angle-left Admirável mundo solidário: a responsabilidade social por meio do voluntariado

Sex, 12 Junho 2020 13:00

Admirável mundo solidário: a responsabilidade social por meio do voluntariado

Estudantes e professores da Universidade de Fortaleza se dedicam à responsabilidade social por meio de iniciativas de voluntariado


Na Universidade de Fortaleza, o foco na potência do coletivo e na capacidade de prestar atenção ao outro vem sendo aprimorado pelos alunos (Foto: Divulgação)
Na Universidade de Fortaleza, o foco na potência do coletivo e na capacidade de prestar atenção ao outro vem sendo aprimorado pelos alunos (Foto: Divulgação)

Em meio à pandemia global do novo coronavírus, as máscaras que encobrem os sorrisos não são capazes de esconder ou apagar as múltiplas formas de sorrir para o mundo. Na Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, as ações solidárias e de voluntariado dizem sobre atitudes e valores que prometem se tornar hegemônicos quando as sociedades voltarem a interagir plenamente: empatia, união, generosidade, comunhão, cuidado. Tudo isso, junto e misturado, está na base do trabalho de alunos e professores que se dedicam à responsabilidade social e à formação humanística na Unifor. 

Ninguém é uma ilha

Um vírus fatal fez trincar o espelho de uma sociedade narcísica e individualista ao extremo. Paradoxal, a pandemia da Covid-19 expôs o ser humano à dor e ao isolamento, mas também lembrou ao mundo globalizado que nenhum homem é uma ilha. Assim, olhar para além do próprio umbigo se tornou questão de ordem, ou melhor, de sobrevivência, já que, ao cair doente, o “eu” narcísico perdeu espaço para o senso de coletividade, aquele que diz “nós” e   tem como lema a empatia, concentrando todos os seus esforços na busca pelo bem-estar comum. 

Na Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, o foco na potência do coletivo e na capacidade de prestar atenção ao outro vem sendo aprimorado: seja através do projeto Jovem Voluntário ou das Ligas Acadêmicas, a formação humanística e a responsabilidade social estão na ordem do dia de quem busca qualificação técnica e científica para seguir uma profissão, de preferência imune à doença do individualismo. “A formação de jovens atentos ao exercício da cidadania e à melhoria da comunidade sempre esteve no cerne do projeto Jovem Voluntário, que, aliás, quando começou, em 2003, se chamava Jovem Cidadão. No início, eram 25 alunos do Centro de Ciências da Saúde interessados em levar atividades lúdicas para três instituições filantrópicas. Com o tempo, a procura foi tanta que tivemos que fazer seleção. Hoje, a cada semestre, cerca de 247 acadêmicos de diversos cursos de graduação e pós-graduação são selecionados. Isso diz sobre o quanto o voluntariado tem impactado positivamente neles e naqueles que são beneficiados”, orgulha-se a doutora em Saúde Coletiva e coordenadora do projeto Jovem Voluntário, Renata Carneiro Ferreira

Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI), Hospital Infantil Albert Sabin, Casa de Apoio Sol Nascente, Associação Peter Pan, Lar Torres de Melo. Doando tempo e dividindo atenção entre crianças, adolescentes, adultos e idosos abrigados em instituições filantrópicas, jovens voluntários da Universidade de Fortaleza conheceram de perto a rotina de tratamento de quem sofre com câncer, é HIV positivo, demonstra sinais de senilidade mental ou simplesmente padece de solidão. Presença revigorante entre os mais frágeis, eles são, segundo Renata, os “Amarelinhos”, em alusão à cor da camisa do time solidário. E basta que apontem nas salas de espera dos ambulatórios ou mesmo nos leitos dos hospitais para que o clima de desânimo dê lugar ao sorriso cúmplice. Mas há pouco mais de três meses, ela lembra, a cena não se repete. É que o trabalho presencial feito de calor humano vem respeitando o período de isolamento social imposto pelo novo coronavírus. Assim, jogos, brincadeiras, músicas, karaokês, pinturas, festas e dias da beleza estão suspensos. 

À espera da retomada in loco, o projeto Jovem Voluntário recupera e organiza a própria história no ambiente virtual, através de uma série de fotos e depoimentos postados no instagram (@jovemvoluntario) sobre o impacto do voluntariado naqueles que bem cedo escolhem se doar. “Esse tempo qualificado e deliberadamente doado ao outro vem de quem tem uma vocação muitas vezes nata de se voluntariar, mas também se reverte em competências, ou seja, trata-se de um exercício de alteridade que, certamente, vai formar profissionais diferenciados, com uma outra visão de mundo, muito mais rica e comprometida com o meio em que vive. Isso será algo que os novos tempos, pós-pandemia, vão exigir e um capital simbólico importante no mundo do trabalho e na vida social”, projeta o gestor da Divisão de Responsabilidade Social da Universidade de Fortaleza, professor Marcus Mauricius.  

