angle-left Os neorrurais: histórias de quem trocou a cidade pelo interior na pandemia

Qui, 8 Outubro 2020 15:25

Os neorrurais: histórias de quem trocou a cidade pelo interior na pandemia

Com o intuito de obedecer ao isolamento social e sentir acolhimento, muitas pessoas optaram por ficar longe dos centros urbanos


Hannah Troccoli, estudante de Cinema e Audiovisual da Unifor, optou por passar o período de isolamento social no sítio da família (Foto: Arquivo pessoal)
Hannah Troccoli, estudante de Cinema e Audiovisual da Unifor, optou por passar o período de isolamento social no sítio da família (Foto: Arquivo pessoal)

O cenário vivenciado durante o período de isolamento social tornou o ambiente urbano desfavorável para a maioria dos jovens e adultos. O risco constante de contaminação, notícias sobre os números de casos confirmados de Covid-19 e a condição de distanciamento influenciaram no surgimento de um esgotamento emocional. 

Para aliviar as sensações negativas, a casa do interior foi uma alternativa de refúgio, contato com a natureza, com a família e também de conexão pessoal. 

A estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza, Hannah Trocoli, encontrou no sítio dos pais, localizado na serra de Guaramiranga, uma oportunidade para ressignificar o conceito de casa. Construído em sua infância, o local que recebia apenas visitas pontuais, passou a ser habitado por ela durante três meses. 

“Antes da pandemia, o sítio era um lugar que eu costumava ir em ocasiões festivas e um local que me fazia recordar lembranças da infância. Já depois do isolamento, percebi que se tornou um lar para mim. Me sinto muito mais próxima daquele lugar e de seus espaços. É como se eu tivesse me conectado novamente”, declara. 

De acordo com Hannah, as lembranças de liberdade da infância foram resgatadas e trazidas para sua juventude por meio do contato diário com a natureza e com as belezas presentes no sítio. “Sinto que quando eu frequentava o sítio durante a infância, eu me sentia completamente livre. Quando fiquei mais velha, não me sentia mais dessa forma. Agora, após passar meses novamente, consegui fazer trilhas novamente e aproveitar a natureza”, afirma. 

A estudante destaca a diferença que a “nova morada”, ainda que temporária, fez em seus dias de lockdown. “Foi muito importante ir para lá porque antes eu estava em um apartamento trancada e passando pelo caos atual, vivenciei um luto. Eu não conseguia ver o sol e nem o céu. Acho que o mais benéfico do sítio foi poder ver o sol, a sua e as estrelas”, enfatiza ela. 

Já para Eduarda Castro, estudante de Jornalismo da Unifor, frequentar sua casa em São Benedito, interior do Ceará, já era costume antes da quarentena. “Eu costumava vir em algum feriado prolongado e passava um bom período das férias do mês de julho e dezembro. Mas nem se comparava ao período que eu passava em Fortaleza, então, eu considerava a minha casa de fato a que resido em Fortaleza”, comenta.

Eduarda reside em Fortaleza há quatro anos e morou em São Benedito até os dezessete anos de idade. “Ao longo desses quatro anos que moro em Fortaleza, mudei a percepção sobre minha casa anterior em São Benedito”, explica. 

Durante o período de isolamento social, Eduarda retornou para sua cidade natal com o principal intuito de se proteger da Covid-19 e ficar próxima dos familiares. “Passei quatro meses da pandemia em São Benedito. Eu realmente fui me acostumando novamente ao convívio com minha avó, mãe e tia. Foi benéfico permanecer em um local afastado, pois quando saí de Fortaleza no mês de março já tinham três casos registrados de coronavírus. E em São Benedito ainda não tinha nenhum caso registrado, só apenas um mês depois, porém já estávamos em isolamento”, ressalta ela. 

A estudante reforça que a escolha pelo interior durante a pandemia trouxe segurança ao encarar os desafios da mudança de rotina. “Eu fiquei muito mais tranquila e me senti mais segura. Voltei para Fortaleza em julho e houve um estranhamento porque nunca mais tinha ficado tanto tempo em São Benedito. Foi mais difícil para deixar a família”, relata.

Assim como Eduarda, Vinícius Negreiros, estudante de Publicidade e Propaganda da Unifor, fazia visitas frequentes à casa na qual passou a infância e a adolescência, na cidade de Jaguaribara. “Eu vinha pelo menos uma vez por mês para a casa dos meus pais. Senti o aconchego e pertencimento, como já era habitual. Me senti de fato em casa”, conta. 

Segundo ele, ter a companhia e o afeto da família naquele momento foi positivo para o seu emocional: “se eu tivesse permanecido em Fortaleza teria enlouquecido, pois moro em um apartamento e aqui além de ser uma casa, é uma cidade pequena onde qualquer ida a um supermercado é mais fácil”, resume com gratidão.