disciplinas sempre trazem quatro convidados cujos processos criativos se relacionam com os temas, que são bem diversos, como, por exemplo, feminismo, “sociedade líquida”, infância ou mesmo processo eleitoral, para falar de um dos mais recentes.

Então o realizador passa a ter a formação de um artista múltiplo, é isso?

BETE JAGUARIBE: Sim, com uma matriz muito relacionada com as artes e os processos de criação o realizador é encarado como um artista. E o repertório que o aluno encontra aqui permite que ele se torne até um curador de arte. Então a ordem é abrir espaços de criação que façam com que ele se conecte com outros artistas e conheça diversos processos artísticos. Esse é o desafio da nova matriz. E hoje o curso gira em torno também muito dessa ideia de desenvolvimento de projeto, com o intuito de que os alunos se experimentem em várias funções, como roteirista, diretor, diretor de fotografia, de som... Também criamos um projeto chamado Storyboard, que é voltado para o desenvolvimento de carreiras e construção de trajetórias no cinema. Uma espécie de mentoria, onde se conversa com o aluno para saber os interesses dele para, a partir daí, facilitar processos afinados com a carreira e o mercado visados. Então, construímos um programa de atividades, que incluem oficinas, debates, experiências de realização, articulação de redes colaborativas, para, numa perspectiva processual e dinâmica, permitir a construção de trajetórias profissionais e realizações artísticas afinadas com o fluxo da vida contemporânea. A gente está no terceiro semestre dessa uma nova matriz e agora também teremos a primeira experiência de TCC coletivo, de onde vai sair um longa-metragem. Acho que vai ser uma experiência desafiadora, porque normalmente os concludentes fazem trabalhos de curta metragem. Ou seja, ousadia é o que não tem nos faltado e aí falo não só dos professores, como dos alunos.

Que respostas são essas que vêm sendo dadas pelos alunos em termos de inovação, ou seja, que projetos realizados internamente merecem destaque?

BETE JAGUARIBE: São muitos. Mas vou falar de um mais recente: o projeto Um Mundo com os Olhos, idealizado pelos estudantes David Facó, Miguel Weingartner e Bianca Dantas e selecionado para participar da 11ª reunião anual da Clinton Global Initiative University, que ocorreu agora em outubro, na Universidade de Chicago, em Illinois. O projeto casa acessibilidade e inovação: através de oficinas, os alunos do audiovisual da Unifor trocaram informações e expertises com um grupo de estudantes surdos. Nossos alunos ensinam a linguagem audiovisual, enquanto os jovens surdos dão aula de libras. Assim, desenvolvem juntos um conteúdo próprio para a comunidade surda, orientado diretamente para esse público, sem precisar de legendas. Isso porque ao realizar a pesquisa documental os idealizadores do projeto perceberam que poucos filmes nacionais dispõem de legendas ou de uma janela com um intérprete de Libras. E a idéia do projeto foi dar meios para que os estudantes surdos passassem de meros telespectadores para realizadores, criando eles próprios seus conteúdos. Com o prêmio da Fundação Clinton, que selecionou 12 entre 1.400 projetos inscritos por jovens do mundo todo, esses nossos alunos estão agora em contato com uma rede de financiamento internacional para viabilizar e disseminar o projeto que nasceu aqui no nosso Laboratório de Mídias Digitais - Labomídia. E o mais importante para todos nós, professores e alunos, é o debate que isso traz em torno de novas formas de conhecimento, pensadas numa perspectiva humanística.

Essa formação humanística ainda se apresenta como um desafio para a comunidade docente?

BETE JAGUARIBE: Total. Esse tipo de formação que faz conexões com arte, filosofia, sociologia, passando a refletir sobre a complexidade da sociedade e seu funcionamento, as faculdades em geral abandonaram. E isso é uma tragédia, essa falta de diálogo, por exemplo, da medicina com as disciplinas das Humanas. Nunca a formação humanística foi tão necessária para o profissional de hoje. Até porque o emprego tradicional da carteira assinada está se acabando e nossa sensibilidade, ou seja, nossa força inventiva, nossa capacidade de compreender o mundo dentro desse contexto contemporâneo, é que vão fazer a diferença no mercado criativo.

