Fundação Edson Queiroz (FEQ) apresenta a mega exposição “100 anos da Semana de Arte Moderna em acervos do Ceará”, em celebração ao centenário do movimento que teve papel fundamental na consolidação do modernismo no Brasil.

Com curadoria de Regina Teixeira de Barros e consultoria de Aracy Amaral, a mostra ficará em cartaz no Espaço Cultural Unifor, com acesso grátis a toda a população. É mais uma ação da FEQ para compartilhar conhecimento neste momento em que comemora também 50 anos de fundação.
 

“Figuras (Seresta)”, de Emiliano Di Cavalcanti, é a obra-símbolo da mostra “100 anos da Semana de Arte Moderna em acervos do Ceará” (Foto: reprodução)

 

Por dentro da mostra

Vai reunir obras de artistas que antes mesmo da semana de 1922 já esboçavam o desejo de renovação por meio da sua arte: seja pelos temas tratados ou pela maneira de pintar. Neste espaço, as obras de Eliseu Visconti, Belmiro de Almeida e Arthur Timótheo da Costa dialogam com a produção singular da Padaria Espiritual, agremiação de escritores e intelectuais cearenses que pregavam a renovação das artes.

Ainda neste núcleo, uma sala será dedicada exclusivamente à arquitetura de Fortaleza no início do século XX. Além de se deparar com uma maquete do Theatro José de Alencar (inaugurado em 1910), o visitante verá projeções fotográficas de exemplares da arquitetura do ferro e da arquitetura eclética da capital cearense na época.

Na última sala desta sequência, instrumentos musicais do final do século XIX contam um pouco da história da música feita no Ceará naquela época, enquanto projeções sonoras envolvem o visitante e o transportam às primeiras décadas dos anos 1900. 

Vai reunir obras de artistas que participaram diretamente da Semana de 1922, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Victor Brecheret e Vicente do Rego Monteiro, e artistas da chamada “primeira geração modernista”, como Ismael Nery, Antônio Gomide, Tarsila do Amaral, Lasar Segall e Cícero Dias.

Esse segmento apresenta uma seleção de obras dos artistas que se destacaram ao longo da década de 1920, seja pela busca de uma representação da identidade nacional, seja pela evidente liberdade de experimentação.

O catálogo da exposição no Teatro Municipal (desenhado por Di Cavalcanti), os programas dos concertos e palestras que aconteceram durante a Semana, o Manifesto Antropófago e outros documentos também farão parte dessa sala.

Espaço dedicado aos anos 1930 e início dos anos 1940, quando a preocupação social se torna essencial. O artista mais emblemático desse período é Cândido Portinari, que está representado na exposição por quase uma dezena de pinturas. Além dele, grandes nomes que surgem nos anos 1930 e se tornam destaques do modernismo nacional, como José Pancetti, Alfredo Volpi, Burle-Marx, entre outros, também poderão ser vistos neste núcleo.

A primeira sala desse segmento é dedicada aos pintores cearenses Vicente Leite e Raimundo Cela e a vitrines com livros de Rachel de Queiroz e do Grupo Clã. No fundo, há uma série de surpresas, com trechos do filme de Orson Welles, fotografias da estada dele em Fortaleza, fotografias do cangaço e, ao mesmo tempo, as primeiras obras do Antônio Bandeira.

Exposição “100 anos da Semana de Arte Moderna em acervos do Ceará”
Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 19h – sábados e domingos, das 10h às 18h
Mais informações: (85) 3477.3319

Exposição "O Céu como Limite"

Mario Sanders expõe desenhos, bordados, objetos e pinturas em “O Céu como Limite”, uma realização da Fundação Edson Queiroz.

O artista nascido em Aquiraz, cidade litorânea a cerca de 40 km de Fortaleza, apresenta em “O Céu como Limite”, pela primeira vez, uma significativa produção de bordados. É a linguagem artística de uso mais recente por parte do artista, que começou a bordar há cerca de sete anos.