Aos 22 anos, a estudante de Fonoaudiologia Ana Thainá de Andrade Pessoa, não tem dúvida sobre o potencial transformador do projeto Jovem Voluntário. Como atual estagiária, ela já passou por todas as instituições assistidas e tem cravado na memória cada sorriso arrancado em diferentes contextos de enfermidade. “Lembro especialmente de uma tarde de recreação na Associação Peter Pan, que acolhe crianças com câncer. Quando saímos de lá fomos a uma lanchonete em frente, para encerrar aquele dia de voluntariado. Foi quando o pai de uma das crianças atravessou a rua e veio sentar conosco, simplesmente para chorar e desabafar. Ele não queria chorar na frente da esposa e nem das filhas gêmeas, que tinham acabado de receber um diagnóstico delicado. Confortar aquele pai e perceber a confiança que ele depositou em nós foi algo muito forte. Choramos juntos e sei que todos saíram dali mais fortalecidos, sentindo que o simples compartilhar de uma dor pode trazer algum alento e força para seguir lutando”, descreve.

Outra lição inesperada veio do Lar Torres de Melo, abrigo e lugar de assistência aos idosos. “A gente tende a achar que o ambiente de um lar de idosos é necessariamente triste e marcado por cenas de abandono. Mas não é bem assim. Muitos têm plena consciência das escolhas que fizeram na vida até chegar ali. E não se arrependem. Ao contrário, têm orgulho de contar como são felizes com pouco. Eu aprendi muito ouvindo aquelas histórias de afetividade e perseverança. E foi um tapa na minha cara chegar lá para ajudar com um sentimento de pena e sair tomada de admiração. Acho que pena não deve ser aquilo que impulsiona o voluntariado. Hoje, o que me move são outros sentimentos: empatia, solidariedade, amor ao próximo, identificação e uma vontade real de levar algum prazer para quem está frágil. Quem sai cansado ou desmotivado de um trabalho voluntário não está trabalhando direito. Se estiver, certamente sairá motivado para enfrentar dificuldades e lidar com as dores do mundo. Por isso é um aprendizado mútuo e da maior importância”, aferra.

Estudante de enfermagem, Rayanne Almeida Ribeiro, 23, também vivencia o voluntariado no projeto Jovem Voluntário desde 2018. A profissão escolhida, por si só, já justifica a atenção e dedicação dispensadas ao outro. Mas o treino, ela sabe bem, não vai torná-la apenas uma enfermeira mais sensível e capaz de se condoer com a dor de quem passar pelos seus cuidados. “Responsabilidade social também exige força interior e é isso que eu mais recebo como recompensa pelo trabalho de voluntária. Não esqueço a criança de 4 ou 5 anos que conheci no Hospital Infantil Albert Sabin e, enquanto a gente brincava e pintava, perguntei sobre o estado de saúde dela e quando sairia da internação. Ela simplesmente me respondeu que não sabia, mas tinha que ser logo porque precisava sair dali para ajudar a mãe dela a cuidar dos dois irmãos menores. Ouvir isso de uma criança com tão pouca idade é um ensinamento profundo. Impossível ficar indiferente e deixar de fazer algo, o mínimo que seja, pelos que mais sofrem com a falta de respeito, atenção e oportunidades. A pandemia vem levando as pessoas a se mobilizarem para ajudar o próximo. E eu espero que essa atitude de comprometimento e partilha permaneça e se multiplique”, torce Rayanne.

Medicina com carinho

Formação humanística gera ação solidária. É o que acredita a médica e coordenadora do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, professora Sílvia Melo. Criado em 2006 e avaliado com nota 5 pelo Ministério da Educação (MEC), a excelência dos processos formativos de egressos e médicos em preparação na Unifor, segundo Silvia, deve muito ao eixo profissional-humanístico. “Desde o primeiro semestre, nosso aluno vivencia ações integradas em saúde e aprimora a relação médico-paciente, visitando as comunidades e colocando em prática projetos de intervenção e assistência. No internato, são quatro meses na Atenção Primária. Temos ainda um mês dedicado à Saúde Mental e um Programa de Residência em Geriatria de um mês também, com assistência permanente no Lar Torres de Melo. O NAMI é um hospital e laboratório modelo, atendendo sobretudo a comunidade do Dendê, com a qual temos ligação direta em termos de acompanhamento integral. Tudo isso diz sobre o diferencial dos médicos formados na Unifor, que, para além do rigor técnico, desenvolvem um olhar mais humanístico e demonstram ter um trato mais carinhoso e eticamente comprometido com o paciente”, observa Silvia.   

