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Qui, 10 Setembro 2020 11:39

Entrevista Nota 10: Renata Santiago e a poesia da moda afetiva

Estilista e professora da Unifor destaca o potencial artístico da moda como expressão na atualidade


Renata Santiago Freire é diretora criativa e estilista do Grupo Modaparamim, empresa de criação de moda sustentável e consultoria de imagem e estilo (Foto: Divulgação)
Renata Santiago Freire é diretora criativa e estilista do Grupo Modaparamim, empresa de criação de moda sustentável e consultoria de imagem e estilo (Foto: Divulgação)

Artista, designer e consultora de imagem e estilo, Renata Santiago Freire tem sua criação permeada pela intensidade e pelo minimalismo em sincera harmonia. 

Por meio da sensibilidade presente na arte, a professora do curso de Design de Moda da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, transpõe para peças autorais sua assinatura e instiga nos estudantes o espírito de transformação. 

Com exclusividade ao Entrevista Nota 10, a estilista e diretora criativa do Grupo Modapramim fala sobre processo criativo, sustentabilidade no mundo da moda e a beleza das experiências do cotidiano. Confira a seguir: 

Entrevista Nota 10 - Primeiramente, gostaria de perguntar: o que pode a Moda enquanto expressão artística e da individualidade? É uma forma de resistência? 

Renata Santiago - Moda é linguagem e a partir deste encontro entre palavra e objeto, texto e imagem, tecemos pelas linhas do tempo e da memória, a nossa história. Em todas as suas múltiplas funções (adorno, pertencimento, status, criação, proteção, luxo...) e entendimentos, a moda pode ser encarada como expressão do tempo, do indivíduo, da sociedade, da cultura. A moda, enquanto fenômeno, sistema e objeto de estudo é pautada em estudos comportamentais que envolvem profissionais de áreas e pensamentos diversos que juntos pensam, repensam e incorporam valores artísticos, psicológicos, sociológicos, econômicos, filosóficos, culturais, políticos etc. Em outros termos, pensemos a moda como uma rede, uma teia de sentidos que podem ser articulados, consumidos, relacionados. A essência da moda é a ambiguidade: efemeridade e atemporalidade, liberdade e prisão, resistência e aprisionamento. Porém, seja como for, sempre terá a potência de ser expressão artística em prol da individualidade do sujeito. Essa, para mim, é a sua maior beleza! 

Entrevista Nota 10 - Você possui especialização na área de Teoria Psicanalítica. De que forma isso se relaciona com o seu trabalho?

Renata Santiago - o caminho com a psicanálise é uma formação contínua e diária, que se faz no percurso. A teoria psicanalítica confere uma ética pautada na singularidade e no desejo. Utilizo algumas técnicas e métodos de pesquisa em psicanálise na escuta atenta e cuidadosa de meus alunos. Na disciplina Programa Integrador IV (Projeto de Produto) no curso de Design de Moda da Unifor, eles possuem a missão de criar uma marca de moda autoral inspirada na essência e no processo de autoconhecimento a partir do enlace entre supervisão, projetação e conceitos teóricos. Acredito que a relação entre moda e psicanálise aconteça de forma bastante potente neste lugar de observação, reflexão, análise e criação. O enlace com a psicanálise também está presente na minha prática como Consultora de Imagem e Estilo já que penso o desenvolvimento de uma estética pautada na ética e na diferença de cada sujeito. 

Entrevista Nota 10 - Seu processo criativo é atravessado por experiências do cotidiano?

Renata Santiago - Completamente. O meu processo criativo passa por ler, escrever, desenhar, ouvir minhas músicas preferidas e revisitar fragmentos dos autores que marcam a minha trajetória. Isso tem a ver com não separar em categorias separadas arte/vida/pesquisa/ensino, percebo tudo como uma esfera só. Meu processo criativo como artista-professora-pesquisadora se apresenta como um processo inferencial que destaca as relações. Procuro viver dia após dia de poesia e percorrer o mundo fazendo e estudando arte como forma de re-existência poética tendo a moda como meio.

Entrevista Nota 10 - Como surgiu o Grupo Modaparamim e qual o intuito dele? 

Renata Santiago - O Modaparamim, grupo de criação de moda autoral e de consultoria de imagem e estilo, nasceu em 2008 por meio da escrita de um blog. De início, existiam “apenas” as palavras de uma (apaixonada) pesquisadora e estudante de design de moda cujo desejo era desvendar e questionar esse universo pelo viés da psicanálise e da arte. Em 2011, a marca é registrada e oficializada por meio de um projeto que já pensava a sustentabilidade, a exclusividade e a experiência de autoconhecimento. Em 2012 são ministrados os primeiros cursos de Personal Stylist na cidade de Fortaleza. Atualmente, 2020, já são 34 coleções de moda autoral criadas, mais de 100 turmas presenciais e 1200 alunos formados pela nossa metodologia em todo o brasil/mundo via EAD.

