angle-left Entrevista Nota 10: Aíla Sampaio e a Literatura como lugar de afeto e transformação

Seg, 29 Julho 2019 10:41

Entrevista Nota 10: Aíla Sampaio e a Literatura como lugar de afeto e transformação

Professora Aíla Sampaio (Foto: Té Pinheiro)
Professora Aíla Sampaio (Foto: Té Pinheiro)

Das leituras de Monteiro Lobato ao Doutorado em Cinema e Literatura. A educadora Aíla Sampaio, professora do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão da Unifor e membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste, fala sobre a relação com a escrita e suas narrativas intersemióticas.

Como começou o gosto pela leitura?

Aíla Sampaio - Eu sempre gostei muito de escrever. Eu lia quando era menina. Era apaixonada pelo escritor Monteiro Lobato, sem nem saber quem era ele. Eu falava tanto nas obras dele que as minhas colegas de colégio, ainda no interior, diziam: “você vai acabar casando com esse Monteiro Lobato” (risos). Naquela época já fazia mais de meio século que o Monteiro Lobato tinha morrido, mas eu só descobri isso quando eu vim morar em Fortaleza, aos 14 anos.

E descobriu o Monteiro Lobato por meio de quem?

Aíla Sampaio -Eu nasci no Cariri, numa cidadezinha chamada Abaiara, próxima a Missão Velha, e todas as férias eu vinha para Fortaleza, porque as minhas tias moravam aqui. E aqui uma amiga da mamãe – a Mana - me deu um livro, que, na verdade, nem era dele (Monteiro Lobato), era traduzido por ele, “Contos de Andersen”. A minha cidade era muito precária, não tinha colégios, somente grupo escolar, não havia biblioteca. Então eu lia os “Contos de Andersen” da frente para trás e de trás para frente, porque eu não queria perder aquela relação com a bailarina, com o soldadinho de chumbo, com todos aqueles personagens. O meu irmão mais velho sempre foi um leitor ávido. Ele foi estudar em Milagres antes de mim. Era incrível quando ele chegava a Abaiara com um livro, eu ficava louca para ler e ele dizia: “não é pra sua idade”.

Eu me lembro muito bem de um livro chamado “O Tubarão” que eu peguei para ler escondido e ele não deixou, porque não era ‘adequado’. Ele me influenciou muito! Eu o via com livros e ficava enlouquecida. Quando eu fui morar em Milagres, comecei a escrever um diário. Sempre no café-da-manhã, ele dizia assim: “ah, você foi para tal lugar ontem? Você fez isso?” E eu dizia: “como é que você adivinhou?” Aí ele dizia: “olha, é que eu tenho amigos que te vigiam”. Eu deveria ter 11 ou 12 anos e ele, 14 ou 15. Aí um dia ele chegou pra mim e disse: “olha, Ila, eu preciso te dizer uma coisa. Eu não queria te dizer, mas eu vou ter que dizer: leio teu diário todo dia! E sabe por que eu estou te dizendo? Porque eu descobri que tu escreves poesia”. Eu não sabia que escrevia poesia, porque eu não sabia o que era poesia. A poesia nasceu em mim dessa forma; eu morei um ano na casa do meu avô paterno, em Milagres, e ele tinha no corredor uma estante grande cheia de livros. Eu mexia nessa estante, e minha tia reclamava; ela achava que eu ia rasgá-los ou perdê-los. Um dia eu descobri lá uma antologia dos poetas românticos, organizada pelo Manoel Bandeira em 1954.

Então eu comecei a ler Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães, Juvenal Galeno, mas eu não sabia quem eram eles e que aquilo era poesia. Guardo esse livro até hoje. Eu não sabia diferenciar poesia de prosa. Aí eu comecei a escrever poesia no meu diário, mas eu não sabia que escrevia poesia. Meu irmão, como era mais adiantado, já sabia diferenciar. Eu perguntei: “é poesia? E o que é poesia?” Ele me explicou. Então foi quando me mudei para Milagres que o hábito da leitura se fortaleceu. Além da influência do meu irmão, da estante do meu avô, o colégio de freiras em que eu estudava tinha uma boa biblioteca. Com 10, 11 anos, eu estava lendo Machado de Assis, Visconde de Taunay. Minha paixão pelas letras começou aí.

