angle-left Entrevista Nota 10: um cientista na guerra contra a Covid-19

Seg, 6 Abril 2020 11:00

Entrevista Nota 10: um cientista na guerra contra a Covid-19

Antônio Silva Lima Neto integra o comitê científico que auxilia os nove governadores do Consórcio Nordeste na tomada de decisões no combate à pandemia de Covid-19.


Antônio Silva Lima Neto é professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)
Antônio Silva Lima Neto é professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)

No momento em que o mundo inteiro trava uma guerra contra um vírus, a ciência assume o lugar de protagonista e se torna a principal arma contra uma doença que já vitimou quase 63 mil pessoas pelo mundo. Em meio aos guerreiros que têm se utilizado dos estudos científicos para combater o novo coronavírus está o médico, pesquisador e professor de Medicina da Unifor, Antônio Silva Lima Neto, mais conhecido como Tanta.

Graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele é especialista em Medicina Preventiva e Social pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, no Rio de Janeiro, mestre em Epidemiologia Ambiental e Políticas pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, da Universidade de Londres e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com pós-doutorado pela Escola de Saúde Pública de Havard. Desde 2009, atua como gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde de Fortaleza e agora integra o comitê científico que auxilia os nove governadores do Consórcio Nordeste na tomada de decisões no combate à pandemia de Covid-19.

Pela segunda vez no Entrevista Nota 10, Tanta defendeu o isolamento social adotado pela gestão estadual e municipal como a medida mais importante de controle da transmissão do novo coronavírus. Disse ainda acreditar que, com as medidas de contenção mantidas até o final de abril, o Ceará deverá começar a diminuir o número de casos. A gente avalia que é muito provável que no fim do mês de abril, início de maio, já tenhamos uma transmissão bem mais controlada, dependendo das medidas que sejam mantidas”, pontuou. Confira. 

Com relação à pandemia de Covid-19, como o senhor avalia a situação do Brasil e as medidas tomadas pelo Ministério da Saúde até o momento? Estamos no rumo certo? 

O Ministério [da Saúde] tem feito boas orientações: falou da necessidade de isolamento social precoce para que tentássemos achatar a curva de casos, diminuindo o número de casos simultâneos, tornando essa curva menos aguda para que nos preparássemos e não tivéssemos tantas hospitalizações simultâneas. Então, essas medidas de restrição que nós tomamos foram um pouco, no início, inspirado pelo Ministério. Depois, houve esse descompasso com o presidente da República que tem feito um contraponto à ciência, às orientações mais razoáveis que vêm sendo dadas pelo Ministério. E nesse momento, ocorreu que os governadores ganharam muito protagonismo, a exemplo do Governo do Ceará, Rio de Janeiro e outros que decidiram pela quarentena, que eu acho que foi uma boa decisão. Acho que foram medidas tomadas precocemente, num momento muito importante porque você já tinha casos nas áreas mais ricas da cidade e, com essas medidas, você tanto diminuiu o fluxo com os bairros mais periféricos - tentando proteger as pessoas mais vulneráveis que são as exclusivamente dependentes do SUS -, como você prepara a sua rede, expande seus leitos de UTI para que quando os casos começarem a ocorrer, você esteja mais bem preparado. Além disso, a quarentena faz você tenha um número de contato diário muito menor com as pessoas e isso possibilita com que você tenha mais êxito na diminuição da transmissão da doença.  

Quais são as suas expectativas em relação à dimensão que a pandemia deve tomar no Brasil e, em especial, no Ceará? Podemos ser otimistas?

Os modelos matemáticos que tentam predizer o que vai acontecer, normalmente, lidam com muitas incertezas. É muito difícil nesse momento cravar um prognóstico otimista ou pessimista. Acho que nós ainda sabemos pouco da real dimensão da transmissão, embora o Ceará tenha um número muito maior de casos do que o resto do Nordeste porque testa mais, porque teve acesso a mais testes. A magnitude desse problema e as suas consequências é que ainda estão um pouco nebulosas. O que eu posso dizer é que, normalmente, a sazonalidade de doenças respiratórias no Ceará é mais associada a um período de chuva, de maior aglomeração, onde o vírus se transmite com maior facilidade. Mas, com o novo corona, não se sabe exatamente se isso será importante. Para os outros vírus, respiratórios principalmente, você tem uns períodos do ano muito bem definidos: quando as chuvas diminuem e as temperaturas aumentam, os vírus têm mais dificuldade de progressão. Se isso vai acontecer com o corona ou não e em que medida, ainda é um pouco especulativo. Mas eu lhe diria que a gente tem que ter toda a atenção possível e eu acho que as medidas de quarentena são necessárias porque a progressão e os casos graves, sobretudo em pacientes idosos, podem chegar a 15% de complicação e, às vezes, a uma mortalidade alta. Acho que otimista eu sou em relação às medidas que vêm sendo tomadas no âmbito do Ceará, em Fortaleza, e na maioria dos estados do Nordeste. As medidas estão corretas e a gente precisa de mais três ou quatro semanas de quarentena, até o final de abril, quando eu acho que a transmissão realmente diminuirá e as medidas terão relativo sucesso e a gente poderá sair com o que mais espera, que é uma mortalidade não tão elevada. 

Uma das grandes preocupações de especialistas é com a entrada do vírus nas comunidades, principalmente, do Rio de Janeiro. Aqui em Fortaleza, por enquanto, os casos estão mais concentrados em bairros considerados nobres. Como o senhor acredita que será a repercussão quando a transmissão aumentar nas áreas periféricas?

