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Qua, 20 Maio 2020 10:39

Médicos recém-formados pela Unifor: de necessários a imprescindíveis

De súbito, os jovens médicos recém-formados pela Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, tornaram-se a carta-coringa de um jogo traiçoeiro de vida ou morte imposto pelo novo coronavírus no estado do Ceará.


Aos 24 anos, o médico Luiz Sucupira está atuando na UPA de Caucaia e no Hospital Antonio Prudente, em Fortaleza. (Foto: divulgação)
Aos 24 anos, o médico Luiz Sucupira está atuando na UPA de Caucaia e no Hospital Antonio Prudente, em Fortaleza. (Foto: divulgação)

Fora do chamado grupo de risco, essa força de trabalho novinha em folha e com fôlego dobrado para assumir uma maratona de plantões em hospitais públicos e particulares vem sendo cada vez mais solicitada a entrar na linha de frente do combate à Covid-19, enquanto profissionais de saúde em idade mais avançada, com comorbidades ou mesmo infectados, passam o bastão para os menos suscetíveis aos riscos do contato direto e execução dos procedimentos junto a pacientes hospitalizados. Decididos a jogar o jogo, egressos da Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, contam sobre o seu “batismo de fogo”, suas novas rotinas de vida e trabalho, elencando desafios e prognósticos.

Para salvar o mundo

Super-herói que nada. Egressa da Unifor, a médica recém-formada Vivian Mota, 25, não gosta nem um pouco de ser encarada como heroína diante de sua atuação contra o avanço do coronavírus no front do sistema público de saúde do Ceará. Ao contrário, prefere que a vejam como um ser humano frágil e limitado como outro qualquer, embora a sua formação lhe traga a expertise necessária para tratar e curar muitas das vítimas da doença que se espalhou pelo mundo e vem deixando um rastro de morte incalculável em seu curso. Ela admite: “foi muito choro no começo e cheguei a ter crise de ansiedade. Isso porque ninguém, nem os mais experts, estavam preparados para uma pandemia tão grave e assustadora”.

A perplexidade misturada à sensação de impotência diante do mais novo inimigo da Medicina está justamente no fato de saber o que fazer e como proceder, mas muitas vezes se sentir de mãos atadas, sem acesso aos recursos necessários para salvar vidas ameaçadas não só pela doença em si como também pelo já colapsado sistema público de saúde estadual. “Recebi pacientes precisando de UTI, intubação, ventilação, mas eu não tinha como fazer porque faltava material ou equipamento. É desesperador ver gente morrendo por não ter mais vaga, ventilador, drogas ou mesmo profissionais suficientes para cuidar. Quem é recém-formado sai da universidade querendo salvar o mundo. E a pandemia nos deu um choque de realidade brusco e quase insuportável”, observa.

Instigados a suportar e a engolir o choro diante do que está fora do controle, os médicos de primeira viagem enfrentam a tormenta buscando ainda salvar a si mesmos. Mas, para isso, segundo Vívian, também tem faltado o básico, como os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Em muitos locais só existem os macacões descartáveis e faltam os impermeáveis, únicos com os quais podemos fazer certos procedimentos, como intubação, por exemplo. Aí, nesse caso, temos que solicitar que o SAMU faça por nós. Outro problema que observo é em relação à troca dos EPIs nos horários adequados: em alguns locais, técnicos de enfermagem passam 12 horas junto com o paciente sem se desparamentar, ou seja, durante um plantão inteiro. E isso também é por falta de pessoal, já que muitos profissionais de saúde estão adoecendo e as escalas acabam ficando meio que defasadas”, ilustra. 

