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Qui, 25 Junho 2020 10:18

Entrevista Nota 10: Socorro Acioli

Coordenadora da Especialização em Escrita e Criação da Pós-Unifor reflete sobre as transformações individuais e sociais provocadas pelas palavras


A escritora Socorro Acioli é mestre e doutora em Estudos de Literatura. Em 2013, venceu o Prêmio Jabuti na Categoria Livro Infantil com o elogiado “Ela tem Olhos de Céu” (Foto: Arquivo pessoal)
A escritora Socorro Acioli é mestre e doutora em Estudos de Literatura. Em 2013, venceu o Prêmio Jabuti na Categoria Livro Infantil com o elogiado “Ela tem Olhos de Céu” (Foto: Arquivo pessoal)

De tanto voar, um dia a imaginação da escritora Socorro Acioli caiu no colo do mestre colombiano Gabriel García Márquez. Farejador de talentos literários, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (1982) estava à frente de mais uma oficina literária em Cuba quando se deparou com a fantástica história de um nordestino que vai parar dentro da cabeça oca da estátua de Santo Antônio, passando a ouvir tudo o que as moças confessavam ao popular guardião dos mais recônditos desejos casamenteiros.  Sem titubear, olhou fundo nos olhos da visitante brasileira e deu a ela o aval que precisava para seguir adiante na escrita do romance, tudo porque, ali sim, entre tantas mal amarradas tramas em construção, havia originalidade e bom uso das palavras.

A então elogiada candidata à romancista hoje é autora, entre outros livros, de “A Cabeça do Santo” e “A Bailarina Fantasma”, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, tendo um Prêmio Jabuti  de Literatura com o infantil “Ela tem Olhos de Céu” (Editora Gaivota). Mestre e doutora em Estudos de Literatura, a escritora também veio a abraçar a docência – e justo na Universidade de Fortaleza (Unifor). Como coordenadora da Especialização em Escrita e Criação e professora do Mestrado Profissional em Direito e Gestão de Conflitos, Socorro Acioli anuncia a abertura de uma nova turma de estudantes e profissionais interessados em desenvolver expertises ligadas ao livro e à leitura, ao mesmo tempo em que reflete sobre as transformações individuais e sociais provocadas pelas narrativas.

Unifor: O Curso de Especialização em Escrita e Criação reabre suas inscrições em um momento bem diferente desde quando começou. A turma 3 chega junto com a modalidade online, uma vez que a pandemia ainda nos exige isolamento social rigoroso para contermos o novo coronavírus. O que muda, basicamente? E que permanece em termos de didática e metodologias, mesmo a distância? 

Socorro Acioli: A turma 3 está chegando com a mesma qualidade das duas primeiras, mantendo a grande maioria dos professores, mas com algumas novidades. Por exemplo: durante a pandemia, criamos clubes de leituras como uma forma de fortalecer o elo e a ajuda mútua na travessia do período. Tivemos convidados especiais como José Eduardo Agualusa, Schneider Carpeggiani, Tony Bellotto, professor Gustavo de Castro, da UnB, Alexandre Vidal Porto e assim foram dez clubes em três meses. Agora essa atividade já é parte integrante da pós. Já confirmamos a participação de Lívia Garcia-Roza, Julia Bussius, editora da Companhia das Letras, o professor de História da PUC-RJ, João Daniel Almeida, comentando romances distópicos e muitos outros. A aula online afasta os corpos dos abraços, mas trazem professores de vários lugares do mundo para nossa sala de aula virtual: Lisboa, Brasília, Frankfurt, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo. De repente, estamos todos no mesmo espaço. 

Unifor: Estamos às voltas com a febre das lives e os escritores também entraram nessa. Qual o papel dessa ferramenta e como ela pode ser incorporada ao ofício positivamente? 

Socorro Acioli: A explosão das lives foi um fenômeno da pandemia, mas creio que com a volta das atividades regulares a prática seja modificada. O ponto positivo é a aproximação com os ídolos, a sensação de intimidade. Participei de duas a convite da minha editora, Companhia das Letras e da Editora Carambaia, mas meu tempo tem sido dedicado às aulas da Especialização, que acontecem em salas exclusivas. 

Unifor: Entre inúmeros anúncios de cursos de escrita há os que garantem que cursos de redação literária podem trazer um salto para a sua vida profissional — mesmo que você não queira ser o próximo Machado de Assis. O que chefs de cozinha, engenheiros, advogados, contadores, médicos e psicólogos, profissionais de áreas tão heterogêneas e sem pretensões literárias, têm a aprender e apreender em um curso como o de Escrita e Criação? 

