angle-left Exposição “Yolanda Vidal Queiroz – Momentos” apresenta memórias afetivas no Espaço Cultural Unifor

Qui, 3 Outubro 2019 16:18

Exposição “Yolanda Vidal Queiroz – Momentos” apresenta memórias afetivas no Espaço Cultural Unifor

Yolanda Queiroz, óleo sore tela de Albery Seixas da Cunha. Foto: Ares Soares.
Yolanda Queiroz, óleo sore tela de Albery Seixas da Cunha. Foto: Ares Soares.

A poética casa, repleta de imagens afetivas, aporta no espaço museológico. Eis o “leimotiv” que conduz o desenrolar da memória na exposição dedicada à vida de Yolanda Queiroz (1928-2016), matriarca de uma das famílias mais tradicionais e de destaque no ramo dos negócios no Ceará, construída a partir de sua união com o empresário Edson Queiroz (1925-1982). Parte importante do acervo pessoal fará parte da exposição “Yolanda Vidal Queiroz - Momentos”, que será aberta oficialmente dia 10 de outubro, às 19h, no Espaço Cultural Unifor, sob curadoria de Denise Mattar.

Trabalho, educação e arte. Sobre esse tripé de valores simbólicos, dona Yolanda construiu o seu mundo de sentidos. Dele, fazem parte pinturas de artistas brasileiros modernistas; objetos e peças representativas da religiosidade barroca, adquiridas em suas inúmeras viagens pelo mundo; uma vasta iconografia afetiva com fotos de época, álbuns de família, manuscritos íntimos, vestuário e mobiliário próprios, além de todo um acervo de documentos e registros que dão conta da trajetória empresarial ascendente da família Queiroz.

“Um grande destaque da coleção de D. Yolanda é a arte sacra, indo da escultura barroca erudita, na qual se destacam imagens de Sant’Anna, São Pedro e São José, ao barroco popular. Há pinturas barrocas brasileiras e pinturas da Escola Cuzquenha. Muito religiosa, D. Yolanda era ecumênica, assim sua coleção inclui divindades indianas, vietnamitas, tailandesas, e um conjunto excepcional de ícones russos”, detalha a curadora Denise Mattar, que pinçou da casa da matriarca todo o acervo agora em exposição. Mãe de seis filhos e principal conselheira do criador do Grupo e da Fundação Edson Queiroz, foi ela a corresponsável inclusive por encorajar o marido a investir na criação da Universidade de Fortaleza. 

Um arquivo pessoal que promete revelar nuances de uma personagem capaz de surpreender o senso comum: dona Yolanda como a empreendedora que, longe de ser apenas figura decorativa, assumiu as rédeas dos negócios do marido após seu falecimento, chegando a ganhar o prêmio Personalidade do Ano, em Nova Iorque; a mãe de pulso forte mas doce o bastante para manter unida a numerosa família que se reunia pelo menos uma vez por semana em sua casa; a avó Landa, que mantinha o hábito amoroso de escrever bilhetinhos para os netos; a moçoila que, quando noiva, rendeu-se aos encantos de um Edson romântico capaz de oferecer-lhe diariamente buquês de bugaris, até ouvir o esperado “sim”; a esposa amantíssima que se casou aos 16 anos e guardou enternecida e a sete chaves o véu e a grinalda originais de seu casamento; a dona de casa caprichosa que não economizava nos tons de azul-turquesa, sua cor predileta, e nem na variedade de ornamentos afixados nas paredes e dispostos por ela mesma como verdadeiras instalações.

Inestimável, o relicário de Yolanda Queiroz ganha os contornos de exposição de arte a partir de uma montagem que acabou por dividir a galeria em núcleos, partindo de uma cronologia familiar para chegar à coleção particular de uma também “dama das artes”. “A mostra terá algumas características em comum com as exposições recentemente apresentadas no Espaço Cultural da Unifor, como a Coleção Airton Queiroz e Da Terra Brasilis à Aldeia Global, sendo complementar a elas e trazendo, como diferencial, peças ligadas à religiosidade barroca. Dessa forma, cria-se uma trilogia de exposições dessas importantes coleções cearenses, que também se somam à mostra Pioneiros & Empreendedores, alusiva a Edson Queiroz, realizada em São Paulo”, anuncia a curadora.

Entre os recursos cenográficos da exposição, vídeos, fotografias, cartões postais, músicas e roupas conduzem o olhar de quem também vai conhecer a própria história do Ceará e do Brasil a partir da trajetória de vida de dona Yolanda. Amalgamados, passado e presente surgem ainda em imagens plotadas nas paredes ou digitalizadas e projetadas em monitores. Além da recriação de ambientes domésticos, tal e qual se vê na casa da homenageada, o barroco é assumidamente vedete. Não à toa. “A coleção de D. Yolanda reúne santos, pinturas, pratarias, e elementos ornamentais singulares”, adianta.