O adoecimento dos profissionais da saúde, de fato, gera estatísticas à parte. Segundo apuração do site G1, nada menos do que 348 deles já foram diagnosticados com a Covid-19 entre janeiro e maio de 2020 no Ceará. Preocupantes, os números entristecem, mas não mudam a rotina da jovem médica que prefere contabilizar com orgulho as horas de trabalho atualmente prestadas: a rigor, são 240 horas mensais no posto de saúde, além das 96 horas também mensais de plantão no hospital municipal de Solonópole, interior do Ceará. Aos sábados, a drª Vivian ainda encontra disposição e tempo para plantões no Hospital de Maranguape e em UPAs. Mergulhada no epicentro da crise sanitária, ela garante que é lá mesmo onde tem encontrado sentido para continuar, já que, além dos agravos e problemas, também enxerga melhorias, como a própria valorização do caráter multidisciplinar das equipes de saúde. 

“Com a pandemia, a classe médica passou a dar ainda mais valor ao trabalho exaustivo e valioso de toda uma equipe, que vai desde os técnicos, passando pelos enfermeiros até os médicos. Penso que finalmente caiu a ficha: não existe super-herói e nenhum profissional é mais necessário do que o outro. Sem um, o outro simplesmente não consegue vencer a doença. Estamos todos no mesmo barco e esperando que o mundo não seja o mesmo daqui para frente, ou seja, que prevaleçam as relações interpessoais e afetivas como fontes da verdadeira saúde”, defende a médica generalista que também tem se preocupado com o emocional da população, dela própria e de seus pares. 

Para manter o equilíbrio integral do corpo e da mente, ela diz encontrar no também recém-formado amigo médico com quem mora um apoio imprescindível e profilático. “É com ele que converso sobre angústias e desafios em comum e isso tem ajudado a nos manter focados. Particularmente, também procuro fazer exercício três vezes por semana por meio das lives da academia que já frequentava antes e cuido bem da alimentação. Esse “combo” eu recomendo a qualquer um. Tenho atendido no posto de saúde muitas pessoas com falta de ar, por exemplo, por conta de ansiedade. Um mal-estar que se espalha até entre quem não está doente e é profissional da área, como eu. Portanto, de uma forma geral, prescrevo o isolamento social como nossa principal e mais eficaz medida para evitar a doença e ir aos poucos nos trazendo calma de volta, assim como a capacidade de atendimento do sistema público de saúde, que hoje já não agüenta mais”, enfatiza Vivian.  

Trabalho de Hércules

São doze horas de trabalho por dia, com plantões que podem se estender de sete da manhã às sete da noite e/ou vice-versa. Recém-formado, o médico Daniel Cardoso, 23, ainda precisa de tempo para, como é seu desejo desde estudante da Universidade de Fortaleza, tornar-se um cirurgião. Acontece que a pandemia causada pelo novo coronavírus fez valer um enorme parêntese nesse percurso formativo quando o convocou a entrar no front de atendimento de pacientes com sintomas ou diagnósticos positivos da doença em Fortaleza. Hoje, ele atende em algumas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos hospitais Leonardo da Vinci e de Messejana, encarando a rotina exaustiva de quem dorme e acorda para se colocar a serviço de uma única causa: vencer a batalha contra a doença.

Um dia depois do outro e todos eles parecendo iguais. “Tem sido bem desgastante, presenciamos cenas bastante tristes, mas ao mesmo tempo é gratificante poder ajudar. Foi para isso que me preparei durante esses seis anos, para cuidar dos pacientes, principalmente em momentos como esse, apesar do receio em se contaminar, o que exige de nós atenção redobrada. O mais problemático tem sido a falta de estrutura, que antes já era sabida, mas que o perfil de transmissibilidade dessa doença agravou, fazendo que atingisse outro patamar, o que traz à tona um grande desafio: trabalhar com o que temos, sabendo que isso não necessariamente significa trabalhar com o melhor para o paciente, infelizmente”, desabafa o jovem médico.

A Covid-19 é também uma doença que dói no íntimo de quem cuida. “Precisei sair de casa e passei a morar só para não colocar meus parentes em risco devido a minha exposição. Há meses não abraço meus pais, minhas irmãs, minha afilhada e saber que não tenho previsão de conviver novamente com a minha família é bem difícil. Além disso, hoje, o local de encontro com amigos é no hospital, todos paramentados e trabalhando exaustivamente”, descreve Daniel. Como ele, a grande maioria de profissionais envolvidos no front de combate à pandemia no Brasil é jovem e sem fatores de risco. Rotineiramente e com o monitoramento de seniores e especialistas, eles se alimentam de artigos científicos que são publicados diariamente em todo o mundo e assim seguem se atualizando enquanto trabalham.

