angle-left Entrevista Nota 10: Professor Renato Moreira é um exemplo a ser seguido

Seg, 26 Novembro 2018 16:27

Entrevista Nota 10: Professor Renato Moreira é um exemplo a ser seguido

Renato Moreira é fundador e membro titular da Academia Cearense de Química desde 2009. Desde 2012 é membro da Câmara de Inovação e suplente do Conselho Superior da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). (Foto: Ares Soares)
Renato Moreira é fundador e membro titular da Academia Cearense de Química desde 2009. Desde 2012 é membro da Câmara de Inovação e suplente do Conselho Superior da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). (Foto: Ares Soares)

À frente da pesquisa científica na área biológica da Unifor, o professor Renato de Azevedo Moreira recebeu em outubro passado o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará (UFC), em reconhecimento à sua dedicação e aos relevantes serviços prestados como docente da instituição. Para ele, a homenagem é uma enorme responsabilidade por representar um exemplo a ser seguido pelos novos pesquisadores e alunos.

O professor Renato Moreira graduou-se em Química (1966) e Química Industrial (1967) pela UFC. Em 1975, concluiu o doutorado em Bioquímica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na França, fez estágios de pós-doutorado no Institut Pasteur (1979) e no Hôpital Antoine-Béclère (1981), em Paris, e, na Escócia, na University of Aberdeen (1983).

Na UFC, o pioneirismo de sua pesquisa nas décadas de 70 e 80, envolvendo o estudo das proteínas lectinas, é considerado até hoje referência nacional.

Atualmente, suas pesquisas na Unifor estão relacionadas à produção de gel-creme para a proteção da pele contra as radiações UV, além do tratamento de feridas cutâneas, alergias e lesões devidas ao envelhecimento.

Na entrevista a seguir, o professor Renato Moreira dá mais detalhes de seu trabalho na Unifor e comenta sobre o estágio da pesquisa científica no Ceará.

UNIFOR: Recentemente, o senhor recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará. Qual o significado dessa homenagem para o senhor e para a pesquisa no Ceará?

O título de Professor Emérito é a maior honraria que a Universidade Federal concede a seus professores aposentados. É, para mim, um grato reconhecimento da contribuição que dei durante os 40 anos em que fui docente desta instituição. É um título para o qual você não se candidata nem procura ocupar. Você recebe!

O título de Professor Emérito implica no reconhecimento da participação do professor em várias áreas de atividade no âmbito da universidade, principalmente na formação de recursos humanos, seja na graduação e pós-graduação como na pesquisa científica. Consequentemente, quando a universidade concede um título como este, está estimulando os mais jovens a desenvolver pesquisa, como se dissesse: vejam um exemplo de professor e pesquisador, sigam o mesmo caminho!

Mas ao mesmo tempo, esse título manda um recado sutil para o professor: você continua membro desta universidade e deve cuidar dela e dos seus alunos, da mesma maneira que fez antes da aposentadoria.

Enorme responsabilidade!

UNIFOR: Como o senhor avalia a pesquisa científica no Ceará?

A pesquisa científica no Ceará, não deixa nada a dever à pesquisa de outros estados do Nordeste, principalmente os mais desenvolvidos. Em vários setores, a pesquisa científica que desenvolvemos, aqui no Ceará até mesmo supera a dos demais estados, notadamente nas áreas de bioquímica, física, farmacologia e biotecnologia.

Nos últimos anos, podemos destacar grandes avanços principalmente na biotecnologia. Como no resto do país, o principal entrave a um maior desenvolvimento da pesquisa científica no Ceará é a escassez de recursos (veja-se a baixa relação dos recursos destinado à pesquisa e o PIB nacional), apesar de contarmos com o apoio da Funcap, que tem apoiado à pesquisa e à pós-graduação no Estado, através de convênios com a Capes, CNPq, Finep e FIEC.

É importante, para o fortalecimento da ciência no estado do Ceará, o envolvimento da iniciativa privada na inovação e desenvolvimento científico, inclusive por meio de contratação de cientistas para desenvolver projetos do seu próprio interesse.

UNIFOR: Como senhor avalia a participação de empresas privadas no desenvolvimento de pesquisa no Ceará?

A participação de empresas privadas no desenvolvimento da pesquisa no Ceará ainda é muito incipiente. No Brasil, se destacam as empresas na área de agropecuária e biotecnologia, que nós tentamos usar como exemplo.