Quando eu terminei o ensino fundamental, vim embora para Fortaleza e fiz o ensino médio no Colégio Cearense. O tempo passou e eu queria muito fazer Jornalismo, mas eu não consegui passar na UFC, porque era aquela prova com somatório e eu zerava em física. Fiz duas vezes e, como o vestibular só ocorria uma vez no ano, não passar no vestibular duas vezes significou ficar dois anos parada. Foi terrível! Eu lia, lia muito. Fiz amizade com alguns poetas, alguns escritores daqui, porque eu inscrevia textos em concursos literários, era tudo muito intuitivo.

Depois desses dois anos, chateada com a UFC, eu fui fazer Letras na UECE e lá eu descobri que o que eu queria era ser professora. Conheci pessoas incríveis, professores que me incentivaram. E passei a ler muito mais, porque eu já tinha muito mais acesso a bons livros e a mais informações. Quando eu estudava lá, eu trabalhava num banco, imagine, eu era bancária, trabalhava com aplicações financeiras, taxas de overnight, você imagina; foi o emprego que eu arranjei na época, porque ninguém dá emprego a quem não tem experiência. Eu precisava trabalhar, eu queria comprar minhas coisas, meus livros; eu tinha casa, comida, mas eu queria livros, discos. E aí quando eu terminei a graduação, senti a necessidade de fazer uma especialização – especialização em Língua Portuguesa.

Quando eu estava terminando a especialização, escrevendo a monografia, surgiu uma seleção pra mestrado da UFC, isso foi em 1992. Nesse período surgiu um concurso do Governo do Estado e eu fiz e passei, mas não fui logo chamada. Eu já tinha lançado um livro em 1981, de poemas, “Desesperadamente nua”, inspirada naquela música “Bárbara”, do Chico Buarque, “o meu destino é caminhar assim desesperada e nua, sabendo que no fim da noite serei tua”.

Algumas pessoas já me conheciam. Quando eu estava na faculdade, lancei mais um livro, chamado “Amálgama”. Livros magrinhos que hoje eu considero, assim, uma poesia muito simples, mas era o que eu era naquela época.Quando ia concluir a especialização, houve essa seleção para o mestrado na UFC, eu fiz, passei, e como eu fui bem selecionada, ganhei uma bolsa do CNPq, mas eu não podia trabalhar, aí foi quando eu pedi demissão do BIC e fui somente estudar. Então eu fiquei uns três anos só lendo e escrevendo minha dissertação. Foi também quando eu casei e engravidei da minha primeira filha. Quando eu apresentei minha dissertação, que foi sobre a Lygia Fagundes Teles, eu estava grávida já de seis meses. Foi em 1996, mais ou menos maio de 1996. Fiquei três anos com essa bolsa.

E esse concurso era para professor?

Aíla Sampaio -Sim. Justamente no ano de 1992, eu saí do BIC, fazendo aquela transição, com aquele medo de largar o emprego por uma bolsa, mas ao mesmo tempo sabendo que eu não queria ser bancária, eu estava bancária. Embora o coronel Adauto tivesse me chamado: “olhe, não se larga um emprego numa época dessa! Você vai fazer o curso para assistente de gerente, você tem futuro aqui no banco”. E quanto mais ele me falava isso, mais eu me desesperava porque eu não era bancária, eu estava, mas eu também não podia dizer isso a ele. E aí, como as coisas são muito providenciais, quando eu estava terminando o mestrado, eu fui chamada para o assumir turma de ensino médios em colégios do Estado. Comecei a trabalhar (1995), daí a pouco a minha filha nasceu. Então aí começou a minha carreira na docência. Meu ex-marido, pai dos meus filhos, também é professor, era, na época, professor da UECE e da UFC, e também dava aula na Unifor. Eu soube por ele que surgiu uma vaga para um professor de Português no curso de Direito da Unifor (2000), para ensinar Metodologia da Redação. Aí eu fui contratada temporariamente para dar essa disciplina. No ano seguinte, surgiu o curso de Letras, (reaberto pela terceira vez) e como a minha avaliação institucional (já havia avaliação institucional) foi boa, já me contrataram.