Ao atentar para a formação pessoal e a atitude profissional dos egressos, o curso de Medicina também consegue fazer reverberar seu diferencial humanístico nas atividades extensivas. Exemplo disso são as Ligas Acadêmicas, que reúnem alunos e alunas de diferentes especialidades para, sob orientação dos docentes, desenvolverem ações de educação em saúde, mutirões de atendimento interdisciplinar, eventos internos e externos, além das pesquisas e publicações científicas de praxe. Protagonistas de uma formação em saúde que não se quer apenas tecnicista, partiu dos jovens e futuros médicos das ligas acadêmicas, portanto, a iniciativa de reunir as mais de 30 já existentes no Centro de Ciências da Saúde (CCS) em torno de uma causa comum e emergencial: o impacto social negativo da pandemia da Covid-19 na vida dos mais pobres e vulneráveis.

Assim é que, há exatas seis semanas, o desejo de dar as mãos daqueles que escolheram o cuidado como profissão fez nascer o projeto Ligas Unidas pelo Bem. Somando esforços, alunos e alunas do CCS vêm conseguindo doações individuais e apoio empresarial para a compra e distribuição semanal de cestas básicas e kits de limpeza junto à famílias cadastradas pelo CRAS na comunidade do Dendê, do bairro Edson Queiroz. Para a médica e assessora de planejamento do curso de Medicina da Unifor, Kelly Messias, a atitude solidária e o protagonismo do corpo discente a fim de amainar as necessidades prementes de quem historicamente é vítima de iniqüidade social são provas de que experiências curriculares extra-muros ampliam o circuito dos afetos e a visão de mundo dos profissionais de saúde em formação. 

“Cruzar os braços seria injustificável. Sobretudo para os alunos e professores da Saúde, que têm a comunidade do Dendê como uma segunda casa, já que, desde a sua fundação, a Unifor investe em ações assistenciais e extensivas ali. Os alunos e alunas do CCS não se sensibilizaram à tona, portanto. Todos conhecem de perto e desde muito cedo aquela realidade de extrema desigualdade social. Ter a compreensão do abismo que separa ricos e pobres e de todos os determinantes sociais que estão por trás dos processos de adoecimento, como violência doméstica e tráfico, por exemplo, é que vem tornando cada vez mais sensível e eficiente a relação médico-paciente e isso também se reverte em altruísmo e empatia em momentos críticos como esse”, defende Kelly.

Para quem se deixou sensibilizar e arregaçou as mangas para soprar as feridas causadas pela pandemia o trabalho de formiguinha cresce e aparece. Aluna do oitavo semestre do curso de Medicina da Unifor, Diovana Ximenes se orgulha em contabilizar os avanços do projeto Ligas Unidas para o Bem: até agora, 181 famílias do Dendê já foram beneficiadas com as cestas básicas, material de higiene e máscaras arrecadadas para doação através da campanha lançada pelo instagram (@ligasunidaspelobem) e impulsionada via whatsApp. Por último, graças ao apoio de empresas como Quit, Solarin, Laliló e Donadel, bandejas de ovos também se somaram aos gêneros alimentícios. E, no início, uma gincana promovida pelo CCS tornou possível até o fornecimento de leite. Tudo graças a uma expertise adquirida pelos estudantes frente às contingências: organizar-se a distância, contando quase que exclusivamente com as ferramentas virtuais e as redes de apoio. 

“São mais de 200 alunos e alunas direta ou indiretamente envolvidos se levarmos em conta que existem mais de 30 ligas acadêmicas no CCS. Então, nos dividimos na mobilização, divulgação e gerenciamento financeiro, disponibilizando duas contas para doação. Também nos revezamos no trabalho de entrega das cestas básicas: semanalmente, geralmente aos sábados, três ou quatro de nós vai até a Unifor, onde as doações são estocadas, para entregar em mãos, mas com máscaras e luvas, as doações para cerca de 25 famílias. Antes, ligamos e, de viva-voz, orientamos sobre o distanciamento social obrigatório nas filas e a necessidade de ir com máscara, de preferência somente um único morador, previamente cadastrado, justamente para evitar aglomeração entre grupos familiares. Isso vem garantindo a biossegurança de todos os envolvidos e beneficiados”, esmiúça Diovana.

