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Seg, 9 Dezembro 2019 14:25

Entrevista Nota 10: Fernanda Rocha e a jardineira fiel

Fernanda Rocha, Coordenadora do Laboratório de Paisagem e professora dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da Universidade de Fortaleza. Foto: Ares Soares.
Fernanda Rocha, Coordenadora do Laboratório de Paisagem e professora dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da Universidade de Fortaleza. Foto: Ares Soares.

A criação da disciplina de Paisagismo no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza tem o dedo verde da arquiteta e professora Fernanda Rocha. Foi ela quem construiu a primeira ementa da especialidade que hoje interessa a graduandos e pós-graduandos não só do Ceará como também de outros estados do Nordeste.

Com duas Especializações e dois Mestrados, tendo passado pela PUC do Paraná e pela paulista Mackenzie, a admiradora confessa de Burle Marx não só plantou em si o desejo de refletir e interferir sobre as paisagens como esculpiu sua vocação para a docência, unindo técnica e sensibilidade para convencer arquitetos e arquitetas em formação sobre a importância da natureza na projeção dos espaços físicos, sejam eles públicos ou privados. 

Coordenadora do Laboratório de Paisagem, Fernanda hoje se orgulha de dar lugar a quatro disciplinas obrigatórias e uma optativa sobre Paisagismo na grade curricular da graduação e pós-graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifor. Também destaca a criação do curso de Especialização em Paisagismo, o primeiro do Nordeste, ainda em 2009.

Na agulha, anuncia um novo curso na área de Patrimônio e Restauro, concebido junto ao arquiteto e também professor Domingos Linheiros. E se mostra instigada com o novo projeto pedagógico a ser implantado em 2020 e que promete transformar disciplinas antes dissociadas em processos e projetos contínuos e complementares, com foco voltado sobretudo para a prática e as experiências empíricas. 

Amante da natureza, a professora, pesquisadora e arquiteta trabalha e defende aquilo que apreendeu como estilo de viver. Quando criança, viu pais e avós tratarem com esmero os seus quintais e plantas. Antes mesmo de construir a primeira casa da família, seu pai plantou feijão, milho e frutíferas no terreno, de modo que, ao se assentarem, era dali que provinha boa parte da alimentação da família. Assim, não podia deixar de deitar o olhar e o interesse, quando adulta, para microcosmos e jardins como aqueles inventados por mestres como Burle Marx.

Como professora, aliás, foi ela e seus alunos quem primeiro fizeram o inventário e o diagnóstico das intervenções do artista e jardineiro modernista em Fortaleza. Descobriram assim, numa imersão coletiva, as belezas e nuances do jardim do Theatro José de Alencar, eternizando, em publicações e artigos posteriores, a importância daquele gesto para com a cidade. 

Burle Marx e os jardins residenciais urbanos por ele assinados em Fortaleza foram o leitmotiv de sua dissertação de Mestrado. O que o mestre do paisagismo deixou como legado e que lições reverberam no presente?

No mestrado, inventariei cinco desses jardins criados por ele na cidade. O primeiro - e este está preservado – foi o da residência de Benedito Macedo. É através dele que o Roberto chega em Fortaleza e começa a fazer outros projetos aqui. Então, esse jardim é um ícone local da arquitetura modernista. Mas o importante de lembrar é que, além de uma nova linguagem para o paisagismo, ele socializava conhecimentos, trabalhava em conjunto e para o conjunto. Arte, música, botânica, geografia, tudo isso era fonte de conhecimento e ele vai fazendo uma síntese interdisciplinar e criando novas perspectivas de investigação. Outra coisa: fez uma gigantesca produção de plantas, era um colecionador de espécies incansável, compulsivo mesmo. O Sítio Burle Marx, antes Santo Antônio da Bica, era e ainda é um local para pesquisar, aclimatar e vender espécies, além de formar jardineiros, já que a intenção era ter uma escola de jardinagem lá. Com o tempo, o sítio foi mudando até a dinâmica econômica da região, que no passado era só de produção de banana. Hoje tem vários jardins. Ou seja, foi um homem afinado com o século XXI, que empreendeu, inovou, usou a criatividade e não estava pensando só nele. Tanto que doou em vida o seu sítio para o Governo Federal, através do IPHAN, e até hoje jardineiros trabalham lá como funcionários públicos contratados. Ou seja, não estava pensando só nele. Foi um projeto de vida. E temos que pensar sobre isso. Em sala de aula e fora dela. É essa perspectiva que a gente busca aqui na Unifor: um olhar não só técnico, mas esse fervilhar de ideias, essa multiplicidade que vem das artes e outras áreas, uma formação múltipla e contínua, reforçando o lema “ensinar e aprender”, que encontra no programa de formação para professores outro valioso e fundamental estímulo. Não à toa temos entre nossos diferenciais o programa de desenvolvimento de líderes, recém-chancelado pela ONU, que diz sobre a necessidade e tendência mundial para formar profissionais criativos, empreendedores, inovadores. Todos os cursos da pós-graduação têm, portanto, essa diretriz e correlação com o profissional do século XXI. 