Então, legalmente, eu entrei na Unifor em fevereiro de 2001, mas eu já tinha trabalhado um semestre antes. E aí eu dava aula no curso de Letras apaixonadamente. Ministrei também Língua Portuguesa nos cursos de Turismo, Administração, Ciências Sociais, depois Ciências Políticas. Depois o curso de Letras fechou. Eu coordenei o curso durante um ano, que foi o ano final. Fiz um projeto para que nenhum aluno saísse prejudicado, planejei aulas de férias sem custo para os alunos e deu tudo certo, nenhum aluno deixou de se formar. Mas o curso fechou. E a partir daí eu virei uma professora exógena: eu trabalho nos cursos, mas eu não pertenço a eles. E esse sentimento de “não pertença” é muito incômodo. Mas continuei com Língua Portuguesa, fazendo os links com Literatura, usando metodologias ativas, fazendo cursos. Surgiu o curso de Cinema e eu peguei a disciplina Língua Portuguesa II.

Quando a Ana Quezado assumiu a coordenação, me convidou para dar uma disciplina de Estética e Linguagem; tive que ampliar as leituras e foi muito bom. Tive que me reinventar. O professor precisa se reinventar permanentemente, é um desafio constante. E aí quando a minha filha, de quem eu estava grávida na época do mestrado, entrou na faculdade de Direito, ela já com 17, 18 anos, eu entrei para o doutorado na UFC.

Em Literatura?

Aíla Sampaio - Em Letras, trabalhando com Literatura e Cinema. Porque a minha paixão dentro do curso de Cinema sempre foi a tradução intersemiótica, a tradução da palavra para a imagem, e eu inclusive criei uma disciplina optativa com esse nome, Cinema e Literatura. Aí eu achei oportuno fazer em Letras e puxar para essa linha de pesquisa que me agrada muito. Fiz o doutorado, embora trabalhando 40h, em menos de três anos.

Os jovens não leem mais. Nós, não são só eles, estamos escravizados a um celular, com leituras muito fragmentadas, só lemos trechos. E eu sinto cada vez mais necessidade de trabalhar a leitura e a escrita. Então eu fico me reinventando, trabalho com narrativas, trabalhando também Língua Portuguesa no curso de Cinema, trabalho com o TCC, mas aquele sentimento de “pertença”, nesses 19 anos de casa, foi se perdendo. Felizmente se mantém a minha motivação para correr atrás, me reinventar e buscar outros caminhos. E eu ainda acredito que vai haver um resgate, porque nós precisamos formar pessoas que saibam minimamente ler o mundo. Eu tenho essa preocupação. Então não penso na língua portuguesa daquela forma tradicional. 

Como é que eu vejo o ensino da língua portuguesa? É como instrumental. Em todas as profissões as pessoas precisam de um instrumento. O jornalista precisa da língua, ele tem a palavra como objeto. Não objeto estético, em busca do belo, como a Literatura, por exemplo, mas na função referencial. O publicitário tem que ser criativo, mas ele precisa, além de ser criativo, conhecer as potencialidades expressivas da palavra pra tirar delas os significados pros jogos de linguagem que vão seduzir o público consumidor. O Direito, o que é o Direito sem a língua portuguesa? Você fica imaginando a quantidade de advogados que tem a dificuldade enorme de passar na OAB... Aí você diz assim: mas professora uma disciplina de Língua Portuguesa não vai resolver isso. Não, não vai resolver isso. Mas vai pelo menos diagnosticar, detectar, digamos assim, ruídos para a universidade trabalhar essas questões. É necessário que o nosso aluno tenha a possibilidade de fazer diferença no mercado de trabalho. Uma disciplina de Língua Portuguesa não vai resolver todos os problemas que o aluno tenha de deficiência da escola de que ele vem, mas vai despertá-lo de outra forma.

E Aíla, pra que serve, vamos dizer assim, a literatura nesse contexto atual do século XXI, das mídias sociais, desse frisson aí em torno das notícias abreviadas, cada vez mais fragmentadas. Qual é o lugar da literatura hoje pra você? E, sobretudo, em sala de aula.

Aíla Sampaio - Olha, a literatura é uma possibilidade de leitura que saia do lugar comum. O escritor trabalha a linguagem de um modo diferenciado. Então o escritor diz de um jeito diferente o que os outros dizem de um jeito só. Ele explora as potencialidades expressivas da língua, das palavras, das orações, das conversões de sentido, das rupturas. Ele causa um estranhamento. Enquanto o jornal tem a mesma linguagem que pode ser lida pelo rapaz da limpeza ou pelo professor PhD, a literatura é um desafio, ela te desafia a interpretar, ela te desafia a pensar. Ela te desafia a voos. O que ocorre? É que hoje são muitas seduções, muitos apelos. E você perder tempo lendo quando você pode ligar um celular, um iPad... O que a literatura poderia transformar? Tudo o que arte pode transformar, o nosso olhar sensível para o mundo. O Nietsche tem uma frase de que eu gosto muito; ele diz que nós temos a arte para que a realidade não nos mate. Pra mim, a literatura é a minha forma de não deixar essa realidade sombria que está aí passar por cima de mim.

