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Seg, 27 Janeiro 2020 10:54

Entrevista Nota 10: Conhecimento compartilhado, com a professora Juliana Pinto

Professora Juliana Pinto, diretora do Conselho Superior de Editoração da Unifor. Foto: Ares Soares.
Professora Juliana Pinto, diretora do Conselho Superior de Editoração da Unifor. Foto: Ares Soares.

O Conselho Superior de Editoração da Unifor é o responsável pela publicação dos seis periódicos científicos que a instituição tem hoje. Sob a diretoria da professora Juliana Pinto, o CSA prima pela qualidade e originalidade dos artigos científicos publicados nas revistas 

As diferentes áreas do conhecimentos são apoiadas pela Universidade de Fortaleza através do Conselho Superior de Editoração. É lá  que nascem os seis periódicos científicos mantidos pela instituição: “Revista Tecnologia”, “Revista Subjetividades”, “Revista de Humanidades”, “Revista Ciências Administrativas”, “Revista Brasileira em Promoção da Saúde” e “Pensar - Revista de Ciências Jurídicas”. Juntas, elas formam um conjunto coeso que atende a diversas áreas do conhecimento. Professores e alunos pesquisadores podem escrever seus trabalhos e encaminhar para apreciação. Sendo aprovados, eles entram no seleto grupo de pesquisadores com textos publicados nesses periódicos. Quem organiza e comanda esse espaço é a professora Juliana Pinto - formada em Fisioterapia pela Unifor e apaixonada pela divulgação científica desde cedo.

É através dessas revistas - divididas nas temáticas de Ciências Jurídicas, da Saúde, Tecnologia, Humanidades, Psicologia e Administração - que pesquisadores da Unifor podem propagar seus trabalhos para acadêmicos ao redor do mundo. Juliana Pinto conversou com o Entrevista Nota 10 sobre a importância dos parâmetros da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), sobre o fomento realizado pela Universidade de Fortaleza através de bolsas e formação para escrita, sobre a necessidade de incentivar os alunos a escrever desde o início da graduação. Confira!

Entrevista Nota 10 - Professora Juliana, o que é o Conselho Superior de Editoração e quais são as atribuições dele?

Juliana Pinto - O Conselho Superior de Editoração (CSE) é um órgão consultivo e deliberativo que está vinculado à Vice-Reitoria de Pós-Graduação. O objetivo é coordenar o processo de editoração dos periódicos científicos da instituição, mas também as publicações de obras docentes. Então, quais seriam as atribuições do conselho? Difundir tanto nacional como internacionalmente o conhecimento científico; estimular a publicação de trabalhos com a qualidade acadêmica e científica devida; valorizar a produção científica não só dos nossos docentes e alunos, mas também de agentes externos; e preservar o conteúdo do conhecimento a ser divulgado  - considerando, claro, os critérios técnicos apropriados para as publicações.

Entrevista Nota 10 - Qual a importância da divulgação das pesquisas científicas, em especial daquelas realizadas dentro do ambiente acadêmico da Unifor?

Juliana Pinto - A meu ver é o comprometimento com a contribuição com a ciência. Nós fazemos pesquisas e divulgamos os resultados para contribuir com a ciência nas suas determinadas áreas. Porque à medida em que eu faço pesquisas dentro da Universidade e divulgo isso fora - seja nos nossos periódicos ou em outros periódicos nacionais e até internacionais - eu divulgo o que está sendo feito dentro da Universidade. Isso é um ponto positivo para a universidade, para os nossos docentes e para os nossos alunos.

Entrevista Nota 10 - Esses periódicos científicos são um caminho para que os pesquisadores possam encontrar outros pesquisadores de áreas e dos objetos de estudo similares? Como é que acontece esse intercâmbio?

Juliana Pinto - Sim, é um objeto de encontro desses docentes, desses pesquisadores e desses alunos. E esse intercâmbio se dá através da leitura. Eu leio um periódico e foi o meu mesmo objeto de estudo. Essa pessoa está fazendo um estudo parecido lá do outro lado do mundo, em outro país e já tem o contato naquela publicação. Eu posso entrar em contato com aquele autor. Esse intercâmbio se dá muito assim. Eu vou para um evento e, de repente, eu encontro o autor que li na publicação. Vamos gerando esse intercâmbio. Muitas vezes, o artigo não está publicado na íntegra. Vou lá para o e-mail, já entro em contato com o autor. Não é nosso caso porque o nosso portal é livre, de livre acesso. Mas tem periódicos nos quais as publicações são fechadas. Então, eu já entro em contato com aquele autor, ele me passa o artigo dele e começa o intercâmbio e a troca de experiências.

Entrevista Nota 10 - Não é qualquer pessoa que pode escrever um texto e submeter para a publicação em uma revista. É uma produção que se difere, por exemplo, dos artigos de opinião publicados por leitores em jornais diários. Como acontece o processo e quem está apto a realizar a publicação de periódicos em ciência?