Qual o lugar do audiovisual hoje na economia criativa? Quais as perspectivas de mercado para quem optar por cursar Cinema?

BETE JAGUARIBE: Essa demanda por audiovisual é uma coisa muito forte hoje em dia.  Por conta das novas tecnologias. Um produtor de conteúdo de qualidade é um profissional muito cobiçado em um mercado em plena expansão. São dados objetivos que mostram isso: do ponto de vista econômico mesmo, a economia criativa movimenta um comércio mundial que cresce a taxas mais elevadas do que o resto da economia, contrariando inclusive a tendência de crise internacional que atingiu a outros setores da economia. Segundo dados de 2016 da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), os setores criativos do Brasil, que envolvem as áreas da cultura e do entretenimento também, já representam aproximadamente 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) Nacional, contribuindo com R$ 155,6 bilhões de produção, apresentando um crescimento acumulado de quase 70% nos últimos 10 anos e constituindo 3,5% da cesta de exportação brasileira. Dentre os setores que mais contribuíram para esses resultados estão o audiovisual, o design, a moda, arquitetura, mídias digitais, e as Tecnologias da Comunicação e Comunicação (TICs).

Essa indústria criativa demanda então trabalhadores com grau de formação cada vez mais especializado?

BETE JAGUARIBE: Isso. Inclusive, pesquisas também demonstram que os trabalhadores criativos vêm sendo mais bem pagos do que os empregados formais brasileiros, em média. Essa remuneração mais elevada tem relação direta com o nível de qualificação e a especificidade do trabalho criativo. E vale observar que houve crescimento da renda acima do resultado total do mercado de trabalho brasileiro nos segmentos de moda, música, expressões culturais e audiovisual. E há também o incentivo governamental, afinado ao mercado. O conjunto de dados analisados no Atlas Econômico da Cultura Brasileira, publicado pelo Ministério da Cultura em 2017, sugere a necessidade de políticas públicas que aumentem a participação das indústrias criativas na economia brasileira, considerando o potencial econômico do setor, com especificidades agregadoras de valor, como uma mão-de-obra de maior nível de renda e de educação, com efeito multiplicador de geração de emprego e renda.

E como está o Ceará no atual contexto?

BETE JAGUARIBE: O Ceará é um dos principais estados do Brasil com tendência de crescimento dos investimentos públicos na área da cultura, com uma perspectiva de alcançar 1,5% do orçamento geral do estado. Junte-se aí a própria tradição econômica do estado, que sempre manteve uma participação majoritária do setor de serviços no total geral do Produto Interno Bruto (PIB), o que, em certa medida, credencia o Ceará a ocupar um lugar privilegiado no processo de implantação desse novo modelo de economia, baseado no conhecimento e na criatividade. Ou seja, fazer cinema hoje em dia, no Ceará ou em qualquer lugar do mundo, é algo amparado por um cenário muito interessante de trabalho. A demanda por conteúdo audiovisual é crescente, sobretudo por conta da internet, que é um mercado que ninguém domina ainda. Então, você pode construir uma trajetória de experimentação, de busca de novas linguagens... O que fez surgir Netflix? Foi uma transformação tecnológica. Essas televisões por demanda estão desesperadas atrás de conteúdo inovador. Não é à toa que a Netflix montou escritório no Brasil agora, o primeiro da América Latina. Estão interessados em conteúdos de outras culturas. E quem vai criar esses conteúdos? Quem vai fazer isso com qualidade? Posso garantir que nossos alunos, que já estão desenvolvendo esses conteúdos dentro da Unifor, estão plenamente aptos a qualificar esse segmento.