Tanta – Esse é um tema central hoje. A gente tem uma concentração muito grande nas áreas mais centrais de Fortaleza, no entanto, a gente começou a identificar óbitos ocorridos em bairros periféricos. Alguns bairros têm mortes, mas não têm casos. Isso significa que a gente tem que testar mais. Alguns falam que para cada óbito há 100 casos, outros falam 200, e até mil casos. Então, o óbito é um preditor de circulação viral. Nós temos quatro bairros de Fortaleza com óbito sem casos. Significa que houve expansão para outros bairros. A gente não sabe precisar a dimensão da circulação viral, mas já temos casos ocorrendo. E isso é uma preocupação enorme porque você tem uma densidade maior por domicílio, o isolamento dos grupos mais vulneráveis é mais difícil e, por essa razão, foi que tomamos todas essas medidas, sobretudo, para que pudéssemos preparar leitos de UTI para o caso de a gente ter uma progressão muito grande do vírus nesses bairros mais vulneráveis. 

O Ceará se configura hoje como um dos estados brasileiros com maior número de casos confirmados de Covid-19. A que o senhor atribui esse número elevado?

Além de a gente ter a tradição do teste, e não é só no Covid, em outras doenças também, tiveram alguns outros eventos. Além de a gente ter se tornado HUB, com um número de voos internacionais muito grande, o que pode ter contribuído, também teve a questão dos eventos sociais. Teve um evento social em Itacaré, na Bahia, em quem um grande número de cearenses estava presente, retornaram e muitos testaram positivo. Os primeiros casos aqui foram oriundos desse evento. Teve um outro casamento ocorrido aqui que tinham participantes do exterior e, sobretudo, convidados do Rio e São Paulo, que naquela ocasião já tinha transmissão. Esses eventos podem ser explosivos, que deram início aos primeiros casos que eram todos importados. Além disso, tradicionalmente, o Ceará – existem alguns artigos científicos que escrevem isso muito bem – é o estado onde primeiro ocorre a onda de viroses respiratórias sazonais todos os anos de gripe comum. No Brasil, as gripes no Sul e Sudeste começam no inverno, enquanto aqui já começam em fevereiro. O fator climático pode ter contribuído.

Desde o dia 18 de março o Ceará entrou oficialmente em quarentena. Já são mais de duas semanas de isolamento social e a curva de contágio segue subindo rapidamente. Em quanto tempo espera-se que as medidas de isolamento social no Estado comecem a surtir efeito e que alcancemos o tão desejado “achatamento da curva”?

Têm modelos matemáticos que já mostram que se a gente não tivesse feito o isolamento, já teríamos muito mais que o dobro de casos do que temos hoje. A gente avalia que é muito provável que no fim do mês de abril, início de maio, já tenhamos uma transmissão bem mais controlada, dependendo das medidas que sejam mantidas. 

Além de seguir com o isolamento social, garantir disponibilidade de leitos para pacientes com Covid-19 e EPIs para profissionais de saúde, quais outras medidas estão sendo tomadas para conter a disseminação do vírus? Quais serão os próximos passos a serem tomados pela gestão municipal e estadual?

Além dessas medidas que você já mencionou em que o isolamento social é o principal, acho que as medidas mais importantes agora são de se comunicar bem com a população para que a gente tenha melhor êxito na condução desses casos que podem ser mais graves. A população saber que têm os fatores de risco, saber que a população mais idosa tem que procurar precocemente a unidade de saúde para que seja avaliado e encaminhado. As medidas mais importantes nesse momento são para que você ofereça oportunidade de assistência adequada, com disponibilidade de leitos com respirador, como também de a gente ter um canal aberto de comunicação para que a população, nesse momento, possa apoiar as iniciativas que a gente sabe que são muito duras. Nós somos muito solidários com as pessoas que estão sofrendo impactos, inclusive econômico – há várias medidas do Governo Estadual para atenuar esse impacto. Mas a gente julga que, nesse momento, é fundamental a gente passar por isso, compreendendo e sendo solidário que isso é muito mais difícil para uns do que para outros. É um tema importante que está sendo discutido no mundo inteiro: você tem que ter uma rede de proteção social importante para essas pessoas, com isenção eventual de conta de luz, água, como também o pagamento de uma renda universal básica para os autônomos, mecanismos de isenção de impostos para micro e pequenas empresas para que elas possam continuar solventes para que não degringole a economia.

De que forma a comunidade acadêmica está atuando no combate ao vírus? Qual tem sido a importância das pesquisas realizadas dentro das universidades brasileiras neste cenário de pandemia?

Foi discutido pela Fundação Cearense de Pesquisa (Funcap) e ela vai abrir editais específicos de pesquisa de Covid-19 para investigar vários aspectos, desde clínicos, epidemiológicos, até assistenciais, para elucidar algumas lacunas ainda de conhecimento que existem. Como as universidades não estão funcionando, você tem muitos consultores apoiando as respostas do Estado e do Município e, agora com as pesquisas, vai ser ainda melhor. Mas a ideia é mais ou menos essa: produzir pesquisa e apoiar as respostas do governo.

A Covid-19 é uma doença que está mostrando a importância da ciência no mundo.

Exatamente. Nesse caso não dá para trabalhar com achismo, temos que trabalhar com evidência científica sólida, não tem espaço para invenção. Nós temos alguns líderes que, no início, acharam que podiam tratar isso apenas com suposições, porque eu quero isso ou aquilo, ignorando a ciência e assim não se faz nada. Essa não é uma forma séria de se posicionar. A gente tem que ter muita responsabilidade nesse momento e eu acho que é isso que tem que ser cobrado, sobretudo, dos gestores.