Tenho trabalhado muito a literatura em narrativas curtas, porque eles leem rápido e digerem rápido. E elas os ajudam a pensar, e ajudam a viajar. E ajudam a ressignificar o mundo e a própria escrita deles, o que tem me deixado muito feliz. Claro que as disciplinas em que posso trabalhar isso estão nos cursos de Jornalismo e de Cinema. Eu vejo alunos completamente seduzidos, voltando a ler, exatamente porque eles se sentem desafiados e eles querem vencer o desafio. “Hoje vamos criar um texto jornalístico, hoje é uma crônica filosófica. Vamos ler Martha Medeiros. Vamos ler Ivan Martins. Vamos ler o Carpinejar, coisas atuais”. Então quando eu vejo que o aluno tem um potencial pra ir mais longe, aí eu vou propondo leituras individuais. Quando eles leem, eles melhoram o vocabulário, consequentemente eles têm mais segurança ao falar. Quando eu chamo pra falar na frente, grande parte se intimida. Por que eles se intimidam? Porque quem não lê tem um vocabulário reduzido a cinquenta palavras, não tem o domínio, fala repetidamente e fica constrangido. Quando não se tem um vocabulário rico e quando a pessoa não se apropria do assunto, ela não quer falar em público. E eu vou  formar um jornalista, um cineasta que não fala em público? Os grandes cineastas são grandes leitores. Os grandes jornalistas são grandes leitores. E escritores também. Dou essa consciência a eles.

Os “prêmios Nobel” em todas as áreas são grandes leitores...

Aíla Sampaio - Isso! Eu já tive aluno do curso de Contabilidade que fez blog  porque gosta de escrever. Ele quer ter uma profissão, mas ele quer ter o “ópio”. Ele quer ter a “cachaça dele”. Então a sensibilidade está em todas as pessoas e nós só podemos chegar a essas pessoas sensíveis, estimulá-las, por meio da arte. E no meu caso, assim, eu acredito nessa bandeira da literatura, porque ela nos ajuda a ressignificar o mundo. Ela é útil, porque é também lazer, é uma forma de nós viajarmos, nos transportarmos. “Ah eu não tenho dinheiro pra sair essa semana, vou ler um livro e vou assistir a um filme”. Então você está em muito boa companhia. Nós precisamos resgatar isso com urgência. E eu te digo, a falta de hábito em casa, dos pais, a falta de hábito da sociedade como um todo, a desvalorização do livro, o preço do livro e as seduções da internet, estão ‘deformando’ a juventude... Não penso em criar guerra contra a internet, pelo contrário, pretendo usá-la como uma aliada. Ou nós fazemos esse resgate, ou daqui a pouco vai acontecer o que o Saramago profetizou: o ser humano vai voltar aos grunhidos! Não vai mais falar, porque não tem mais vocabulário. Nós queremos formar pessoas criativas, inventivas. Como, se elas não leem? Como, se até o vocabulário delas é reduzido? Então, eu ainda acho que a Literatura tem uma função incrível de transformação.

Pegando esse gancho que você nos deixa, como a universidade pode trazer de volta pra formação acadêmica, que muitas vezes é falha, desde o ensino fundamental, exatamente nesse ponto do hábito da leitura, do próprio acesso à leitura, como é que a universidade pode contribuir para essa retomada de uma formação acadêmica que não vise somente a tecnologia?

Aíla Sampaio -Ela deve usar a tecnologia como instrumento. Deve apostar mais fundo nos conteúdos e na interpretação desses conteúdos, na leitura crítica desses conteúdos sempre mediada e com metodologias ativas.

Como é que você acha que hoje, a preços de hoje, com as tecnologias que temos disponíveis, como a universidade pode fazer essa nova revolução?