Juliana Pinto - Os professores mestres ou doutores - pessoas que pesquisam - podem publicar. Um aluno que está vinculado a um programa de iniciação científica ou a um grupo de estudo, ele pode publicar junto ao seu professor. Não sozinho, mas junto ao seu orientador. Sozinho apenas se for um mestrando ou um doutorando, mas geralmente ele vai estar junto com orientador dele, com o professor dele na pesquisa. E o caminho é: quero publicar em um periódico, então, eu vou no site do periódico, vejo as normas daquela revista, o quê a revista pede para que eu publique, sigo aquelas normas, envio o artigo e espero aceitação e todo o processo de editoração científica.

Entrevista Nota 10 - Os artigos são analisado por uma equipe, um grupo de professores, quem faz essa análise?

Juliana Pinto - Sim, cada periódico tem um editor-chefe e tem a sua equipe. Então, tem uma pessoa responsável por receber aquele artigo dentro de um sistema. O nosso portal é dentro do sistema OJS - que vai fazer a conexão entre os autores, a revista e os avaliadores do artigo. Nós fazemos tudo via sistema; é uma plataforma. O editor-chefe recebe o artigo, vê se aquele artigo condiz com o que o periódico quer divulgar. Então, são escolhidos dois avaliadores. A avaliação por pares, como costumamos chamar. E eles vão dizer se o texto está apto a seguir para a editoração ou se o texto está apto a seguir com modificações ou então ele é recusado logo nesse primeiro momento. Há todo um trabalho até chegar à etapa final, que chamamos de processo de editoração científica.

Entrevista Nota 10 - Quais são as especificidades dos artigos publicados em periódico científicos, o que que dá valor a eles?

Juliana Pinto - Um tema interessante dentro daquela área que você quer publicar. Porque nós sabemos que a ciência muda todo dia. Então, eu tenho que citar no meu artigo referências das mais atualizadas possíveis, já publicar o artigo em inglês. Isso dá muito valor porque a gente já vai trabalhar na questão da internacionalização. E a integridade acadêmica que hoje falamos muito, a questão de plágio. Aquele artigo vai ter mais valor se for realmente íntegro. Hoje, a maioria dos nossos periódicos são avaliados nessa questão da integridade acadêmica através de um programa. Tudo isso vai agregar valor ao seu artigo para ele ser publicado.

Entrevista Nota 10 - Atualmente, como as revistas científicas são classificadas? Há uma padronização?

Juliana Pinto - Existe uma avaliação nacional da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Ela faz uma classificação nacional de todos os periódicos por área. Cada uma área tem os critérios específicos, não é geral. Por exemplo, o número de base de dados que aquele periódico tem anexado, o número de instituições, se tem vários autores em um artigo, quais instituições estão publicando naquele periódico. Temos vários critérios que dividem e classificam os periódicos nacionais. E há a classificação A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C. Hoje, está em processo de mudança. Mas a Capes é o órgão que faz essa classificação e dá um Qualis-Periódico. Cada publicação tem a sua qualis e tem a sua classificação.

Entrevista Nota 10 - Um pesquisador que possui muitas publicações em periódicos científicos tem um currículo mais robusto, com maior peso?

Juliana Pinto - Tem para o pesquisador, por exemplo, que é de um programa de pós-graduação. Pesa e ele tem que publicar. Na minha experiência, por exemplo, na área da saúde, um aluno que é pesquisador - porque estimulamos nossos alunos desde o início a publicar e a fazer parte de grupos de pesquisa - ele chega ao fim do curso com algumas publicações e uma bagagem melhor no currículo. Com certeza, terá uma nota melhor em um concurso, para entrar em uma residência. Isso tem estimulado muitos alunos a se envolverem mais com pesquisa, além de contribuir com a ciência dentro das suas áreas.

Entrevista Nota 10 - Professora, vamos falar um pouco sobre as revistas produzidas na Universidade de Fortaleza. Gostaria que a senhora comentasse quais são as propostas e os diferenciais de cada uma.

Juliana Pinto - Nós temos a revista “Pensar”, que está vinculada ao Centro de Ciências Jurídicas e é da área do Direito e das disciplinas afins. É uma revista que tem publicação trimestral e está com um Qualis muito bom, é um qualis A1. Temos a revista “Subjetividades”, que está vinculada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia. São duas revistas vinculadas a programas de pós-graduação. As outras quatro (revistas) estão vinculadas aos centros. A “Subjetividades” é uma revista quadrimestral e tem um Qualis B1. Temos a “Revista Brasileira em Promoção da Saúde”, a RBPS, que tem uma publicação contínua dentro das políticas públicas de saúde coletiva, promoção da saúde. Ela tem um Qualis B2. Temos a “Revista de Humanidades”, que está vinculada a área de Ciências Humanas e Sociais. É uma revista semestral e tem um Qualis B2 na área de ensino. A “Revista Tecnologia” também É semestral e publica artigos e manuscritos dentro das áreas de arquitetura, de informática, das engenharias, da engenharia civil, de produção, da engenharia mecânica, da mecatrônica, da ambiental e da sanitária. Tem um Qualis B5, atualmente. E temos a “Revista de Ciências Administrativas”, a RCA, que está vinculada a um Programa de Pós-graduação, tem um Qualis B2, é quadrimestral e engloba as áreas de administração, contabilidade e economia. No ano passado ela completou 30 anos. Agora, nós saímos com uma edição especial em comemoração aos 30 anos da revista. Todas elas fazem aquela análise da similaridade, e todas têm acesso aberto. Existem vários tipos de publicações: ensaios clínicos, resenhas, relatos de experiência, revisões de literatura, artigos originais. 