 

Por dentro da mostra

Mario Sanders expõe desenhos, bordados, objetos e pinturas em “O Céu como Limite”, uma realização da Fundação Edson Queiroz. A mostra, que reúne trabalhos de coleções públicas e privadas, fica em em cartaz até 7 de agosto de 2022 no Espaço Cultural Unifor. A curadoria é de Izabel Gurgel.
 
“O céu não tem limite. E na minha visão, nada se acaba, tudo se transforma e em outras dimensões ganha uma nova vida”, explica Sanders, que já participou de exposições coletivas realizadas pela Fundação Edson Queiroz. O artista nascido em Aquiraz, cidade litorânea a cerca de 40 km de Fortaleza, apresenta em “O Céu como Limite”, pela primeira vez, uma significativa produção de bordados. É a linguagem artística de uso mais recente por parte do artista, que começou a bordar há cerca de sete anos.

Uma das obras expostas é a série selecionada para a mais recente edição da Unifor Plástica, encerrada em fevereiro último. A série de bordados “Retratos da dor” (2021/2022, bordado s/ tela), volta ao Espaço Cultural montada em outro formato. Premiada na Unifor Plástica de 2007, a série de serigrafia sobre lenços “Dissabores doces” (de 2005) também integra a exposição.

Mario Sanders – A ambígua materialidade da palavra

Mario Sanders nasceu em Aquiraz, primeira vila da Capitania do Ceará, criada em 13 de fevereiro de 1699, por ordem de El-Rei de Portugal. Entre idas e vindas, a capital foi para Fortaleza, restando na pequena cidade a Igreja Matriz, construída em 1769, alguns outros marcos históricos, que não recebem os cuidados que mereceriam, e as belas praias. O semiabandono dá ao local uma aura que remete a Macondo, impressão que se reforça com a descrição do artista em sua autobiografia, na qual evoca o bisavô consertando santos, a avó fazendo rendas, o avô tecendo tarrafas e a mãe bordando. Uma visão que certamente encantaria Garcia Marques, um cadinho para suscitar reflexões sobre “a vida, a morte, o infinito e o desconhecido”.

Hábil desenhista desde criança, Sanders começou sua trajetória em direção às artes ainda na adolescência, fazendo revistas em quadrinhos. Criava as histórias e depois as desenhava, fazendo a capa e a diagramação. Essa prática, que o levaria a tornar-se designer gráfico, também resultou num trabalho de artes plásticas que o levou, em 1985, a receber um dos prêmios no certame II Prêmio Pirelli de Pintura Jovem, organizado pelo MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

No mesmo ano, integrou o Grupo Fratura Exposta, criado no Conjunto José Walter, bairro periférico de Fortaleza. Composto por Assis Castelo Branco, Cardoso Júnior, Jorge Luiz, Kelson Teles, Sebastião de Paula e o próprio Sanders, o grupo desenvolvia trabalhos em desenho, pintura e performance, utilizando materiais inusitados como tinta automotiva e suportes recortados. Seus integrantes participaram do XXXV Salão de Abril de 1985, com grande repercussão, e nesse mesmo ano realizaram exposições na Casa de Cultura Raimundo Cela e na Arte Galeria, de Dodora Guimarães. Essas ações tiveram destaque na imprensa local, alcançando ressonâncias a nível nacional, como a matéria publicada na influente Revista Galeria em 1986. Coetâneo às propostas da chamada Geração 80, o Fratura Exposta realizava exposições, instalações e happenings, em conjunto, mas também incentivava as ações individuais de seus componentes. A participação no grupo foi um divisor de águas para o artista, cujo trabalho amadureceu e criou corpo.

Mario Sanders é um cronista visual, e no seu trabalho o estranho e o familiar se atravessam de maneira inusitada e propositiva. Há um pouco de política, de sexo e de violência na sua obra, sempre entremeada de ironia e humor, às vezes um tanto ácido, como demandam algumas situações que retrata. Sua poética aborda questões cruciais inerentes à subjetividade humana: conflitos, dúvidas, amor, desamor, resultando em trabalhos híbridos que traçam dualidades, causando desconforto e encanto. A ambiguidade é sua marca.

