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Seg, 11 Maio 2020 10:30

Entrevista Nota 10: a ciência diante da pandemia

Divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira destaca as perspectivas da ciência no cenário causado pela Covid-19.


Hugo Fernandes-Ferreira é formado em Biologia, com pós-doutorado em Ecologia, professor e divulgador científico (Foto: Divulgação)
Hugo Fernandes-Ferreira é formado em Biologia, com pós-doutorado em Ecologia, professor e divulgador científico (Foto: Divulgação)

Em tempos de pandemia, a esperança da descoberta de um medicamento ou uma vacina contra o coronavírus tem aberto à ciência um espaço de visibilidade raramente visto na mídia e nas rodas de conversas virtuais. O anseio pela cura e por salvar vidas tem mostrado a importância dos investimentos intermitentes em ciências e tecnologia. É (e sempre foi) através de pesquisas e estudos científicos que o mundo tem se guiado no combate à ainda desconhecida Covid-19.

E na corrida dos cientistas por desvendar as peculiaridades do novo coronavírus e seus antídotos, milhares de teorias de espalham diariamente pela internet. Ao lado de dados sérios, correm as diversas notícias falsas sobre a doença. Ao lado da imprensa, os divulgadores científicos têm tido um papel importante na informação da população e no combate às fakenews. 

Formado em Biologia, com pós-doutorado em Ecologia, o professor e divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira tem sido uma dessas pontes que estão encurtando caminhos entre o que cientistas do mundo todo estão publicando sobre a covid-19 e a população ávida por informações. Para um público de aproximadamente 87 mil seguidores apenas no Instagram (@hugofernandesbio), ele transforma os dados científicos em informações acessíveis a todos os públicos, com uma linguagem clara e didática.

Nesta Entrevista Nota 10 ele fala sobre o papel do divulgador científico e sobre as perspectivas da ciência neste cenário de pandemia. Destaca também o trabalho árduo de tentar combater o uso político de informações sobre a Covid-19 e a importância de levar a ciência à sério. “Quando se perde a ciência, se perde a razão. Quando se perde a razão, se perde a democracia. É um ponto chave para o Brasil”, conclui. 

Neste cenário da pandemia de Covid-19, qual tem sido a importância dos divulgadores científicos?

Eu acho que os divulgadores científicos são hoje, ao lado da imprensa tradicional, as fontes mais confiáveis para informação relacionada à pandemia. Por quê? Nós temos técnicas e apego aos fatos. Então, as técnicas que os jornalistas usam são diferentes das nossas, mas elas acabam se complementando. E em termos de adaptação da linguagem científica para o apego, esses mundos são muito experientes. Eu acho que a divulgação científica tem uma vantagem em relação ao jornalismo porque, geralmente, a gente tem acesso direto à fonte de uma forma prática e instantânea. Então, o artigo sai numa revista e em minutos ou poucas horas, a gente tem o acesso ao artigo e, a nossa facilidade de entender, por conta do nosso histórico, óbvio, ela é um pouco melhor. Jornalistas científicos também têm essa capacidade, mas, geralmente, jornalistas precisam de uma ponte, de um especialista entre a fonte original da notícia até chegar na imprensa. Essa ponte geralmente é um pesquisador ou vários pesquisadores. Eu acho que a vantagem da divulgação científica é essa: a gente já tem a ponte, ela é mais curta ou, às vezes, nenhuma porque somos a própria ponte. Em compensação, o jornalismo tem uma série de vantagens, tipo uma estrutura de organograma melhor. Então, acho que se complementam, na verdade. Hoje, eu acho que a divulgação científica e a grande imprensa estão bem abraçadas de uma forma positiva.

Com a pandemia de Covid-19, os estudos científicos estão diariamente na mídia, o mundo todo está com os olhos voltados para o que os cientistas estão fazendo porque é praticamente uma questão de sobrevivência da humanidade descobrir um antídoto para o coronavírus. Mas em outros tempos não é bem assim e a gente sabe que, graças às ciências, nos salvamos diariamente. Então por que a ciência não tem tanto espaço no cotidiano das pessoas, na mídia? 