Vamos então falar um pouco sobre a importância do campus da Unifor também como laboratório e lócus de interesse para o paisagismo, já que se trata de um ecossistema rico e diversificado, criado com esmero e dedicação pelo ex-chanceler Airton Queiroz. Que tesouros escondidos existem no campus, nos abraçando?

Esse campus é um espetáculo, um fenômeno, sobretudo para os professores e alunos da área do Paisagismo. O bloco P tem uma parede envidraçada, então a gente dá aula usando o campus até sem sair da sala de aula, apontando aquela árvore, os arbustos... Tudo isso aqui, costumo dizer, tem um efeito colateral especial nos alunos do paisagismo, que, claro, ao acessar o conhecimento especializado ficam muito mais estimulados e atentos à diversidade, além de achar o local bonito e acolhedor, como todos. E, de fato, temos exemplares de plantas praticamente do mundo inteiro. Doutor Airton trouxe plantas nativas e exóticas. E isso oportuniza a discussão: o que plantar? Como plantar? Qual a melhor situação para elas, de forma que não haja necessidade de podas tão constantes? Qual a forração ideal para determinados espaços e árvores? O jardim é uma grande metáfora da nossa vida, porque não está parado. Nesse sentido, é um pouco diferente da arquitetura, que deixa tudo pronto. Na natureza não é assim. É que nem na vida: a gente nunca está pronto, há sempre uma dinâmica interna, que se volta para mudanças e melhorias. Então é muito bacana por isso.

Que exemplares dr. Airton trouxe de longe e merecem ser reverenciados e destacados?

Ai, difícil responder... Que a natureza me perdoe, porque são tantos...  Mas a gente tem um exemplar de Pau Brasil, sozinho, na Praça Central, em frente à biblioteca, que tem um ano a menos que a universidade e, conta-se, foi plantada pelo próprio Edson Queiroz. Hoje, no lado oposto ao Pau Brasil, mas alinhado a ele, temos uma aroeira, doação da Farmácia Viva da UFC, que foi plantada em homenagem a dona Yolanda. Então, é como se os dois estivessem alinhados no campus central. A gente tem também o gigante imenso, o baobá. Temos algumas palmeiras e quando elas estão frutificando observamos uma outra dinâmica, que é a vinda dos pássaros. Ficam povoadas de maritacas, aqueles pequenos periquitos. E aí ouvimos aquela “gritaria” dos pássaros perto do centro de convivências, enquanto eles comem os frutos. Tudo isso mostro para os alunos in loco. E, na verdade, é o dendezeiro, o fruto do dendê, aí falo do acarajé e eles vão associando com a vida. Estamos em plena floração de ipês amarelo, rosa, o chão do campus está todo pintado de cores diferentes. Ano passado, vimos um show do ipê amarelo, uma floração espetacular que saiu em todas as mídias. E tem ainda o Pau Branco, uma planta da caatinga, que na época em que está florando dá uma flor branca muito perfumada e o chão fica branquinho. Essa espécie é muito boa para arborização urbana, porque é de pequeno porte, não dá tanta incompatibilidade com nossas calçadas, que são mais estreitas e nem com a fiação aérea, porque chega, no máximo, a 6 metros, portanto não necessita de poda. Floresce, tem um cheiro bom, mantém a folhagem... Excelente para arborização de estacionamentos, calçadas... Falo isso porque a questão da poda sempre vem à tona nas aulas. A poda, na verdade, é uma cirurgia para as plantas. E a gente não faz cirurgia a toda hora, nós, como seres humanos, só em casos extremos. E, como nós, a planta às vezes necessita de poda porque quem plantou fez em lugar errado ou ela é inadequada para aquele espaço. Então isso tudo a gente estuda aqui, a dimensão das plantas, o lugar mais adequado...

Há então uma atenção inclusive sobre o que não se deve fazer ou o plantio ideal...