Exímio desenhista, Sanders usa traços e texturas para provocar, denunciar e pensar a vida no cotidiano urbano, mas também pesquisa outras mídias, como pintura, objetos, instalações, desenho digital e bordados. A palavra é uma convidada constante em seus trabalhos e está presente nas pequenas telas mesclando bordado e poesia, de forma suave e contundente; nas narrativas que o artista estabelece em seus objetos e instalações, e ainda nos títulos, que, de acordo com Marcel Duchamp, são mais uma cor que o artista acrescenta à sua obra.

Mario Sanders dá materialidade à palavra.

Nos trabalhos que integram a exposição O Céu como Limite, o artista constrói escadas para o céu, se perde em vagas lembranças, martiriza corpos, borda telas com densidade, suspende cadeiras infinitas e, numa reminiscência de Macondo, nos seduz e encanta, lançando sobre nós a sua tarrafa.

Denise Mattar
Curadora

Exposição “O Céu como Limite”, de Mario Sanders 
Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 19h – sábados e domingos, das 10h às 18h 
Mais informações: (85) 3477.3319

Exposição “Macedônia”

Um mergulho em outra cultura trouxe à tona novos horizontes criativos. A residência artística na República da Macedônia do Norte, em 2019, foi a gênese da exposição “Macedônia”, dos artistas Daniel Chastinet e Wilson Neto.

As 23 telas em técnica mista sobre tecido também contam sobre expandir olhares e viajar no cotidiano, tudo em dupla. Por meio das pinturas e dos relatos de viagem, eles reduzem a distância geográfica e cultural entre o Ceará e o país do sudeste europeu, localizado a cerca de oito mil quilômetros de Fortaleza, cidade natal de ambos.

 

 

Por dentro da mostra

Um mergulho em outra cultura trouxe à tona novos horizontes criativos. A residência artística na República da Macedônia do Norte, em 2019, foi a gênese da exposição “Macedônia”, dos artistas Daniel Chastinet e Wilson Neto. As 23 telas em técnica mista sobre tecido também contam sobre expandir olhares e viajar no cotidiano, tudo em dupla. Por meio das pinturas e dos relatos de viagem, eles reduzem a distância geográfica e cultural entre o Ceará e o país do sudeste europeu, localizado a cerca de oito mil quilômetros de Fortaleza, cidade natal de ambos.

A temporada na cidade de Bitola, que mescla matizes do Oriente e do Ocidente, não se encerra de fato com o retorno ao Brasil. Ao contrário, continua a burilar experiências por um ano até chegar ao ponto de traduzir-se em arte. O cotidiano vivenciado na Macedônia transforma-se em sensações, ideias e cores. “Duas portas, entradas para dois mundos distintos. Ou saídas que se encontram no mesmo local. Foi assim nosso processo de criação – saindo de uma porta e encontrando um espaço de câmbio criativo”, explicam os artistas em relação a uma das obras expostas, que traz o simbolismo do acesso da passagem a outro local.

“Os artistas deixaram-se mergulhar em outra cultura e imiscuir-se em outro lugar. O que nasce dessa imersão são obras que mesclam a vivacidade e a liberdade de criar”, diz sobre a mostra a presidente da Fundação Edson Queiroz (FEQ), Lenise Queiroz Rocha. As 23 telas em técnica mista sobre tecido são um passeio pelas cores capturadas ao longo da viagem. Para a presidente da FEQ, Daniel Chastinet e Wilson Neto “são os nossos guias para a experiência de olhar o que nos convoca a parar, observar e alimentar a criatividade”.
 
O vice-reitor de Extensão e Comunidade Universitária da Unifor, Randal Pompeu, relembra a importância das vivências dos artistas que estão em cartaz na nova mostra. "Após residência artística na Macedônia e exposição em Brasília, Daniel Chastinet e Wilson Neto integram o já consolidado circuito de mostras de artistas cearenses do Espaço Cultural Unifor, antes de seguirem sua itinerância em Sófia, na Bulgária. Trata-se, portanto, de exposição carregada de experimentações, referências multiculturais e aprendizados mútuos, valores igualmente cultivados pela Fundação Edson Queiroz em sua atuação cultural", diz o vice-reitor.