Porque a ciência é uma espécie de mão invisível das soluções diárias de cada pessoa. Uma pesquisa que saiu em 2019 dizia que o brasileiro gosta de ciência. A aceitação dele em relação à ciência é alta. Porém, a percepção que ele tem de ciência é a tecnologia que chega na mão dele. Então, de alguma forma, ele consegue relacionar ter o smartphone na mão com ciência, mas, não necessariamente percebe a ciência. Ele valoriza a ciência enquanto método, enquanto caminho para buscar a solução. Ele não faz a menor ideia de como é esse método. Quando ele pega o smartphone, por exemplo, e coloca o dedo no touchscreen, não tem a menor ideia de como foi descoberto ou desenvolvido o touchscreen. Ele não sabe as milhares de pessoas que passaram por ali para que aquilo chegasse na mão dele. As pessoas não percebem porque falta educação formal para isso, mesmo os altamente escolarizados, não têm uma boa formação científica, mesmo em áreas de ciência, onde a ciência é relacionada. Não necessariamente ter celular tem uma boa formação científica. E quando isso vai para as camadas menos abastardas em relação à escolaridade, acaba se agravando. Então, o que a gente precisa? Que ao longo do processo, todo o dia, a ciência seja uma pauta, inclusive, política. Vou dar um exemplo: a causa animal é algo que gera milhões de votos. Alguns dos deputados mais bem votados ou vereadores mais bem votados têm a causa animal como sua principal bandeira. Mas, em compensação, que cientista, por exemplo, foi eleito? Nenhum único político tem sido eleito com uma pauta de ciência. E, ciência, vai tudo em quanto é processo - não desrespeitando a causa animal, afinal, eu sou zoólogo, respeito demais. Mas, a ciência, em termos de importância vital, política, tem um grau de importância muito maior. Mas, ela não gera voto. Então, isso é um ponto que precisa mudar também.

Você acredita que após a pandemia a ciência no Brasil será mais valorizada?

Acho que, em alguma parcela, sim. A inserção da ciência no debate político, inclusive, deve mudar. Eu não espero muito. Acho que a gente vai passar por uma crise econômica muito grave e, ao mesmo tempo, a gente vai ter um balanço do debate científico muito importante. Um crescimento, sim. Agora, se vai ser a redenção dos cientistas diante da crise que a gente vai ter, acho muito difícil que seja nesse nível de animação. Enfim, acho que em um nível sim.

Comparando com o restante do mundo, podemos dizer no Brasil que fazemos uma boa ciência? 

No Brasil se faz boa ciência. O Brasil tem mentes brilhantes e o brasileiro, por si só, tem uma capacidade de se virar e de, portanto, saber responder perguntas que eu acho improvável. Agora, claro, não adianta nada nós termos intelecto e não termos estrutura. Então, comparando com o resto do mundo em termos de financiamento, por exemplo, a situação do Brasil é mais do que caótica. Ela é o fundo do poço e parece que nós temos um alçapão, né? Nós estamos sofrendo cortes vertiginosos de orçamento desde 2014 e, em 2020, o cenário piorou, está bem pior. E a projeção é que piore ainda mais com a expectativa de uma crise econômica. Na realidade, o que precisa ser pontuado é que se você quiser sair da crise, você precisa fazer o inverso: é na crise que se precisa investir em ciência e tecnologia. Porque essa foi a receita, inclusive, de países pós-guerra, por exemplo. Japão se reconstruiu desse jeito depois de duas bombas atômicas. China se reconstruiu dessa forma também. Toda a Europa foi dessa forma. Foi no auge da crise que os investimentos percentuais em educação e ciência cresceram. O que a gente faz é exatamente o contrário. A gente tende a tirar primeiro de ciência e educação. Então, desse jeito, é muito difícil que a gente consiga o espaço de soberania mundial em qualquer assunto, não é só ciência. Ciência é tudo, inclusive, economicamente. Se depender de corte de ciência e educação, a gente vai ficar mais quinhentos anos dependendo de vender soja, boi, laranja, café, algodão e seja lá quantos foram os ciclos que a gente ficou dependente, aí pra trás, dependendo do que dá na terra. Isso não é sustentável.

Quais riscos corremos ao termos líderes governamentais e parte da população que pautam suas decisões por achismos ou mesmo por estudos científicos ainda em andamento ou inconclusivos?

O risco que a gente tem é ter uma população apática e anestesiada a governos autoritários porque se a gente perde a razão, o que sobra é o fanatismo. E quando há fanatismo, os ídolos são imunes a perguntas, né? E o Brasil afunda e a população afunda junto, ainda idolatrando. Isso serve pra qualquer espectro político: de esquerda ou de direita. Então, quando se perde a ciência, se perde a razão. Quando se perde a razão, se perde a democracia. É um ponto chave para o Brasil. Gosto muito de comparar com o Irã que, na década de 1970, era um país democrático, com liberdades econômicas, inclusive, não só individuais. Por conta da perda da razão e o avanço de um fundamentalismo religioso, o Irã virou o que virou. Só que o Irã tem petróleo (risos) e o Brasil não.