Aíla Sampaio -Eu converso muito com professores da área e eu digo sempre a eles que a universidade se reinventa permanentemente, sobretudo a Unifor. Nós temos um vice-reitor de graduação que é incrível. Ele tem um olhar pro mundo antenado com o que está acontecendo. Nós nos reinventamos permanentemente, a escola não. A escola parou no tempo; ela prepara pessoas para um processo seletivo, seja o Enem, seja um vestibular. Então nós recebemos um aluno “despreparado”. Se nós não temos um curso de Letras, nós não podemos fazer um trabalho efetivamente em cima da literatura. Mas nós podemos fazer um trabalho efetivo em cima da leitura. Leituras de textos, leituras de imagens. Não se espera, por exemplo, que eles leiam Machado de Assis, José de Alencar, que seja imposto esse tipo de leitura, porque não vai funcionar. Nós precisamos trabalhar com leituras significativas, que respondam aos anseios desse tempo. Então a leitura tem que entrar de uma forma, digamos assim, lúdica, no sentido não exatamente de uma brincadeira, mas de uma sedução. E essa leitura precisa ser contextualizada. Essa volta do texto, essa volta da interpretação, entenda, não estou falando de uma volta de uma literatura clássica, mas a volta da leitura, a volta da escrita. E quando eu falo leitura, não é só de livro, é leitura de imagens, de olhares, de mundo.

Eu já fiz projetos aqui de levar alunos para exposições e eles, depois de visitarem, escolherem um quadro e criarem uma narrativa pra eles. E isso os seduz muito, porque a partir do momento em que o aluno olha aquela mulher do cabelo verde, do início do século XX, ele tem que voltar no tempo para compreender que, naquela época, uma mulher com o cabelo verde era uma coisa inimaginável; então o aluno vai criar a história como uma anomalia na época e tal. Mas se o aluno pegar aquela mulher do cabelo verde e trouxer pra hoje, não há estranhamento. Eu tenho alunas trocam a cor do cabelo todo mês; um dia o cabelo está vermelho; no outro, está verde e no outro, azul. Então ele começa a criar os links e vê que o passado é uma referência. De repente a juventude acha que o mundo é o aqui, é o agora, é o hoje, não tem referenciais, mas precisa ter. A maioria dos jovens não tem referenciais porque os pais, na maioria dos casos, ou não têm também ou vivem pra trabalhar, não têm o que dar pra eles. Então a universidade tem esse papel de dar referenciais pra que o aluno, digamos assim, desperte, pra que ele saia da caixa, pra que ele seja inventivo. E isso vai ajudar o aluno de qualquer curso.

Aíla, eu queria que você falasse um pouco agora como educadora, porque eu tenho algumas referências assim de você como educadora, como alguém que tem uma preocupação pra além da aprendizagem, pra além da sala de aula. Então eu queria saber como educadora, quais são as suas fontes de inspiração? E o que te interessa hoje como educadora, em termos de formação e em termos de emissão de mensagem mesmo?

Aíla Sampaio - Eu acho que o que importa na vida são os afetos. É a partir deles que tudo se constrói. Eu sou taurina. Então eu sou metade emoção, metade razão. Às vezes eu sou tão incrivelmente racional que dá raiva. E às vezes eu sou tão incrivelmente emotiva, que choro. Eu tenho uma relação com todos os alunos de mãe e filho. E a relação de mãe e filho não é só beijinho. Nunca bati nos meus filhos, mas eu os colocava de castigo. Então, meus castigos eram assim, “ah, você gosta do Fortaleza, né? Você fez isso, então você não vai ver o jogo”. Esse era o pior castigo do mundo. Eu não privo o aluno de nada, mas chamo a atenção dele quando é necessário. Fazer isso é uma forma de afeto; não se pode negar o limite que, muitas vezes, o aluno pede. Eu me envolvo muito com a história dos alunos, com o que eles fazem fora da universidade. E, na medida do possível, eu tento paralelamente dar uma ajuda a eles. Uma ajuda no sentido de ouvir, aconselhar (quando eles pedem, claro).

Na escola pública, eu já tive aluno que saiu do mundo da droga, que  pertencia a facções, que foi preso, e está em liberdade, mas naquela liberdade condicionada aos estudos. Certo dia um deles chegou pra mim e disse: “professora, me ajuda, eu tenho tanto problema pra escrever, porque eu perdi muito tempo na minha vida, mas eu quero ser psicólogo, eu quero que você me ajude”. Aí eu peguei um caderno e passei uma tarefa pra ele: “você vai escrever aqui a sua história”. Ele está escrevendo um livro. E toda semana ele me leva um capítulo pra eu ler. Às vezes passa duas semanas sem aparecer, mas sempre leva alguma coisa escrita. E vários amigos dele observam de longe olhando, como quem diz “nossa, ele vai conseguir!”. E ele vai conseguir.