Cores e nomes. De encher os olhos, a coleção da matriarca privilegia majoritariamente o Modernismo brasileiro: Di Cavalcanti, Ismael Nery, Portinari, Milton Dacosta, Guignard, Anita Malfatti,  Inimá de Paula, Eliseu Visconti, Antonio Bandeira, Pancetti, Frans Post, Cícero Dias, Volpi, Djanira, Vicente do Rego Monteiro, entre outros, constituem a espinha dorsal da exposição com fins igualmente educativos e didáticos.

“Uma das obras mais antigas da coleção de D. Yolanda é um belíssimo Frans Post. O artista veio ao Brasil com Mauricio de Nassau, ainda no século XVII, e realizou os mais importantes registros do Brasil recém-descoberto. Há também um conjunto de algumas obras clássicas, entre elas, pinturas de Eliseu Visconti e esculturas de Emilio Fiaschi, em mármore e alabastro, e de Charles Collet, em bronze”, elenca a curadora.

Há ainda o retrato de D. Yolanda assinado por Albery, obra pela qual, segundo Denise, ela nutria especial afeto. Outro patrimônio afetivo vindo à tona é um retrato de família, realizado por Lazlo Burjan, em 1970, onde se veem D. Yolanda e as quatro filhas, ainda solteiras. Assim, recriado com imaginação, o espaço vivido de Yolanda Queiroz se apresenta ao público como um elogio à memória individual e coletiva, tornando equivalentes em importância a casa e o mundo.

Obras comentadas, por Denise Mattar

 “A coleção de dona Yolanda reúne, majoritariamente, obras do Modernismo brasileiro. Di Cavalcanti ocupa lugar de flagrante destaque e é representado pelo seu tema favorito, as mulheres. De Guignard, destaca-se a obra Jardim Botânico, pintada no Rio de Janeiro, quando da volta do artista para o Brasil, e um trabalho da série que ficou conhecida como ‘Paisagens Imaginantes’, na qual o artista mistura referências da paisagem mineira com cidades imaginárias, nuvens coloridas, flores tropicais e uma verticalização que lembra a pintura chinesa”.

“Em suas melhores fases, Portinari também marca presença. ‘Despejados’ aponta para um tema caro ao artista: uma família despejada e desvalida, com seus parcos pertences, esperando à beira de uma estrada de ferro. Já ‘Retrato de João Candido’ retrata o filho do artista quando criança, com uma roupa arlequinada, numa festa junina, tema de uma série pequena e extremamente importante na obra do artista. Há ainda um casamento e um delicioso retrato da neta Denise”.

“Também vale destacar as obras de Cícero Dias, Milton Dacosta, Pancetti e um conjunto especial de Antônio Bandeira, em suas diferentes fases: do início de sua produção, ainda figurativa, trabalhos da série ‘Cidades’, obras tachistas e um trabalho incomum, de rara beleza, no qual o artista traça uma espécie de rede sobre sua tela”.

Yolanda Vidal Queiroz – Biografia 

Yolanda Vidal nasceu a 12 de novembro de 1928, em Fortaleza. Faleceu na mesma cidade, em 17 de junho de 2016. Era filha de Luiz Vidal e Maria Pontes. Ele era comerciante de tecidos e fazia negócios com João Pontes, irmão de Maria. Casaram-se em 1916 e tiveram 5 filhos: Dagmar, Zilmar, Yolanda, Vidalzinho e José Maria. O pai faleceu precocemente, aos 50 anos, mas deixou a família em boa situação financeira. Yolanda herdou do pai o interesse por tecidos e nutria especial paixão por bordados e rendas. Sua mãe fazia álbuns de fotografias para todos os filhos e esse hábito ela também incorporou à própria vida.

Divertida, animada e ótima estudante. A jovem Yolanda foi aluna no colégio das Dorotéas e lá foi sempre a primeira da classe. Estudava francês, inglês e seus cadernos, impecáveis, não à toa estão em exposição. Era uma memorialista nata. Fazia álbuns de fotografia de toda família e, posteriormente, das empresas Edson Queiroz. Foi aluna de piano do compositor Mozart Ribeiro. Guardou objetos de sua infância, sua roupa de batizado, bonecas, recortes de jornal com os sonetos de Padre Antonio Tomaz, cadernos e boletins escolares.

