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Qui, 19 Novembro 2020 16:03

Alfabetizar: a doação do eterno legado do conhecimento

Ana Paula Farias, professora da Universidade de Fortaleza, fala sobre sua relação com o ensino e a importância em perpetuar o conhecimento ao próximo


Ana Paula Farias, professora do curso de Jornalismo da Unifor, dedicou parte da sua trajetória no ensino à alfabetização de pessoas menos favorecidas (Foto: Arquivo pessoal)
Ana Paula Farias, professora do curso de Jornalismo da Unifor, dedicou parte da sua trajetória no ensino à alfabetização de pessoas menos favorecidas (Foto: Arquivo pessoal)

“Alfabetizar, para mim, é uma experiência de descoberta do universo do outro e ao mesmo tempo, me descobrir e aprender sobre mim na relação com este universo”. Assim destaca a professora Ana Paula Farias, docente do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará em 1997, Ana Paula nasceu em uma família de educadores. “Meu pai é professor aposentado da Universidade Estadual do Ceará, conselheiro Estadual de Educação e atua como Secretário de Educação de Maracanaú”, comenta a professora, que também é mestra em Educação.

Durante sua infância, Ana Paula cresceu em um ambiente repleto de livros, no qual a educação era tema primordial. “Na época que meu pai tinha um colégio, eu costumava ficar escutando as suas histórias. Aquilo sempre me encantou, ao ponto de aos sete anos de idade, eu dizer que queria ser repórter e professora da faculdade. Minha casa sempre teve muitos livros de professores, eu dava uma olhada e ficava imaginando como era ensinar. Costumava pegar os manuais de professores e ficava preparando as aulas para minhas bonecas e minhas cinco irmãs. Sou a mais velha, então a gente tinha uma turma para brincar”, relembra ela.

Para Ana Paula, a consciência sobre o papel social de cada indivíduo foi despertada precocemente: no início da sua adolescência. Ainda jovem, ela já desenvolvia a perspectiva em compreender a dívida social existente com os menos favorecidos. 

“Meu pai sempre exerceu cargos de chefia na Secretaria de Educação do Estado. Durante a gestão do secretário de educação do Ceará na época, José Rosa Abreu, meu pai foi coordenador de ensino da zona rural e era coordenador do Pro-Rural. Então, eles investiram na produção de dois livros: "A Cartilha da Ana e do Zé" e "Um Certo Planeta Azul", ambos escritos pela magistral professora Luiza de Teodoro e ilustrados pelo cartunista Mino. A autora faleceu há quatro anos e foi um grande nome da educação do Ceará”, destaca a professora.

Em “A Cartilha da Ana e do Zé”, a ruptura de padrões de ensino anteriormente dedicados à população da zona rural é pertinente: a obra objetiva uma melhor adaptação ao cenário Nordestino, por meio da adoção de nomes e metodologias como “Ana” e “Zé”, que proporcionam uma melhor familiarização e entendimento para as crianças da zona rural em processo de aprendizagem.

Já a obra "Um Certo Planeta Azul" consiste em um livro manual com ilustrações, desenvolvido com o objetivo de passar de geração para geração. A reutilização do livro auxilia no combate ao descarte de livros.

Primeiras experiências ao alfabetizar 

A primeira experiência da hoje professora Ana Paula com o alfabetizar se iniciou ainda em seu período escolar. “Pedi ao meu pai os exemplares destes dois livros. Quando eu estava na oitava série, conheci Edilene, filha mais nova da lavadeira da minha casa. Ela levava Edilene sempre que ia lavar roupa na minha casa. Edilene não sabia ler, eu propus ensiná-la e ela se interessou”, revisita as memórias. 