Ao mesmo tempo em que a internet massificou o acesso a informações, trouxe também o risco da desinformação com as fakenews, as mensagens apocalípticas ou as curas milagrosas. O que tem sido mais difícil nesse período de Covid-19: traduzir os dados científicos para a população leiga ou desmistificar as fakenews?

Disparadamente, o mais difícil tem sido combater a contrainformação. É diferente de desinformação. A contrainformação é uma estratégia direcionada de distorcer e mentir fatos reais e dados científicos em prol de um determinado viés político. Esse é, definitivamente, o pior cenário que a gente poderia ter. No meio de uma pandemia, eu não estou simplesmente tentando explicar para a dona Maria José que gargarejar chá de alho não é legal. Isso aí dá trabalho, é ruim, isso é fakenews. Mas, muito mais trabalhoso quando você tem forças políticas desinformando e contrainformando. Isso é um combate absolutamente injusto porque é muito difícil você escolher um caminho científico baseado em dados reais pra salvar vidas - porque o objetivo é esse - e numa outra parcela ter que explicar para as pessoas, por exemplo, que o pronunciamento do presidente tá errado. Isso é muito complicado.

Do ponto de vista científico, o que vai mudar no mundo depois dessa pandemia?

Tudo! Nós temos o mundo pré e o mundo pós coronavírus. O mundo que a gente conhecia em janeiro de 2020 é um mundo que não existe mais. “Ai, Hugo, que apocalíptico!” Não, não necessariamente estou dizendo que vai ser ruim (risos). Eu sei que a maneira como a gente vai se relacionar, por exemplo, a forma como a gente vai construir a nossa economia, circular, vai ser diferente. Agora, a gente vai ter que se adaptar. Nós somos seres humanos, a gente tem um cérebro incrível, maravilhoso! A gente tem uma capacidade de adaptação que nenhuma outra espécie no planeta tem. Então, a gente vai se adaptar sim! É muito difícil prever várias coisas. Saber, por exemplo, como o corona vai se comportar. Hoje a gente tem uma projeção - não vou dizer muito exata porque é muito difícil apontar alguma exatidão agora - mas a gente sabe que há altíssima probabilidade de ter quarentenas periódicas. Então, a gente vai mudar muita coisa: a maneira como a gente vai estabelecer as nossas relações comerciais e sociais vai mudar bastante. A gente pode apontar o que vai acontecer em algum nível, mas quais serão as consequências e exatamente como é que a gente vai estar é muito difícil. A gente precisa colocar assim: há um mundo pós coronavírus.

E essas previsões de quarentenas periódicas estão levando em consideração a possibilidade do surgimento de uma vacina ainda esse ano? 

Muito difícil que isso aconteça para começar. As notícias que chegam “ah, vai ter uma vacina agora!”. O que que é isso? É a técnica, é preparar o vidro. Você prepara o fármaco e agora vamos testar. O “testar” envolve anos! A vacina mais rápida a ser produzida levou cinco anos. A média são 10! Mas eu acho que a ciência está correndo avassaladoramente para conseguir produzir uma vacina. Avassaladoramente! Então, eu acho que o recorde vai ser quebrado e com folga. Mas, esse ano, em larga escala, acho difícil. É porque quando você tem o fármaco pronto, existem vários tipos de teste. Cada vez que o teste dá errado, você tem que voltar. E por que que tem que ser assim? Porque você está falando de um remédio que tem que dar certo pra bilhões de pessoas saudáveis. É diferente de um remédio. Um remédio, por exemplo, você tem uma infecção intestinal e você também tem. O médico vai receitar para mim um remédio específico considerando as minhas condições de saúde e para você, ele pode até indicar o mesmo remédio, mas vai ter que considerar as suas alergias, o seu grau de infecção e várias outras coisas. Com a vacina, não! Uma vacina é um remédio para bilhões de pessoas e tem que dar certo! Não pode dar errado. Então, os testes são muito longos.

Corremos o risco de ter vírus Sars-CoV 3, 4, 5?

Matematicamente falando, sim. Agora, probabilisticamente falando, o quão provável é isso, é muito difícil de dizer porque está muito cedo. A gente não sabe, por exemplo, qual é a frequência de reinfecção. A pessoa que ficou curada há mais tempo de coronavírus, ficou curada há dois meses. A gente não sabe o potencial de uma reinfecção, de mutação, isso é uma coisa que também demora um pouquinho.