Socorro Acioli: O público do nosso curso é formado por pessoas de diferentes idades, profissões e motivações. Temos funcionários públicos de várias áreas, psicólogos, médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, sociólogos, publicitários, professores. Alguns em começo de carreira, outros aposentados ou perto da aposentadoria. O que todos ganham é a capacidade de ler melhor o mundo com as lentes da literatura. Muitos estão no curso pelo prazer de viver a experiência, para escrever suas memórias ou da família, para registrar experiências importantes da vida profissional. Outros querem realizar um sonho antigo de infância e adolescência, resgatar a escrita dos cadernos e diários abandonados. Temos também os que sonham com uma carreira literária, publicação, uma nova jornada de vida. A escrita é uma experiência que amplia o olhar, é uma jornada sem mapa. Para a maioria dos alunos, é uma grande mudança na vida.

Unifor: Podemos dizer que um dos grandes benefícios do curso de escrita criativa é aprender a ler melhor o mundo? 

Socorro Acioli: A Especialização em Escrita e Criação foi pensada a partir de três eixos: Teorias das Narrativas, Ler e Escrever e Ateliês de Escrita. No eixo Ler e Escrever, vamos fundo na leitura e compreensão dos gêneros literários (e no rompimento das fronteiras entre eles) antes de dar o salto para a escrita. O maior ganho do nosso curso é a oportunidade de aprender a ler como escritor, como diz a professora americana Francine Prose. Ler mais, melhor, sair da zona de comodidade, romper barreiras, encontrar novos autores e ideias. Isso é transformador. 

Unifor: O que dizer sobre a leitura e a escrita na era da convergência e conectividade? Como vem sendo possível dirimir a dificuldade de se entregar ao texto e de se apoderar da palavra em meio ao automatismo diário? Ou seja, como conceituar um projeto de leitura e escrita no novo tempo?

Socorro Acioli: A convergência trouxe o engajamento do público leitor, os perfis de Instagram e YouTube dedicados à literatura, a possibilidade de estar mais perto dos autores, dos cursos, a facilidade de ler e publicar livros digitais. Tudo isso fortalece a cadeia do livro e da leitura. A literatura é feita de palavras, sejam elas conduzidas pela voz, pelo papel ou pelas ondas do wi-fi. 

Unifor: Escrever diz muito sobre nós mesmos – e sobre como estamos no mundo. A escrita literária é, em si, também um exercício de empatia ou isso é utópico?

Socorro Acioli: A leitura já é um caminho para a empatia. Quando lemos sobre a vida de alguém muito diferente de nós, com dores e sofrimentos que nunca vivemos, torna-se mais possível compreender esse outro lugar. O mundo é múltiplo e nenhuma vida é igual à outra. Criar personagens ficcionais é um dos melhores exercícios de alteridade, um caminho para a empatia. A seleção de livros e autores estudados no curso buscam a ampliação desse sentimento de comunhão. 

Unifor: Palavras de um escritor-professor: “a redação é muito mal cuidada pelo ensino no Brasil e deveria ser uma questão prioritária, como a matemática. Quem não sabe narrar sua própria vida de modo intrigante não é dono dela, assim como quem vai mal em matemática na escola gere pessimamente sua vida financeira”. Estamos longe de formar leitores de si e do outro?

Socorro Acioli: Infelizmente, os dados relativos à leitura no Brasil não são animadores. E sem leitores não é possível ver o nascimento de escritores. Ninguém escreve bem sem ter a experiência intensa da leitura. Uma das possibilidades de trabalho final na Especialização em Escrita e Criação é uma ação de impacto social. Estamos desenvolvendo projetos com leitura em abrigos para idosos, crianças, em presídios e as possibilidades são ilimitadas. Seria uma das possibilidades de trabalho final do curso, um texto escrito ou ação de impacto com o olhar voltado à responsabilidade social. Há um outro projeto que irei coordenar, o “Leituras do Mundo”, junto ao Mestrado em Direito e Gestão de Conflitos, da Pós Unifor, para remissão das penas de condenados presos nos regimes fechado e semiaberto pela leitura. Seria criar um clube de leitura em uma unidade prisional do Ceará, seguindo a recomendação da Comissão Nacional de Justiça de remissão de pena pela leitura. Temos o exemplo do projeto “Ler Liberta”, da Faculdade de Direito de Vitória, no Espírito Santo, mas por aqui ainda estamos bem no início da fase de discussão e planejamento com as instituições envolvidas. Somos privilegiados e temos a obrigação de espalhar nossas sementes pelo mundo, alunas, alunos, professoras e professores. 

Unifor: Para terminar: quais os pontos altos da Especialização até agora? O que mais marcou e merece ser recontado? Pode narrar um ou outro acontecimento daqueles arrepiantes...

Socorro Acioli: Recebemos em Fortaleza a escritora colombiana Ana Maria Parra, autora da série Sempre Bruxa, da Netflix, o escritor e diplomata Gustavo Pacheco, recebemos a confirmação de Milton Hatoum como nosso professor. Vivemos uma noite linda falando de poesia com Moreno Veloso, especialmente sobre João Cabral de Melo Neto. O escritor Marcelino Freire trouxe uma chama forte de força e esperança para as ideias de todos. E tem muito mais para acontecer. Foi só o começo, mas o que escuto diariamente das alunas e alunos é o sentimento de força e desejo de melhorar a vida ao redor, palavra por palavra.