angle-left Entrevista Nota 10: a profa. Andréa Quesada e a posologia do afeto

Seg, 1 Outubro 2018 20:26

Entrevista Nota 10: a profa. Andréa Quesada e a posologia do afeto

A profa. Andréa Quesada possui Doutorado em Neurociências pela Ruhr-Universität Bochum (Alemanha) e Doutorado em Ciências Médicas pela UnB (Foto: Ares Soares
A profa. Andréa Quesada possui Doutorado em Neurociências pela Ruhr-Universität Bochum (Alemanha) e Doutorado em Ciências Médicas pela UnB (Foto: Ares Soares

As neurociências advertem: afeto faz um bem danado à saúde. Sobretudo se ele começar a ser administrado em doses generosas logo na primeira infância. Quem afirma e comprova é a professora e pesquisadora Andréa Quesada, que desde 2014 investiga em sala de aula, junto a estudantes do Curso de graduação em Psicologia da Unifor, os efeitos das sensações, percepções, memórias e emoções sobre a linguagem, a aprendizagem e a inteligência humanas, com foco no desenvolvimento infantil. 

Bacharel em Psicologia pela Universidade de Brasília (UNB), com mestrado em ciências do comportamento, neurociências e cognição pela mesma instituição, primeiro a pesquisadora investigou como o método canguru fortalece o vínculo mãe-bebê nas UTIs neonatais, resultando em ganho de peso e menos dias de internação, para depois seguir adiante nas pesquisas com vistas a aperfeiçoar o método de avaliação neuropsicológica de crianças com epilepsia. Durante o doutorado, já na Ruhr-Universität Bochum, RUB, na Alemanha, estresse e prematuridade ganharam centralidade, apontando sobre o risco dessa combinação para a memória e para o desenvolvimento emocional na infância.  

Como docente, não à toa, a paixão pela pesquisa sempre alia teoria e prática. Assim tudo o que sai do Laboratório de Neurociências ou do projeto Sinapses, sejam os jogos de aprendizagem ou os eventos acadêmicos presenciais, tem repercussão direta na qualidade de vida de crianças e mães afetadas direta ou indiretamente por alterações das funções cerebrais. Por último, é a síndrome congênita do zika-vírus que tem gerado pesquisas reveladoras e desafiantes para a professora e seus estudantes, rendendo prêmios em congressos internacionais e mais motivação ainda para colocar à prova a neuroplasticidade cerebral.

Professora, ao se falar em neurociências, no plural, que universos estão contemplados aí? 

ANDRÉA QUESADA: As neurociências estão interessadas na relação cérebro-comportamento como via demão dupla, ou seja, como o cérebro influencia o comportamento e como o comportamento influencia o cérebro. Mas neurociências não se referem somente à neuroanatomia, não observamos só a parte biológica, tem a parte psicológica e social também. E, cada vez mais, vem se interessando pelos efeitos do afeto no desenvolvimento infantil. Então, se a gente começar com uma estimulação precoce, se der afeto e promover um cenário propício para o desenvolvimento desde os primeiros anos de vida, pode-se evitar uma serie de psicopatologias. Mas, pra eu poder entender a relação da neurociência com a psicologia, preciso entender as estruturas cerebrais. Que são muitas. E memorizar isso é um fardo, de certa forma. Então, a gente vem fazendo de forma vivencial e lúdica, através de associações, brincando mesmo, trazendo casos. 

Quando e como isso começa?

ANDRÉA QUESADA: Tudo começou com o projeto Sinapses, a partir de 2015. Em 2016, conversando com monitores, trouxemos um evento internacional para a Unifor, que é a Semana do Cérebro. No mês de março, o mundo inteiro, Canadá, Alemanha, Estados Unidos, enfim, se põem a divulgar as neurociências, promovendo a Semana do Cérebro. Até então, não havia acontecido aqui em Fortaleza, produzimos a primeira versão local, em 2016. Daí não parou mais. E sempre agregando eventos culturais a palestras e vivências, trazendo as inteligências múltiplas das crianças, suas possibilidades e potencialidades de desenvolvimento. Então, ao passo que pesquisadores convidados compartilham suas pesquisas, crianças com autismo se apresentam cantando e os filhos e filhas de alunos Unifor têm a oportunidade de conhecer o laboratório de neurociências. Isso porque são eles os futuros universitários... Então a gente mostra a função de cada área cerebral, tudo de forma lúdica, e relaciona com eventos do dia a dia. As artes também são bem vindas nesse aprendizado coletivo. Por último, trouxemos o teatro, alunos daqui com conhecimento de atuação, para apresentar uma versão teatral de filmes como Divertidamente e Trolls, que envolvem aspectos das neurociências.

Sério? De que forma?