Aqui mesmo na Unifor, nós não temos somente alunos com estabilidade psicológica e financeira. Muitos precisam de uma força. Temos vários alunos com muita deficiência em leitura e escrita; procuro chegar junto, “oh, vamos fazer isso aqui, você vai conseguir”. E pra mim isso tem a ver com a maternidade. Eu sou assim com os meus filhos, chego junto. Mas ao mesmo tempo eu solto e fico olhando de longe pra onde ele está indo. Há vezes que eu puxo a orelha.  Faço muitos encaminhamentos ao PAP (Programa de Apoio Psicopedagógico da Unifor), pra uma conversa. Nós, professores, temos sempre que ir além da sala de aula. Se eu percebo que o aluno precisa de ajuda ou apoio, se ele precisa e me procura, nunca o deixo na mão. Acontece até com os egressos que me pedem orientação para projetos de seleção de mestrado Eu ajudo a qualquer um que peça a minha ajuda e faço isso com o maior amor do mundo. E dinheiro e pagamento, isso aí não conta pra mim, nesse momento não, eu já tenho o meu trabalho. Eu acho que a gente tem uma missão. 

E, Aíla, isso também é a essência de um educador, não é? Quem são os educadores que são referências pra você desde sempre?

Aíla Sampaio - Olha, pra mim, o nome de referência é Paulo Freire. Ele é a construção da educação brasileira. E quando eu vejo nesse momento o Brasil tão polarizado e sacrificando o nome dele, querendo desqualificá-lo, me dá uma tristeza imensa, porque parece que estamos jogando no lixo o que temos de melhor. Eu gosto também muito da teoria construtivista. Acho inclusive que a escola tradicional tem que mudar. Nós falamos aqui que a universidade se reinventa permanentemente e a escola não. Eu ainda acredito que a criança, até a quarta série, só tem que estudar português e matemática. Ela só tem que ler, escrever, aprender os números, o básico. As outras matérias só têm que entrar a partir da quinta série. A escola precisa se transformar e descobrir também que aluno não é número de aprovação em processo seletivo, aluno é gente, é ser humano. Esse excesso de conteúdo é absurdo! É muito pouco o que fica na memória. Olha, eu pergunto sempre aos alunos assim: “vocês estudaram História do Ceará, acho que foi na sétima, oitava série, o que é que vocês lembram? Vamos falar sobre Matias Beck?!” Não lembram de nada, porque eles estudaram num momento em que o assunto não tinha significado pra eles. Você olha um aluno de ensino médio, a quantidade de apostilas em que ele estuda, porque os colégios não adotam mais livros. Os colégios fazem apostilas incrivelmente malfeitas, tudo fragmentado. Aí nós recebemos aqui na universidade esse aluno. Então a universidade tem que pensar nessa missão de aqui transformá-lo, para que ele saia um profissional completo. Um profissional só é completo quando ele é, antes de profissional, um ser humano. E é isso que penso, que eu quero e que eu faço todo dia na minha sala de aula.

Professora, você falou do Paulo Freire, dessa tentativa de sangramento que, certamente, vai ser “brecada” e negativizada, desse nome que é referencial na educação brasileira, e a gente vê muitos ataques às universidades nesse momento. Então eu queria saber a sua opinião sobre, por exemplo, essa ideia de escola sem partido. Educação é política? Educação também é política?

Aíla Sampaio - Sim, nós somos seres históricos. Todos nós somos seres históricos. Nós carregamos uma história e um poder de transformação. Eu sou contra a escola partidária, a escola em que se defendem partidos. Mas a política não pode sair da escola, o questionamento não pode sair da escola. Sobretudo não pode sair da universidade, que é o espaço do questionamento. É o espaço do pensamento. Eu pergunto aos alunos o seguinte: “o que é que vocês estão fazendo aqui na universidade? O que é que vocês esperam de um professor?”. E fico escutando. Aí eu digo pra eles: “Se vocês abrirem a internet ou procurarem bons livros, terão os conteúdos à disposição. Agora, como é que vocês vão ler na internet, e ler no livro? Que recorte farão? Como contextualizarão?”.