Uma empresa que destacamos, além da Embrapa, é a Imbrapic, que não apenas desenvolve pesquisas na área de biotecnologia como fornece apoio a empresas de menor porte.

Aqui no Ceará, devemos destacar uma linha de apoio da Funcap, o programa Inovafit que, com o apoio da FIEC, apoia a criação de novos produtos tecnológicos desenvolvidos por pequenas e mádias empresas. O Fundo de Inovação Tecnológica, ligado à Secretaria de Ciência e Tecnologia e contando com aportes da FIEC, tem tentado alavancar a pesquisa tecnológica por empresas cearenses.

UNIFOR: O senhor tem mais de 50 anos de atuação profissional, notadamente na pesquisa e no magistério. O que mudou em cada uma dessas áreas com o desenvolvimento contínuo e cada vez mais crescente da tecnologia ao longo desse período?

É muito claro que, através de tecnologias inovadoras, principalmente na área de informática e biotecnologia, o ensino, principalmente em nível de pós-graduação, muito tem contribuído para a descoberta científica. Um exemplo da importância da investigação científica, na economia nacional é o sucesso obtido pela Embrapa da área da agropecuária.

Através do uso da bioinformática, muitas estruturas moleculares têm sido esclarecidas propiciando um maior entendimento dos processos de interação molécula-molécula e molécula-célula, contribuindo, assim, com o esclarecimento de muitos problemas patológicos e, principalmente na produção de novas drogas, mais eficientes que as tradicionais.

Por outro lado, a nanotecnologia tem propiciado a criação de medicamentos mais eficientes, por propiciarem o transporte de drogas diretamente para as células-alvo,

UNIFOR: Suas pesquisas na área da bioquímica nas décadas de 80 e 90 ainda hoje são referências nacionais. Se o senhor pudesse escolher a sua principal realização profissional, qual seria?

As principais pesquisas científicas desenvolvidas por meu grupo de pesquisa, que envolve tanto alunos como doutores e professores já estabelecidos, tiveram início ainda durante meu doutorado e ainda estão em franco desenvolvimento, tanto na UFC como, principalmente agora, na Unifor. A pesquisa científica tem esta grande vantagem: a cada resultado positivo obtido, novas perguntas surgem, levando a novas pesquisas e novos resultados, o que é um enorme incentivo a continuar no ramo. O estudo das lectinas vegetais, assunto da minha tese de doutorado, continua sendo o motor principal das pesquisas do grupo, se destacando atualmente o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas no tratamento e modulação do processo cicatricial

E, como já foi dito, após cada resultado positivo e promissor, novos desafios são apresentados, e investigados.

Uma verdadeira roda de movimento contínuo.

Porém, o que mais me orgulha, na minha trajetória de professor/pesquisador é a formação de novos cientistas. Muitos dos meus ex-alunos (que considero meus filhos científicos) estão hoje, de uma forma ou de outra, ligados à academia, participando de programas de pós-graduação e, portanto, na formação de novos cientistas.

Me orgulha muito dizer que além de filhos, já tenho netos, bisnetos e até tataranetos científicos!

UNIFOR: Atualmente, o senhor tem se dedicado à pesquisa de proteínas e carboidratos na Unifor. Qual a linha e o estágio dessa pesquisa?

Atualmente, na Unifor, além das pesquisas com lectinas, estamos cada vez mais envolvidos com o uso de polissacarídeos vegetais e colágeno, envolvendo a produção de gel-creme de toque seco para a proteção da pele, contra as radiações UV, além do tratamento de feridas cutâneas, alergias, lesões devidas ao envelhecimento, entre outras.

Um outro ponto a ser destacado nesta área está concentrado na produção de um curativo (filme esponjoso) para condução de drogas no tratamento de feridas isquêmicas, de difícil cicatrização, onde destacamos as escaras de pressão e o pé diabético.

Ainda na área de polissacarídeos alguns projetos estão sendo desenvolvidos voltados para a produção de pré-bióticos, de baixa massa molecular e, consequentemente, baixa viscosidade, dirigidas principalmente para alimentos especiais, onde destacamos as dietas enterais.

UNIFOR: Quais os conselhos que o senhor daria para o aluno que deseja se dedicar à pesquisa científica?

O principal conselho que eu sempre dou para meus alunos é: cultive a curiosidade e persista até obter o resultado imaginado!

Mas ao mesmo tempo que faz isto, procure pescar intelectos promissores à sua volta e forme, continuamente, novos cientistas.