O curador Aldonso Palácio ressalta o significado da residência artística do Programa Internacional De Niro na cidade macedônia. “Na bagagem de volta, não trouxeram suas obras prontas, mas esboços e desenhos em forma de cadernos de artista, registros materiais e imateriais que de alguma forma foram internalizados na retina e na alma”, explica. Assim, viram telas os tons de laranja e azul dos lagos Prespa (dois lagos compartilhados por Macedônia, Albânia e Grécia), a mesquita, o alfabeto cirílico (utilizado por povos como macedônios, búlgaros e russos), e a feirante, entre outras cenas do país que integrou o território iugoslavo até 1991.

“As obras aqui apresentadas não pretendem uma ficção linear, muito menos descrever um país. A intenção de Daniel Chastinet e Wilson Neto não foi guiada por registros cronológicos nem por anotações e imagens sistematizadas. Os viajantes transcenderam à própria viagem e abraçaram a liberdade no campo da pintura ao preferir construir uma poética da memória, um álbum carregado de conjecturas e de imagens-gatilho”, ressalta o curador da mostra. 

A viagem de descobertas artísticas também é alvo da apreciação da escritora Ana Miranda, que considera inovador o movimento em direção ao outro do qual a dupla participa. “Não foram em busca de paisagens exóticas, abanos de palha, odaliscas, sombrinhas e quimonos, ou atmosferas, mas de uma visão sensível do outro que encontra eco em si mesmo. E nessa busca meio misteriosa, meio histórica, meio onírica, encontraram uma das mais belas expressões dos seres humanos: o sentimento da amizade”, apresenta a autora. Em Prece a uma Aldeia Perdida, a escritora também já escrevera sobre o que está em nós: “E quando ali retornares / Verás que nunca nos fomos / Pois o lugar onde estamos / O lugar onde estaremos / É sempre o lugar que somos”.

A Macedônia do Norte, país do sudeste da Europa com território menor que o estado de Alagoas, fica na região conhecida como Península Balcânica e faz fronteira com países como Grécia, Albânia e Bulgária. Foi desse caldo multicultural que Daniel Chastinet e Wilson Neto beberam para aguçar os sentidos e desenvolver o que viria a seguir. Desse sumo criativo, brotaram os cadernos de viagem e as telas pintadas a quatro mãos.

Reproduzir uma viagem e emocionar o outro por um relato visual ou oral é o objetivo dessa produção a dois. Acreditar no além, na ilusão e no não terreno é uma escolha? Pois foi escolha entrar nos Bálcãs pela aurora e um dia sentar na mesa com um cantor de aspecto Rasputin e voz de anjo, a cabeça só dá conta pintando”, confidenciam Chastinet e Neto.

Nos relatos de artistas-viajantes, a dupla entrega concepções, sensações, vivências, que vão desde a relação de proximidade/distância com a bicicleta até os sabores e as memórias de quem atravessou continentes para constatar humildemente que “a vida é sempre mais importante do que a arte”.

Wilson Neto é um pintor de um rico universo material feito de tinta, pigmento, impressões, bordados e fragmentos. Tecidos, papéis de parede, cadernos, objetos, tudo vira suporte para sua pintura que acumula camadas e se expande. O processo criativo não parece amedrontá-lo – sua mão mantém o pincel em constante movimento, como num processo de escrita automática dadaísta, um fluxo do inconsciente. Daniel Chastinet traz para o jogo a experiência de ilustrador e muralista, com distintivo traço nas proporções humanas hiperbólicas, mas também dono de uma requintada técnica de pintura – mais pausada e ponderada, preocupada com volumes e relações de cores. Apesar de bagagens tão distintas, quando nos deparamos com o suco do processo, torna-se difícil a tarefa de distinguir onde um termina e o outro começa.

Exposição “Macedônia” 
Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 19h – sábados e domingos, das 10h às 18h 
Mais informações: (85) 3477.3319

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