A metodologia Modaparamim antes de mais nada sente e pensa o sujeito pelo viés do respeito e da liberdade. Respeito para escutar as diferenças e liberdade criativa para expressá-la de uma forma única, sem rótulos, classificações ou generalizações. As roupas, as cores, as linhas, os volumes, os acessórios, são os elementos do design que nos servimos para esculpir uma imagem pessoal e um estilo coerente e congruente com quem se é, com quem se quer ser e experimentar. Não se trata de “dever fazer” ou “dever usar” isto ou aquilo, trata-se de se conectar com o fio do desejo, único e intransferível, tem mais a ver com “eu quero”, “eu sou/estou”, “eu desejo”.

Entrevista Nota 10 - O desejo de ser professora sempre esteve presente em sua trajetória? 

Renata Santiago - Sim. Desde criança me percebi ensinando, fosse para as bonecas ou para os amiguinhos do prédio: como ler, como dançar, como negociar, como pensar estratégias mais justas de convivência. Ser professora universitária sempre foi um grande sonho e objetivo de vida. Isso porque tenho uma paixão enorme por estudar, descobrir, desvendar. O ensino é uma maneira de estar sempre no local da descoberta, do devir, isso me instiga e me movimento a seguir em frente, evoluindo. 

Entrevista Nota 10 - Como os estudantes de Design de Moda da Unifor incorporam diferenciais em sua formação, tendo em vista que a criatividade e a liberdade são fortes pilares do curso? 

Renata Santiago - Inicio a resposta resgatando um pensamento que tanto admiro de Edgar Morin, utilizado em minha dissertação de mestrado. Ele nos fala que a universidade conserva, memoriza, integra e ritualiza uma herança cultural de saberes, ideias e valores, que acaba por ter um efeito regenerador, porque a universidade se incube de reexaminá-la, atualizá-la e transmiti-la. Ao mesmo tempo em que gera saberes, ideias e valores que, posteriormente, farão parte dessa mesma herança. O curso de Design de Moda na Unifor é um laboratório vivo e humano, com foco no afeto, na criatividade e na liberdade do pensar, do criar, na diferença bonita de sua mistura. Os estudantes sempre relatam a transformação, ou melhor, a transmutação que vivenciam durante a jornada de formação. Isso se dá a partir de um projeto pedagógico extremamente atento, integrado e dinâmico. Assim como de uma equipe apaixonada, unida e motivada a contar histórias que produzam cultura, inventem novos mundos e gerem frutos férteis para a nossa sociedade. A minha experiência docente aponta que a moda se apresenta como matéria e meio potente para a reinvenção do tempo no contemporâneo. Percorremos os espaços urbanos e os espaços de sala de aula explorando as limitações do corpo e as relações e tensões por ele atravessadas através da experiência em rede e da relação com o outro, encaro a docência como um local de experimentação e relação.

Entrevista Nota 10 - Atualmente, que panorama você analisa da Moda? A sustentabilidade está mais presente? 

Renata Santiago - É inegável que o vestir se apresenta como campo privilegiado da experiência estética na contemporaneidade, lançando nosso olhar por híbridas e diversas temporalidades pelas ações que engendra sob a ótica da moda. Acredito que tanto a moda quanto a arte possuem um papel importante a desempenhar na sociedade contemporânea no processo de conscientização das pessoas e transformação de nossa sociedade. É um modo de presença do sujeito dentro do tempo e do espaço. A virtualidade gerou uma nova condição de existência onde o culto da imagem de si passou a ser uma imposição publicitária cercada por discursos e narrativas híbridas colados no corpo, colagens que flutuam em um altar cênico e descartável, é preciso ter cuidado. Sempre falo em sala de aula, designers precisam internalizar que são educadores, todo projeto em desenvolvimento é de certa forma um projeto social. Sim, a sustentabilidade está mais presente, porém, precisa cada vez, mais não ser vista como uma tendência e sim como uma missão de exercício em tudo aquilo que pensamos e desenvolvemos. Sustentabilidade é cuidar das coisas, é pensar na equidade e na retidão de nossas ações nos âmbitos sociais, culturais, políticos, econômicos e naturais. Para mim, a moda só poderá reexistir nesse momento desafiador se for atrelada com o pensamento sustentável.