Para ela, que planeja atuar como médica da família e também psiquiatra, cuidar do outro e não da doença é o plus que a Medicina deve, cada vez mais, incorporar. “Estamos ouvindo muitos relatos a cada ligação que fazemos às famílias do Dendê assistidas emergencialmente pelo projeto Ligas pelo Bem. E creio que, mesmo à distância, estamos nos aproximando ainda mais daquela realidade. Eu percebo, por exemplo, que a saúde mental é um problema grave que devemos continuar a prestar atenção pós-pandemia. Depressão, suicídio e medo da violência são fatores adoecedores em comunidades como aquela, que já sofre de privações de toda ordem. E essa visão mais integral da saúde nos faz ver o quanto somos privilegiados e afetados em proporções bem diferentes não só pela doença, mas pela desigualdade social. Daí porque a solidariedade deve continuar existindo como estratégia humanizada de cuidado quando o novo normal se desenhar”, acredita.      

A simples conversa ao telefone entre quem ajuda e quem é ajudado já surte um efeito terapêutico. É o que percebe a também estudante de Medicina, Livia Schmidt. “Muitas vezes fico tocada quando ligo para uma das famílias cadastradas para anunciar a doação. Todas elas vivem em situação de extrema vulnerabilidade e no cadastro do CRAS constam mais de 2 mil vivendo só ali vivendo na linha da pobreza. Queremos chegar a todas elas mas não atingimos nem 200 ainda. Isso nos dá a dimensão do trabalho que temos pela frente e que não deve parar, mesmo após a pandemia. Ali todos trazem no relato a dor de ter pelo menos algum parente internado e muitos desempregados ou em situação de informalidade, tendo que enfrentar os riscos de contágio da doença para continuar trabalhando nas ruas, já que é sua única forma de sobrevivência. E o que mais me preocupa: são muitas crianças desassistidas e bebês que estão nascendo em situação de risco e sem poder ter qualquer acompanhamento. Como futura pediatra, acho que essa nova geração vai carregar traumas profundos por conta da pandemia e é bom que desde já estejamos atentas a isso, buscando formas de minimizar tanto sofrimento, reflete Lívia.  

Aos 19 anos, como aluna do terceiro semestre de Medicina, Marina Albuquerque de Sousa Santos se envolveu na Liga Acadêmica de Palhaçoterapia e Humanização justamente para, através da graça, levar alguma leveza para os corredores dos ambulatórios e leitos hospitalares que visita sistematicamente na esteira das atividades e projetos extensionistas da Universidade de Fortaleza. Na ala dos pacientes acamados, vem dando especial atenção justamente às crianças que, mesmo enfermas, respondem positivamente à terapêutica calcada no riso. Diante do isolamento social e riscos de transmissão e contágio do novo coronavírus, guardou a contragosto o figurino de sua personagem, a palhaça Mari Pink, no fundo do armário, enquanto se ocupa da arrecadação de alimentos e materiais de limpeza e higiene junto ao grupo voluntarioso do projeto Ligas Unidas pelo Bem. E embora sinta falta do nariz, é através da escuta e do olhar que, no momento, vem mantendo vivo o seu pessoal e intransferível processo formativo humanístico.

“Acho que ver e ouvir, assim como a autopercepção enquanto profissional da área da saúde, vão fazer toda a diferença na prática, principalmente quando essa crise sanitária for aplacada e pudermos parar um pouco para entender todos os ensinamentos que a pandemia nos trouxe. Com certeza, solidariedade, empatia e a potência da alegria serão palavras-chaves incorporadas aos currículos dos estudantes e às terapêuticas médicas. É muito importante continuarmos a pensar em como plantar um sorriso no rosto de um enfermo ou de alguém sem muitos motivos para sorrir na vida, como forma de diminuir ou pelo menos compartilhar a dor do outro. Mas penso que vai ser preciso também um olhar mais atento e empático para o vizinho, para levarmos mais a sério o conceito de equidade em saúde. Ou seja, somos todos iguais sim, mas precisamos olhar especialmente e de forma prioritária para quem mais precisa. Tenho aprendido com as crianças muito sobre isso: olhar para todos como iguais e profundamente. É um olhar holístico que me chega junto com a palhaçoterapia. E já não me vejo mais sem um nariz de palhaço dentro do jaleco, porque empatia, já está provado, só faz bem à saúde”, ri-se a futura e solidária pediatra.