“Sobre o tratamento, ainda há muito empirismo. Pesquisas estão em curso no mundo todo e ainda não há uma resposta concreta. Cada centro possui seu protocolo, alinhado com o que a literatura apresenta, mas ainda é cedo para dizer qual o melhor caminho para tratar a Covid-19.O que posso dizer é que não faltam esforços dos profissionais com quem tenho trabalhado, no sentido de se atualizar e buscar o melhor para os pacientes e para nós mesmos. Quanto aos EPIs, por exemplo, acho que há uma justa conscientização sobre o uso racional deles, evitando desperdício, afinal não sabemos até quando essa doença estará presente e precisamos nos precaver”, afirma.

Para Daniel, já são muitos os aprendizados associados à crise sanitária global causada pelo novo coronavírus.  “Acredito que a pesquisa científica deve ser mais valorizada, no sentido de existirem mais investimentos e maior reconhecimento daqueles que fazem Ciência. Além disso, a valorização da classe médica, que muito tem se esforçado para o bem de seus pacientes, mesmo com todas as adversidades. A cada dia aprendemos que juntos podemos ir mais adiante se houver investimento em inovação tecnológica e avanço em pesquisa. No entanto, essa situação tem criado demandas que precisarão ser melhor trabalhadas, dentre elas a busca pela saúde mental. Ansiedade e depressão são agravos que me parece terem se tornado mais comuns diante do que estamos vivendo. E isso vai exigir atenção e cuidado”, reflete o médico que também vê no modo caloroso de vida do cearense um alento para o que virá.

Um sentimento de aliança

São quatro colegas médicas, todas recém-formadas, dividindo um mesmo apartamento desde que a maior crise sanitária do século XXI foi deflagrada com o aparecimento do novo coronavírus. Raissa Jamacaru Pinheiro Rodrigues, 28, mal colou grau na Unifor e já no dia seguinte estava com emprego certo no posto de saúde, além de uma sequência de plantões na agulha, dada a ampliação de vagas ofertadas para dar conta do fosso no atendimento de urgência e emergência nas redes municipal e estadual de saúde.

“Não sei como o sistema iria funcionar sem os novos profissionais da área da saúde que se formaram agora, como eu. Saí de casa desde o primeiro dia de trabalho. Morava com minha avó que tem 85 anos e comorbidades e minha mãe, que é hipertensa, além de minha irmã mais nova. Fui morar com três amigas que antes da pandemia também moravam com seus familiares.  Mas estar longe agora significa querer estar perto depois. Não tem outro jeito se não ficar distante. Como estou morando no Porto das Dunas, às vezes, para aliviar a saudade, pego o carro e vou na minha casa, que é no Montese, só olhar para minha mãe, minha avó e minha irmã e conversar com elas a distância. Isso dá uma renovada no ânimo”, assegura Raissa.

A rotina doméstica e profissional das quatro médicas tem exigido disciplina e resiliência, além de empatia. “Acordamos cinco e meia da manhã, preparamos nosso café e já saímos para trabalhar. Retornamos no final da tarde, limpamos a casa e esperamos todas chegarem de seus plantões, daí jantamos juntas todos os dias. É o momento em que uma desabafa com a outra e fala da sua vivência médica diária. Ter os colegas na mesma casa vem sendo imprescindível. Preparamos receitas juntas, assistimos lives de shows e filmes que gostamos e fazemos vídeo-chamadas com a família. Tudo para manter a saúde mental. Pessoalmente, faço meditação e não vivo sem leitura. Alongamentos e cross surf são exercícios que você faz em casa com o peso do próprio corpo e isso também me dá um up, porque, além dos plantões aos finais de semana, ainda temos a telemedicina junto a familiares e amigos que estão precisando”, detalha Raíssa.

