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Sex, 31 Julho 2020 10:31

Entrevista Nota 10: Mailson Furtado e a poesia rente ao chão

Escritor fala sobre como a poesia pode ser capaz de ressignificar os tempos de pandemia e de suas influências literárias


Mailson é também ator, diretor e dramaturgo. Em 2018, venceu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, nas categorias Livro do Ano e Poesia (Foto: Reprodução)
Mailson é também ator, diretor e dramaturgo. Em 2018, venceu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, nas categorias Livro do Ano e Poesia (Foto: Reprodução)

Habitar o mundo e sentir o pulso dos lugares inventados pelas pessoas. É sobre o chão onde nascem os sentimentos que vagueia a poesia de Mailson Furtado Viana, cearense de 29 anos vencedor do 60º  Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro em 2018, nas categorias Livro do Ano e Poesia, com sua obra independente “á cidade”. Vem de Varjota, cidade com 20 mil habitantes, onde vive, a rouquidão épica de dizer poético, a um só tempo interiorano e cosmopolita.

Ator, diretor e dramaturgo, Mailson fundou a CIA teatral Criando Arte, em atividade desde 2006, e ainda faz as vezes de produtor cultural da Casa de Arte CriAr. O premiado poeta também se graduou em Odontologia pela Universidade Federal do Ceará enquanto leu de Dante Alighieri a Paulo Leminski, não sem passar pela literatura de cordel nordestina. Abraçado às artes, ganhou reconhecimento nacional e hoje tem obras publicadas em jornais, revistas e antologias no Brasil e Portugal, assim como dezenas de textos encenados no teatro.

à cidade (trecho)

tudo sai

os meninos

os cachorros

as pessoas

os mosquitos

as casas não

 

as casas ficam

anoitecem

cochilam

se permeiam dentro de si

se emburacam à noite

alicerce adentro

e se solidarizam com a solidão

 

é noite na cidade

e os meninos vão à rua

desviam de bicicletas

triscam tantas coisas

além da bola

ou a parede de contar

talvez em mim também

a noite caminha

(...)

As ruas parecem cansadas

A vida parece cansada

Eu mesmo me pareço cansado

 

Confira a entrevista

Entrevista Nota 10: Como a poesia lhe aparece? E de que forma ela o guiou para se tornar o que é?  

Mailson Furtado: A poesia como vejo hoje de forma consciente, aparece nos meus primeiros anos de adolescência através do conhecer simultâneo da música, teatro e literatura, e sem dúvidas, foram os meus primeiros olhos ao mundo. Percebi a partir da arte que poderia ter meu próprio dizer e, diante disso, guiei-me a acreditar que ao mundo poderia ser capaz.

Entrevista Nota 10: Como o estudante de escola pública se tornou cirurgião dentista? E onde foi parar a ciência em meio às artes?  

Mailson Furtado: Muita dedicação, claro, mas também tive o privilégio de, apesar das dificuldades financeiras em casa, sempre poder me dedicar integralmente aos estudos, graças ao esforço de meus pais. Quanto ao paralelo entre ciências e artes, nunca separei integralmente as duas coisas, visto, desde sempre, eu me identificar com a área de ciências naturais, principalmente física, matemática e química, das quais inclusive por alguns anos fui professor, e por sempre considerar (também) a arte em seu aspecto científico, da qual a cada dia busco me aprofundar.

Entrevista Nota 10: Quais os cearenses da poesia escrita, falada e cantada que lhe atravessam o peito?   

Mailson Furtado: São muitos, citarei alguns muito marcantes, sempre no risco de esquecer alguns (algumas): Gilmar de Carvalho com seu livro Parabélum, Tércia Montenegro com Turismo para Cegos, Gerardo de Mello Mourão com a Invenção do Mar, Dércio Braúna e Patativa do Assaré em suas poéticas, Oswald Barroso e seu Almanaque de uma cidade do interior e Belchior. 

Entrevista Nota 10: É possível poetizar a pandemia? E o que pode a poesia contra a peste? 

Mailson Furtado: Sim, é possível. A poesia e a arte tudo se permitem. Eu, particularmente, não a busquei como mote para trabalhos, embora venha acompanhando muitas manifestações artísticas afetadas pela pandemia. A poesia pode contra a peste o que pode contra tudo: a possibilidade de ressignificar a vida e ampliá-la para além. 

Entrevista Nota 10: Como está a rotina do poeta e a atmosfera da cidade numa quarentena que parece não ter fim? 

Mailson Furtado: Está sendo cheia de altos e baixos, ora com o psicológico bastante afetado, ora conseguindo produzir e ler um pouco mais. Mas tenho me permitido não me cobrar qualquer coisa, e acredito que essa “liberdade” condicional permita que tudo caminhe com o mínimo de asperezas tão presente nesses dias. 

Entrevista Nota 10: O que pensa um sertanejo nascido em 1991 dos ainda tímidos ventos da descolonização da literatura no Brasil e no mundo?   

Mailson Furtado: Esse, sem dúvida, é meu principal debate político, mesmo que ora implícito, dentro de meu trabalho artístico, creio que a cada dia conquistamos um pouquinho de espaço para entender o mundo a partir de nosso lugar, mas muito há por fazer para que tenhamos um mundo mais igualitário a todos os povos. É uma luta diária e árdua, principalmente para quem, como eu, vem de uma cidade do interior, de um estado do interior, de um país do interior.