A função do professor, desse modo, não é ‘passar conteúdo’; é orientar os alunos como lerem, relacionarem fatos, questionarem; é estimulá-los a pensar, a serem criativos. O conhecimento está à disposição de todos: mas o que fazer com ele? Como utilizá-lo? O professor em sala de aula, hoje, não está ali, digamos assim, pra “ensinar”. Ele está pra transformar, ele está para direcionar as interpretações, a leitura de mundo, citar fontes, orientar a aquisição do conhecimento. Quando eu estou dando aula e vejo aluno anotando o que eu falo, eu entendo que ele, quando chegar em casa, vai procurar aprofundar-se. É isso que eu quero, que ele traga essas referências pra conversar e debater em sala de aula. Porque ele vai ouvir, ele vai dar a opinião dele sobre e vai ouvir a do colega, a  minha, e muitas vezes a aula flui assim. E claro que eu estou ali mediando, como uma facilitadora do conhecimento. Sala de aula sem pensamento crítico não existe. Continuo dizendo, escola sem partido é uma insanidade. E nem gosto desse nome, “escola sem partido”.

Na minha concepção, a escola precisa de pensamento crítico e não de partido X, Y ou Z. Aí, de repente, com todo esse ódio partidário, querem colocar ideologias que são também partidárias. Isso vai na contramão do que nós temos hoje: necessidade de pessoas inventivas, criativas, que façam a diferença no mundo.

Maravilha, professora! Enfim, só pra gente terminar, que eu sei que você tem uma produção também como escritora vastíssima, eu só queria que você liste os livros que você já publicou (risos), pode ser?

Aíla Sampaio - Certo, claro. Eu adoro escrever, então em 1987 eu publiquei um livro de poemas chamado “Desesperadamente Nua”. E o pessoal pensava que era poesia erótica e não era. Era uma nudez muito mais existencial. Em 1991, eu publiquei “Amálgama”, que também é um livro de poesias. Em 2009, eu publiquei “Os Fantásticos Mistérios de Lygia”, que é a minha dissertação de mestrado que eu tornei mais didática, então é um ensaio, em cima da teoria da literatura fantástica. Adoro trabalhar com a literatura fantástica, a literatura do maravilhoso e do estranho (suspiro). Escrevi, dois anos depois, um livro infantil pra uma coleção de uma editora que estava trabalhando com os livros para colégios da Prefeitura. E em 2012, “De Olhos Entreabertos”, que é um livro de poemas. Eu publico muito no meu blog, que é “De Olhos Entreabertos”, e estou com um livro de ensaios, na verdade são artigos que eu publiquei no Diário do Nordeste e outros jornais, eu vou juntar esses ensaios e publicar um livro; estou fazendo essa compilação. Tenho um livro também pronto sobre a literatura em Fortaleza, falando sobre os movimentos artísticos, sobretudo literários, no prelo ainda, porque eu preciso de patrocínio.

Esses publicados foram independentes?

Aíla Sampaio - Sim, independentes, todos independentes, menos esse infantil que se chama “Gostar ou Amar”. É para criança, na aprendizagem da leitura, diferenciar o sentido dos verbos gostar e amar. Bem elementarzinho, mas bonitinho, bem ilustrado.

Você também faz parte da academia...?

Aíla Sampaio - Academia de Letras e Artes do Nordeste. Essa academia promove encontros de escritores. A gente partilha leituras, conversa e faz comunicações. A minha tese do doutorado, por exemplo, eu estou pra falar sobre ela em um dos nossos encontros e também numa mesa na Bienal do livro que será em agosto. A professora Leônia, do curso de Psicologia, me convidou e eu vou falar sobre a questão da submissão da mulher. E vou trabalhar com Lúcio Cardoso, fazendo o link do romance dele com o cinema de Paulo César Saraceni. Quero, durante as férias, escrever também um artigo sobre roteiro adaptado. Porque professor tem que produzir conhecimento e publicar.

A tese qual foi o projeto?

Aíla Sampaio - Foi Literatura e Cinema, tradução fílmica do romance “Crônica da Casa Assassinada”, do Lúcio Cardoso, e o filme adaptado pelo Paulo Saraceni, trabalhando a questão da mulher má. Porque é mítica essa questão da mulher má. Vem desde a mitologia grega, com Hera, Medusa, e tem todo um significado quando chega à Era Cristã, com Lilith e Eva. A literatura pegou esse mote da mulher má e eu vou desmistificar. A mulher não é má, ela é interpretada como má quando atenta pra sua subjetividade e aponta para a realização de suas vontades. Eu defendo a liberdade de escolhas da mulher em minha tese.