Entrevista Nota 10 - E como é possível ter acesso a essas leituras?

Juliana Pinto - Qualquer pessoa - não precisa ser um professor, não precisa ser um aluno -  acessa o nosso portal: periódicos.unifor.br. Quando se acessa esse site, já vai aparecer nosso portal e o indivíduo vai encontrar nossas revistas. Clica na revista! E lá você vai ver todos os manuscritos já publicados - os manuscritos atuais e os manuscritos de anos anteriores. É de acesso livre, qualquer pessoa pode ver.

Entrevista Nota 10 - E a pessoa precisa ter um pré-requisito de conhecimento? A ciência sempre está ligada a um campo muito difícil para a população leiga...

Juliana Pinto - É uma linguagem mais técnica. Falando da fisioterapia, que é a minha área, se eu pego um artigo de fisioterapia em um periódico, eu vou encontrar uma linguagem mais científica, mais voltada para quem é da área. Mas o acesso é livre. Se eu desconheço sobre uma determinada técnica dentro da fisioterapia e quero conhecer mais, posso acessar um artigo - porque ele é livre. Mas pode ser que alguma coisa eu não entenda ou talvez tenha alguma dúvida porque temos os termos mais técnicos. Mas o acesso é livre.

Entrevista Nota 10 - Em setembro do ano passado a UNIFOR fez um curso de redação científica, uma oportunidade para que os alunos pudessem aprimorar a produção de artigos. Quais são as estratégias e treinamentos que a universidade oferta para que os pesquisadores possam desenvolver melhores textos científicos?

Juliana Pinto - Tanto para professores como para os nosso alunos, a biblioteca oferece capacitações sobre o uso da biblioteca digital de livros e de periódicos para eles fazerem as buscas; capacitações sobre as normas de escrita, sobre a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), sobre o Estilo APA e sobre o Estilo Vancouver. Existem também capacitações sobre a questão da integridade acadêmica, sobre o plágio, sobre os gerenciadores de referências - como Mendeley -, e treinamentos em bases de dados. Também que pode ser em grupo ou pode ser individual. O aluno tem dúvida e pede individualmente esse treinamento ou um professor pode pedir esse treinamento para o grupo de estudo dele. A universidade oferece muito treinamento, além de alguns cursos como esse de redação científica, sobre assuntos relacionados a questão da escrita, da leitura e da busca, que é um conjunto para chegar no artigo final e publicar.

Entrevista Nota 10 - As revistas científicas produzidas na UNIFOR já têm uma história. Algumas vêm da década de 1980. Qual é o segredo para conseguir manter uma publicação por tanto tempo no mercado e conseguir manter a qualidade dela?

Juliana Pinto - Tem inicialmente a equipe e a avaliação desse artigo que chega. Eu acho que começa da qualidade dos avaliadores, desses pares que vão estar avaliando o artigo. Vale a pena esse artigo seguir adiante, qual a rigidez que nós vamos ter com ele? Vamos ter que voltar para o autor fazer uma revisão ou vamos pedir uma revisão mais rigorosa? É ter uma boa diagramação, é ter uma boa redação de texto, é a equipe do periódico se esforçar para que realmente seja selecionado aquele artigo que realmente vai fazer diferença em uma leitura. Tudo isso tem que ser levado em consideração.

Entrevista Nota 10 - Como a senhora avalia a pesquisa dentro da Unifor? A Universidade está bem e pode se equiparar às universidades internacionais?

Juliana Pinto - Eu acho que vem mudando a visão da instituição e a visão do aluno. Hoje  temos bolsa para os professores doutores estarem publicando, temos muito mais incentivo. Falando pelo meu curso, nós incentivamos os alunos. Antes eles eram incentivado quando já estavam próximos a sair do curso. Hoje, não, nós incentivamos o aluno já no início. O aluno entra, às vezes, no primeiro semestre no grupo de estudo e fica até o fim.Ele sai diferenciado, ele tem uma visão diferente de pesquisa. E nós temos bons laboratórios. Também falando dentro da minha área, nós estamos conseguindo pesquisar mais e estamos tendo esse apoio da universidade em termos de bolsa, em termos de equipamentos. É uma visão boa em relação à pesquisa e o fruto dessa pesquisa são as nossas publicações - seja dentro do nosso portal com nossos periódicos ou fora.