A única médica da Atenção Básica do Posto Santa Fé, em Maranguape, se diz “ligada nos 220V” e disposta a assumir quantos plantões avulsos aparecerem em Fortaleza ou no interior do estado, tomando para si a tarefa de transferir pacientes graves com Covid-19 das UPAs para as Unidades de Referência, como o Hospital Leonardo da Vinci, na capital cearense. “O mais desafiador e problemático é aliar a eficácia da conduta medica com o que temos disponível no sistema de saúde, tanto público quanto privado. É muita gente doente ao mesmo tempo e a todo momento somos submetidos a tomadas de decisão junto aos pacientes que, por exemplo, precisam de um ponto de oxigênio ou de intubação. É a conduta médica ética, que quer honrar a vida daquele doente, versus um sistema colapsado. E nesse jogo, todos saímos perdendo quando alguém perde a vida por conta dos recursos indisponíveis ou insuficientes”, lamenta Raíssa.  

Para ela, o que a pandemia tem ensinado a quem cuida e é cuidado diz respeito justamente ao valor de uma vida. Ou de vidas inexoravelmente interligadas. “Não sou só eu que importa agora, porque dependo do outro para sobreviver. E o que acalenta nesse momento tão difícil é a generosidade grande que vejo entre pacientes e profissionais da saúde. Há empatia, mais do que apatia ou indiferença. Está todo mundo aprendendo uma nova forma de amar e de viver ao pensar em si e no outro. Porque não há mais como separar. Isso tem gerado um sentimento de aliança muito forte para que possamos enfrentar essa doença juntos. É a vida e o amor que vão vencer as mortes ligadas à Covid-19. Essa é a minha esperança e o desejo de vida que marca a minha conduta médica, sabendo que, assim como cuido dos meus, estou cuidando do amor de alguém, abrindo passagem para o curso de vidas emaranhadas que passam pelas minhas mãos”, conclui.

O futuro não é logo ali

 

Aos 24 anos, Luiz Sucupira, médico generalista que ainda se planeja para cursar residência, vem pisando no chão minado do pronto-atendimento a pacientes com suspeita de infecção por Covid-19 com toda cautela e racionalidade possível. Em suas 30 horas semanais de atendimento na UPA de Caucaia e Hospital Antonio Prudente, ele tem preferido, como profissional recém-formado, continuar se reportando aos médicos-assistentes de larga experiência ao se deparar com casos graves. Assim, sem soberba e ciente das muitas incertezas que ainda cercam uma doença tão nova, diz que seu maior desafio tem sido justamente lidar com pacientes que já chegam para atendimento pleiteando determinado tipo de tratamento. “Não tem nada provado em relação à eficácia da cloroquina, por exemplo. Pode ser eficaz em alguns casos, mas em outros não. E há quem insista para que usemos o medicamento. Esse conhecimento empírico e essa histeria que se espalha junto com o vírus são difíceis de lidar e comprometem desde o princípio a relação de confiança entre médico e paciente”, observa.

Para Luiz, que diante da corrida frenética em busca do tratamento e da cura da Covid-19 optou por começar a vida profissional devagar, o futuro também deixou de ser questão urgente. “O coronavírus parece ensinar o quão pequeno nós somos frente à natureza e seus mistérios. Somos mais um ser vivo no meio ambiente e não os seres superiores que julgávamos ser. Tanto que basta um vírus, que nem é considerado ser vivo, para nos paralisar e aniquilar. A medicina também não pode tudo e todo tempo muda, portanto temos que continuar nos atualizando. Não sei sequer se poderemos falar em fim do coronavírus, já que todos os anos ele pode sofrer uma mutação variante, nos levando, talvez, a usar máscaras por muitos e muitos anos pelas ruas. Por enquanto, o que sei é que devemos passar por uma educação básica para mudarmos nossos hábitos de higiene e aprendermos a lidar coletivamente com doenças cada vez mais graves e que dependem de um senso de coletividade para serem contornadas”, conclui o jovem médico.