Conheceu Edson Queiroz no dia 28 de março de 1945, quando tinha apenas 16 anos, e ele ia fazer 20. Paixão fulminante e no dia 18 de abril ficaram noivos. Casaram-se no dia 8 de setembro do mesmo ano, na Igreja do Carmo. Apesar da pouca idade, Edson já era sócio do pai quando se conheceram e foi expandindo seus negócios.

Yolanda participava muito das decisões que Edson tomava na constituição dos negócios. O crescimento empresarial dele, portanto, deve muito a ela. E cada conquista marcou época. Entre elas, a Loteria Estadual do Ceará, 1947; Loteria Estadual de Pernambuco, 1948; a criação do Abrigo Central, 1949; a Companhia de Gás, 1951; a Rádio Verdes Mares AM, 1961; a Esmaltec, 1963; a Tecnorte, 1963; a Cascaju, 1968; a TV Verdes Mares, 1969; a Universidade de Fortaleza, 1971; o Troféu Sereia de Ouro, 1971; a Água Indaiá, 1979; o jornal Diário do Nordeste, 1981.

O casal teve intensa vida social e a casa reflete até hoje a ampliação desse círculo afetivo, em almoços e jantares memoráveis, sempre organizados por dona Yolanda. Foi dela a ideia para criar a Universidade de Fortaleza e até o final de sua vida acompanhou de perto a realização do prêmio Sereia de Ouro, organizando o evento e preparando convites.

O casal teve seis filhos, na seguinte ordem: Airton, Myra Eliane, Edson Filho, Renata, Lenise e Paula. A morte de Edson Queiroz em um acidente aéreo, em 1982, foi um choque, mas a matriarca não esmoreceu e foi trabalhar no grupo, junto aos filhos Airton e Edson. Yolanda Queiroz não era uma figura decorativa, acompanhava de perto os negócios e quando dizia “não” era acatada prontamente pelos demais. Interessante observar que Yolanda foi mãe de Airton quando tinha apenas 17 anos. Sua proximidade com ele, portanto, era grande. Era uma mãe e uma avó exemplar, do tipo que mandava bilhetinhos carinhosos para todos, filhos, netos e bisnetos. Sofreu extremamente com a morte precoce de sua filha Myra, em 2006, e de Edson Filho, em 2008. Outro aspecto conhecido apenas dos seus familiares era a beleza com que decorava sua casa, dando a tudo um toque absolutamente especial e particular. Cercava-se de belas obras de arte e fazia verdadeiras “instalações” em ambientes diversos.

Em 20 de maio de 2008, foi a primeira mulher agraciada com o Título de Personalidade do Ano, pela Brazilian- American Chamber of Commerce, New York. Ao receber o prêmio, Yolanda fez questão de atribuí-lo ao seu marido, observando, entretanto, que sentia nele uma homenagem a todas as mulheres.

Faleceu em Fortaleza, em 17 de junho de 2016. No dia de sua morte, receberia da Federação do Comércio, Bens e Serviços do Estado do Ceará (Fecomércio-CE) a medalha Clóvis Arrais Maia.

Na exposição, o público visitante terá a oportunidade de conhecer alguém excepcional e à frente de seu tempo, que deixou obras de arte, uma universidade, um clã e progresso para o Ceará.

Comendas e homenagens

Yolanda Queiroz recebeu inúmeras homenagens, comendas e diplomas, entre os quais destacam-se:

  • 1989 - Medalha Mérito Mauá (Grau Cruz Mauá) do Ministério dos Transportes. Brasília.
  • 1990 - Honra ao mérito da Prefeitura Municipal de Fortaleza, por meio da Fundação Cultural de Fortaleza pelo Dia Nacional da Cultura.
  • 1997 - Homenagem da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Ceará, pelo destaque em prol do desenvolvimento social cearense. Fortaleza.
  • 1998 - Troféu Carnaúba da Associação Comercial do Ceará, em seu 132º aniversário de fundação. 
  • 1998 - Comenda Benfeitor da Criança da Cidade. Prefeitura Municipal de Fortaleza.
  • 2001 - Medalha Virgílio Távora, da Federação das Associações do Comércio, Indústria e Agropecuário do Ceará (Facic). Fortaleza.
  • 2001 - Ordem do Mérito Cívico. Brasília.
  • 2007 - Ordem do Mérito Industrial da Confederação Nacional da Industria (CNI), Fortaleza.

Serviço

Exposição “Yolanda Vidal Queiroz - Momentos”
Abertura oficial:
10 de outubro, às 19h
Local: Espaço Cultural Unifor
Período de apresentação: 11 de outubro de 2019 a 1º de março de 2020
Horário de funcionamento: 9h às 19h (terça a sexta-feira) e de 10h às 18h (sábado e domingo)
Aberto ao público