angle-left Entrevista Nota 10 com Edson Arakaki, presidente da Associação Brasileira de Transplantados

Seg, 16 Setembro 2019 14:50

Entrevista Nota 10 com Edson Arakaki, presidente da Associação Brasileira de Transplantados

Edson Arakaki foi medalhista nas Olimpíadas de Transplantados da Suécia em 2011 e da África do Sul em 2013. Em 2001, recebeu um rim doado pela sua irmã. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edson Arakaki foi medalhista nas Olimpíadas de Transplantados da Suécia em 2011 e da África do Sul em 2013. Em 2001, recebeu um rim doado pela sua irmã. (Foto: Arquivo Pessoal)

Criada em 2017, a Associação Brasileira de Transplantados (ABTx), com sede em São Paulo (SP), reúne hoje 2.253 associados. São pessoas que já passaram pelo drama de precisar da solidariedade de alguém para sobreviver ou voltar a ter qualidade de vida. A melhora do estado de saúde dos transplantados é tão significativa que cerca de 40% dos associados são esportistas e participam das ações de esportes promovidas pela ABTx.

Em entrevista, o presidente da entidade, o gastroenterologista Edson Arakaki, falou sobre os gargalos do programa de transplantes do Brasil, indicou algumas ações que poderiam diminuir ou até zerar a fila de transplantes e ressaltou a importância da realização de ações educativas e de conscientização como a Doe de Coração, realizada pela Fundação Edson Queiroz.

Confira a entrevista

O Brasil é uma referência mundial em transplantes de órgãos, porém, ainda temos mais de 30 mil pessoas aguardando na fila. Como você avalia esses dados? Temos o que comemorar?

Edson Arakaki - O programa de transplantes de órgãos no Brasil, sem dúvida, é um dos exemplos de programa de saúde que é modelo para o mundo, assim como é o caso do programa de tratamento da Aids. Porém, de acordo com o registro da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), temos hoje quase 34 mil pessoas na fila, aguardando um órgão. O que é muito angustiante, pois, apenas em 2019, 825 pessoas morreram nesta fila esperando um órgão. Destas, 19 eram crianças. Portanto, apesar de ser um bom programa, não há motivos para comemorar. Só vamos comemorar quando zerarmos esta fila.

Quais são os principais entraves hoje para a doação de órgãos e para a efetivação dos transplantes?

Edson Arakaki - Acredito que temos três áreas em que podemos melhorar para que a efetivação do transplante ocorra. A primeira é aumentar o número de notificações. Isso depende dos médicos notificarem casos de morte encefálica. A segunda é que, de todos os potenciais doadores notificados, foi possível conversar com a família apenas em aproximadamente 50% dos casos. Ou seja, precisamos de mais equipes capacitadas para as entrevistas com as famílias e mais recursos para atingir todas as regiões. A terceira é que, quando foi possível fazer a entrevista com a família, o número de recusa familiar (40%) ainda é muito alto, ou seja precisamos aumentar a conscientização das pessoas sobre a doação de órgãos e tecidos.

Como poderíamos melhorar as nossas estatísticas?

Edson Arakaki - Com base nos dados acima, acredito que um programa de comunicação e conscientização para os profissionais da saúde para aumentar a notificação dos casos de morte encefálica, treinamento e capacitação continuada das equipes que fazem as entrevistas familiares, e um programa continuado de educação sobre a importância da doação órgãos para a população, ajudariam muito a melhorar estas estatísticas. Apenas aumentando a doação vamos diminuir e até mesmo ZERAR a fila de transplantes.

Qual é o papel da Associação Brasileira de Transplantados? Que tipo de ações são realizadas pela entidade?

Edson Arakaki - A ABTx (Associação Brasileira de Transplantados) é uma entidade nova, nasceu em 2017. No início, o objetivo principal era promover a atividade física, como forma de reintegrar a pessoa transplantada no convívio social e laboral. Porém, em 2018, enfrentamos uma séria crise com a falta de medicamentos imunossupressores, que são essenciais para manter os transplantados vivos. Isto fez com que víssemos a necessidade de lutar pelos direitos dos transplantados de maneira mais ampla, desde a falta de medicamentos até as melhorias nas políticas públicas que envolvem a saúde. A ABTx moveu ações judiciais contra o Ministério da Saúde sobre a falta de medicamentos. Estamos elaborando um Projeto de Lei que garanta cotas de trabalho para a pessoa transplantada. Além disso, a entidade promove várias atividades relacionadas à atividade física e esporte, como corridas de rua e vamos organizar agora em novembro os I Jogos Brasileiros para Transplantados, em Curitiba. Também realizamos campanhas sobre a conscientização sobre a doação de órgãos.

A ABTx possui 2.253 associados, dos quais 800 são atletas, o que é um número muito alto proporcionalmente. São pessoas que já eram atletas antes de passarem pelo transplante ou elas descobriram os esportes depois do procedimento? Fala um pouquinho sobre essa relação transplante X esportes.

Edson Arakaki - Foi uma surpresa superpositiva para a ABTx quando vimos o número expressivo, aproximadamente 40% dos transplantados do nosso cadastro que praticam uma atividade física. Isto é mais do que a população em geral. Destes, cerca de 300 são esportistas mesmo, ou seja, praticam um esporte regularmente e alguns em nível competitivo.

Acreditamos que, sem dúvida, podem ser pessoas que já praticavam algum esporte antes do transplante, mas também há muitas pessoas que começaram a praticar uma atividade física depois do transplante, pois, após o transplante, a melhora da qualidade de vida é tão impressionante que a pessoa volta a ter energia e motivação para coisas que antes ela estava impossibilitada de fazer, inclusive praticar esportes. A sensação de voltar a viver é o direcionador para uma mudança de hábitos e do padrão de vida.

Estamos em setembro, mês em que se celebra o Dia Nacional de Doação de Órgãos e que a Fundação Edson Queiroz promove, há 17 anos, a campanha Doe de Coração. Qual a importância de uma campanha tão expressiva como esta?

Edson Arakaki - Quando soube que a Fundação Edson Queiroz já faz esta campanha há 17 anos, fiquei completamente boquiaberto, pois este é quase o tempo do programa de transplante no Brasil. Sem dúvida a Fundação Edson Queiroz deve ser uma das pioneiras na luta pela causa da doação. São atividades como esta que ajudam a diminuir a fila, como estávamos comentando anteriormente. Apenas trabalhos educativos continuados é que surtem efeito. Por isso que o Ceará é hoje um dos centros de referência para transplante de órgãos. Não tenho dúvidas que o trabalho da Fundação Edson Queiroz tem uma parcela importante neste alto nível de excelência que o estado do Ceará atingiu na área de transplante, que é um procedimento de alta complexidade, que para ser bem-sucedido necessita de profissionais qualificados e altamente capacitados. Portanto, além de ajudar a ZERAR a fila, o programa de transplante ainda ajuda a manter profissionais de alta qualidade nos serviços de saúde do Ceará, o que no final beneficia toda a população.