Juntas, ela e Edilene começaram a estudar com a Cartilha da Ana e do Zé. Para ela, a felicidade em poder trocar conhecimentos era imensa, e para Edilene, os estudos eram levados a sério. “Eu inventava métodos, músicas, a Cartilha era o nosso suporte, mas a gente criava muito. Eu costumava perguntar as coisas que Edilene conhecia, pois o propósito da Cartilha é alfabetizar as crianças da zona rural a partir das vivências dela. Procurava saber sobre a realidade da Edilene, para aproximar o que estávamos estudando e usar a vivência dela no processo de alfabetização. Tem muito a ver com o método Paulo Freire”, destaca. 

Aos 13 anos, incomodada por questões sociais e com a desigualdade existente no Brasil, Ana Paula sabia que queria ser jornalista e professora. “Até 1994, só tínhamos cursos de comunicação na faculdade pública, precisamente na Universidade Federal do Ceará. Entendendo que uma universidade pública na verdade é paga por todos, e que nem todos têm acesso”, afirma. 

A futura jornalista criou então um projeto que sugeria que aqueles que tivessem acesso à universidade pública assumissem o compromisso de se responsabilizar pela educação de, no mínimo, duas pessoas. “Caso essa pessoa não tivesse aptidão para ensinar, poderia se responsabilizar oferecendo material, suporte financeiro e outras formas de auxílio. Este projeto ficou só entre nós, mas eu queria que meu pai o enviasse ao Ministro da Educação”, relata.

A professora acrescenta: “era uma forma de desenvolvermos para a sociedade e para todos que pagam impostos, um pouco do que tínhamos tido o privilégio de usufruir. O começo do pagamento de uma dívida social que eu considerava ter, por possuir acesso ao ensino público e gratuito”, destaca.

Já a segunda experiência aconteceu durante o seu período como universitária. “A segunda pessoa que alfabetizei foi Elizabeth. Era uma menina que vivenciou uma situação de abandono e o pai não tinha condições de criar todos os filhos. Portanto, minha tia se responsabilizou por sua educação. Não a adotou, pois ela tinha sua família, mas se responsabilizou pela criação. Devido à tais experiências, Elizabeth demonstrava resistência em frequentar a escola, e minha tia perguntou se eu topava alfabetizá-la. Todos os dias à noite, após minhas aulas, Elizabeth ia para minha casa e estudávamos juntas”, conta.

Aprender com o mundo do outro

A professora destaca que foi essencial compreender as questões que envolviam Elizabeth. No processo de alfabetização, ela procurou utilizar métodos diferentes, com inspiração na Cartilha e persistência. “Elizabeth aprendeu a ler, conseguiu se adaptar à escola e ver sentido. Posteriormente, eu fui saber de forma mais aprofundada, que eu trabalhei com a perspectiva de Paulo Freire, ao entender o universo daquelas duas crianças”, completa.

Além das duas experiências, Ana Paula dedicou-se durante todo o período universitário a lecionar aulas particulares para crianças, a partir da alfabetização, ao primeiro e segundo ano do ensino fundamental. 

A docente enfatiza a satisfação em ensinar e aprender com o outro durante toda a sua trajetória. “Em nenhum momento, alfabetizar o outro para mim se apresenta como caráter de caridade ou favor. Me sinto privilegiada em estar presente neste momento e em ser parte desse processo em que um mundo de possibilidades se abre para essa pessoa. É como se eu estivesse de mãos dadas com esse outro na descoberta do mundo dele”, ressalta.

Para a professora, saber que existem pessoas que não têm a oportunidade de serem alfabetizadas é uma espécie de violência. “A possibilidade de acesso à compreensão que a alfabetização dá para as pessoas, é algo que ocupa espaço sagrado para mim. Na apresentação do livro ‘Um Certo Planeta Azul, a professora e autora Luiza de Teodoro diz que a verdadeira vocação da inteligência é se maravilhar com a realidade. O domínio do código linguístico é uma dessas maneiras de descobrir a realidade para poder se maravilhar com ela. Isso me encanta, me comove e me move”, finaliza emocionada.