angle-left Ceará finaliza protótipo de capacete de respiração assistida

Qua, 6 Maio 2020 15:09

Ceará finaliza protótipo de capacete de respiração assistida

Idealizado a partir de força-tarefa público-privada, o equipamento de baixo custo minimiza avanço de dificuldades respiratórias em pacientes de Covid-19 e reduz a necessidade de aparelhos de ventilação mecânica em 60% dos casos


Com a finalização do protótipo, modelo será agora submetido a testes de usabilidade, antes de entrar na fase de ensaio clínico. (Foto: divulgação)
Com a finalização do protótipo, modelo será agora submetido a testes de usabilidade, antes de entrar na fase de ensaio clínico. (Foto: divulgação)

Um novo passo para o tratamento de pacientes de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, foi consolidado nesta semana com a finalização do protótipo do capacete de respiração assistida, batizado de Elmo. O modelo, em produção no Ceará, passava por ajustes finais e agora será submetido a testes de usabilidade, antes de entrar na fase de ensaio clínico.

O equipamento é produzido em força-tarefa que envolve Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Saúde, Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE) e Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), além da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Ceará), e ainda Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade de Fortaleza (Unifor), da Fundação Edson Queiroz.  

O protótipo do Elmo foi desenvolvido no Instituto Senai de Tecnologia em Eletrometalmecânica, e testado no Laboratório do Senai da Jacarecanga, a partir de uma ideia apresentada pelo superintendente da ESP/CE, Marcelo Alcantara. “Os princípios e requisitos terapêuticos do Elmo foram plenamente atingidos com o protótipo”, avalia Alcantara após a consolidação do modelo, que passou por ajustes simples para redução de tamanho e contenção de ruído.

A partir de agora, o Elmo será submetido a testes finais de usabilidade em voluntários. O processo ocorrerá em curto prazo e deve ser finalizado nas próximas semanas. A avaliação a partir do manuseio pode resultar em pequenos ajustes, se reportado por usuários em testes, mas o conceito do protótipo foi concluído. “Diferentes pessoas vão testar o Elmo para avaliar a ergonomia, mas é certo que se utilizado hoje o equipamento cumpriria com a finalidade de dar suporte ventilatório necessário”, destaca o engenheiro eletricista, especialista em engenharia clínica pela ESP/CE, David Guaribara.

Em seguida, o modelo cearense será avaliado pela Comissão de Ética e Pesquisa da ESP/CE para entrar em ensaio clínico, isto é, teste em pacientes com insuficiência respiratória pela Covid-19, no Hospital Leonardo da Vinci, requisitado pelo Governo do Ceará para dar suporte aos pacientes no estado. A fase é necessária para iniciar a produção definitiva do capacete cearense. Paralelo a isso, a equipe já trabalha com o registro do Elmo junto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Para o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, as avaliações positivas são animadoras: “Estamos confiantes que haverá uma produção em larga escala após a finalização das avaliações de saúde do comitê de ética da ESP, para que possamos ajudar ainda mais no combate à pandemia. A inteligência e a capacidade técnica dos que fazem o Senai e dos parceiros foram imprescindíveis na busca por este equipamento que pode vir a salvar muitas vidas.”

O professor Jorge Soares, diretor de inovação da Funcap, explica que foram feitos testes adicionais em dois protótipos do Elmo: um de base rígida e outro de base flexível. “Os resultados seguem animadores e, com o protótipo definido, a avaliação clínica em pacientes com insuficiência respiratória deve vir nos próximos dias. Com esta sequência e os devidos trâmites na Anvisa e Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ganha-se a confiança necessária para a produção em larga escala. É um orgulho para o Ceará", avalia. 

Os pesquisadores envolvidos já estavam animados com os testes iniciais realizados em 23 de abril. O Elmo prevê a utilização de um mecanismo de respiração artificial não invasivo, sem necessidade de o paciente ser intubado, com maior segurança também para os profissionais de saúde. 

Para o diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, professor Vasco Furtado, a união da indústria, academia e setor público do Ceará, consolidada na concepção e prototipagem do Elmo, precisa ser vista como alternativa para a resolução de muitos de nossos problemas. “Para  a Unifor, fazer parte ativamente dessa iniciativa é importante pelos benefícios que o Elmo trará à sociedade, e também porque nos fortalece enquanto instituição capaz de produzir inovação condizente sempre com a nossa máxima Ensinando e Aprendendo”, destaca Vasco Furtado.

O pró-reitor-adjunto de Pesquisa e Pós-Graduação da UFC, professor Rodrigo Porto, também enfatiza a cooperação entre grandes atores de formação acadêmico-científica do Ceará e indústria na busca de soluções contra a pandemia. “O Elmo é um esforço muito bonito e estamos na expectativa agora nesses momentos finais de testes, de homologação e de lançamento, para que o sistema público de saúde possa se beneficiar diretamente dele”, afirma. 

Ainda segundo Porto, o capacete de respiração assistida representa um marco na pesquisa cearense e revela a importância do investimento em ciência e tecnologia. “Isso obviamente não aconteceu com essa velocidade somente por causa da pandemia, mas fundamentalmente porque esse domínio científico e tecnológico estava presente. Fica como uma lição para a sociedade brasileira de que esse investimento nunca foi em vão, pelo contrário, nos deixa preparados para reagir nas novas necessidades e demandas não só na saúde mas em todas as áreas da sociedade”, comenta. 

Sobre o Elmo

O Elmo é a promessa para desafogar as UTIs, que já estão saturadas de pacientes com Covid-19. Outra vantagem é o baixo custo, que garante facilidade de produção em larga escala. Enquanto uma máquina de ventilação mecânica custa em média R$ 70 mil, o capacete respirador sai a um custo de cerca de R$ 300,00 a unidade. O modelo segue um tipo adotado em países da Europa, como a Itália, que teve bons resultados, com redução da necessidade de aparelhos de ventilação mecânica em cerca de 60%. O equipamento pode ainda ser desinfectado e reutilizado.

O capacete é capaz de reduzir a necessidade de respiradores pulmonares artificiais pois trata-se de uma oxigenoterapia do paciente que inala oxigênio puro e não re-inala o CO2 produzido, que tampouco é expelido no ambiente, evitando a contaminação dos demais.