Sim. Mas muito do que dr. Airton trouxe acabou se adaptando bem. A gente tem um exemplar interessante, chamam de maçã de elefante, mas na verdade é dillenia indica, uma planta exótica, que tem uma folhagem muito diferenciada, parece que foi esculpida, é toda pregueada, e também dá um fruto grande, que parece um coco seco. Não é comestível, mas, na época da colonização, ficou conhecida como árvore do dinheiro ou da pataca porque contam que o fruto dela, quando ainda verde, tem uns espaços abertos, e os colonizadores colocavam uma moeda no meio daquele fruto. E aí quando amadurecia fechava e a moeda ficava lá dentro. Quando levada para fora dizia-se que aqui no Brasil era tão bom que até dinheiro dava em árvore. Mas o maior tesouro que vejo é o fato de se abrir a universidade para o público, para o uso público da cidade. Isso foi um legado imensurável: um campus aberto. Você poder pegar uma bicicleta e vir pra cá com as crianças, fazer piquenique ou esportes no final de semana, isso é muito valioso, porque temos muito poucos espaços verdes na cidade e a entrada no campus só era acessível para nós, professores, e alunos. Hoje, é aberto a toda a cidade. E todo mundo é muito bem acolhido, além de se sentir seguro.

Tendo o campus aberto como gancho, vamos agora focar no patrimônio natural de Fortaleza. Qual a nossa nota nesse quesito?

Ai meu Deus, difícil... Acho que a universidade tem possibilitado a formação de pessoas com um olhar muito mais crítico pra isso. Praticamente toda semana levamos um susto e discutimos casos. Caso recente: plantio de carnaúbas na Beira Mar. Ninguém entende: por que num local de orla? Tudo bem, a carnaúba é nativa, mas não é para aquela situação. A planta vai sofrer. E aquele calçadão, que é um grande parque linear urbano, carece de sombreamento. São coisas que a gente não entende muito bem. Na própria Beira Mar, a gente tem dois projetos do Roberto Burle Marx, residenciais. O último projeto residencial que ele fez aqui em Fortaleza, do Edifício Coast & Sea Tower, que tinha uma calçada em pedra portuguesa, que estava em excelente estado e no desenho compunha uma calçada diferenciada, tudo isso foi destruído para colocar cimento. São coisas que realmente a gente não entende por que acontecem. Faltam plantios de modo mais efetivo nas calçadas. Moro no bairro Dionísio Torres, na rua Livreiro Edésio, onde tem três cajueiros grandes no meio da rua. E os cajueiros já estavam lá quando chegamos, o loteamento preservou os cajueiros. Aí lembro que numa reunião do condomínio alguém falou que os cajueiros estavam atrapalhando o trânsito. Não. Os cajueiros estão ajudando a reduzir o trânsito na nossa rua. Também estão proporcionando um clima mais ameno, mais sombreamento para as pessoas e tem passarinhos que vão lá. É uma abordagem diferente, entende? O que tem que ser feito é a regulamentação dos estacionamentos para que as pessoas respeitem a lei e não estacionem no meio da rua... o problema não é o cajueiro. Fui conversar com os órgãos responsáveis...  a poda constante reduz a saúde da árvore, muda o eixo de gravidade, o ponto de equilíbrio, isso tem que ser revisto, porque, em geral, as pessoas dão uma manutenção errada na árvore. E ao invés de retirar ou podar tem que plantar árvores, cada vez mais. Essa é uma lição que os cearenses, que Fortaleza, precisam ter: mudar um pouco esse olhar de privilégio para com o carro em detrimento de nós, seres humanos, que precisamos de sombra para andar nas calçadas e atrair gente para a rua. É usando o espaço público que teremos a sensação de segurança que temos quando andamos em outros lugares do mundo. O paisagismo é central nessa equação.

O que a universidade tem também legado para a cidade em termos de paisagismo? Qual o papel dela? 

Tudo é muito desafiador e muito tem sido feito de dentro para fora. Tivemos o tratamento do canteiro central, as ciclovias, isso já é um diferencial bacana... Alunos e professores trabalhando com acessibilidade, temos o mestrado em Ciências da Cidade, é tanta coisa, essa universidade é um mundo... Lembro agora de uma aluna do laboratório de paisagem, o grupo de pesquisa que coordeno, que, com o apoio do laboratório de inovação - INOLAB, desenvolveu um aplicativo para identificação de espécies nativas, socializando metodologias de trabalho. Agora é abastecer o aplicativo ainda mais, que será o TCC de outra aluna. São trabalhos que se retroalimentam. Mas o fato é que professores e alunos precisam desenvolver novas habilidades, repensando metodologias de ensino, mesmo já sendo as nossas ativas e inovadoras. O novo currículo exige ainda mais e de forma mais conjunta, tudo é muito mais integrado para que os alunos atuem mais proativamente e sejam responsáveis pelo próprio aprendizado... As avaliações serão processuais, teremos menos alunos em sala de aula, os professores estarão ainda mais próximos e haverá um acompanhamento constante dos blocos de conhecimento necessários para aquele período de tempo. Uma formação continuada que também exigirá todo um aparato. Estou bem animada, sobretudo porque nós professores também vamos aprender bastante.