ANDRÉA QUESADA: No caso do Divertidamente, ele trabalha as emoções. Emoções e memória. Ele fala o quão é importante as emoções para o fortalecimento da memoria. O quão é importante a gente saber lidar com a tristeza e a alegria, ou seja, não basta ter só alegria, a tristeza também faz parte do desenvolvimento. Aí vem falando de memória de longo prazo, memoria de curto prazo, o papel da raiva, do nojo, do medo... O Trolls fala que você não precisa comer o “trolls” pra ter a felicidade. A alegria está dentro de você, o que você precisa é promover o autoconhecimento.  

Se o foco é na infância, o que tem sido verificado nessa fase que causa, digamos, surpresa nos dias de hoje?

ANDRÉA QUESADA: Exemplo: a gente tem uma área no cérebro que se chama córtex-somato-sensorial, onde temos todas as representações das partes do nosso corpo. Com o uso das novas tecnologias, os bebês já nascem tendo acesso a mídias como o celular. Os cientistas analisaram então o tamanho do córtex-somato-sensorial relacionado à área dos dedos dessa nova geração. E perceberam que a representação está maior, pelo uso da tecnologia. Então o comportamento muda estruturalmente e funcionalmente o nosso cérebro. E as nossas experiências de vidas silenciam ou fazem com que os nossos genes se expressem, através de um processo conhecido como “metilação”. Mais recentemente, com o surgimento da epigenética, investiga-se em profundidade como o gen se expressa a partir da experiência. Então, uma criança que sofre maus tratos pode silenciar gens bons, como o gen que tá responsável por controlar a produção de cortisol. Ou os gens que estão envolvidos com a produção de glicocorticoides, gens receptores do cortisol.  Aí essas crianças se tornam mais responsivas ao estresse, aumentando a suscetibilidade para o desenvolvimento de psicopatologias. 

Que pesquisas mais recentes e em desenvolvimento podem ser destacadas?

ANDRÉA QUESADA: Temos uma pesquisa em parceria com uma universidade da Alemanha, a mesma onde fiz o doutorado, em que analisamos os efeitos cognitivos e fisiológicos dos maus tratos nessas crianças, investigando ao mesmo tempo como a arte-terapia pode amenizar esses efeitos. Estamos fazendo essa pesquisa em abrigos. Por maus tratos entendemos negligência, abuso sexual, abandono etc. Também começamos uma pesquisa em torno do autismo, que recebeu prêmio em um congresso internacional de neurociências, o Brain - Behavior and Emotions Brain – ou seja, Cérebro, Comportamento e Emoção, onde a gente verificou os efeitos da terapia ABA no desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças com autismo. A terapia ABA se baseia na análise experimental do comportamento, ela prevê muito a questão da individualidade.  E através de joguinhos, respeitando a individualidade de cada criança, a gente realiza atividades para promover o desenvolvimento cognitivo e emocional, promovendo a independência dessas crianças também. 

Há outros projetos premiados também...

ANDRÉA QUESADA: Sim, a pesquisa da síndrome congênita do zika vírus, que terá duração de dez anos. Inicialmente, os cientistas só perceberam a microcefalia, depois foram percebendo várias alterações encefálicas, calcificações, alterações oculares, motoras... e aí em parceria com a ONG Caviver, a gente avaliou a saúde mental das mães, depressão, nível de estresse, qualidade do sono. E o desenvolvimento cognitivo, de linguagem e motor dessas crianças, através da escala bayley. Desde 2016, a gente vem avaliando o desenvolvimento dessas crianças e vimos que algumas delas tiveram o comprometimento maior na parte da linguagem. Então, a gente avalia essas crianças e já faz a psicoeducação com as mães, ou seja, elas recebem orientação através de cartilhas para fazer a estimulação precoce em casa. Mas só poderei dar mais detalhes a respeito com o tempo. Também levamos uma pesquisa de TCC de uma aluna, Sarah Rebeca, que verificou os efeitos mneumônicos da música em idosos com Alzheimer, com resultados incríveis. Ela descobriu que, além de ativar todas as áreas cerebrais, a música tem um conteúdo emocional muito forte, então ajuda no resgate da memoria e também a consolidar a aprendizagem. 

E quanto a pesquisas suas, particularmente, iniciadas ainda no início da trajetória acadêmica?

ANDRÉA QUESADA: Em setembro último, junto com minha orientadora da graduação na UNB, Rosana Tristão, levei para um congresso em Boston, o Pain, que significa dor, os efeitos do método canguru na qualidade do sono e na percepção de dor em bebês prematuros. Tenho trabalhado com ele desde a graduação, relacionando-o à formação e ao fortalecimento do vínculo mãe-bebê. Você coloca o bebê no lado esquerdo do corpo para ele ouvir a batida do coração. E só em ouvir a batida do coração o bebê se acalma e vai ganhando peso. Mas a gente verificou agora que, além disso, ele equilibra o sono e reduz o nível de cortisol desse bebê, ou seja, reduz o estresse. 

O cérebro então pode se autoformatar continuamente, quando estimulado?

ANDRÉA QUESADA: Sim, tudo graças a minha neuro-plasticidade, que é uma propriedade vitalícia do cérebro de se reorganizar, de se readaptar, a partir das experiências.