angle-left Entrevista Nota 10: professor Eurico Vasconcelos e a conexão entre tecnologia e pessoas

Seg, 3 Setembro 2018 14:44

Entrevista Nota 10: professor Eurico Vasconcelos e a conexão entre tecnologia e pessoas

Eurico Vasconcelos tem Mestrado na área de Inteligência Artificial e Doutorado em Informática pela PUC-Rio, além de extensão universitária na Microsoft Corporation nos EUA (Foto: Ares Soares)
Eurico Vasconcelos tem Mestrado na área de Inteligência Artificial e Doutorado em Informática pela PUC-Rio, além de extensão universitária na Microsoft Corporation nos EUA (Foto: Ares Soares)

Cravado real e virtualmente como um cérebro irradiador de ideias no campus da Unifor, o Núcleo de Aplicação em Tecnologia da Informação (NATI) representa o elo entre a academia e a sociedade quando a ordem é fazer chegar à população as mais diversas inovações imaginadas e produzidas nas áreas da informática e computação. 

Nele há pelo menos cinco anos, o professor Eurico Vasconcelos coordena o Programa de Formação e Integração Acadêmica, respondendo diretamente pela gestão administrativa de quatro diferentes e complementares laboratórios.

Cria da casa, o professor tem Mestrado na área de Inteligência Artificial e Doutorado em Informática pela PUC-Rio, com direito à extensão universitária na Microsoft Corporation nos Estados Unidos. Como pesquisador, ao pensar e desenvolver projetos na área da Interação Humano Computador, Inteligência artificial e Tecnologias em Saúde (eHealth), trouxe de volta à Unifor, já como docente, toda a bagagem e expertise necessárias para fazer a conexão entre as tecnologias e as pessoas.

Professor, ao pensar em tecnologia ao longo de uma trajetória acadêmica que saiu da Unifor e chegou à Microsoft, o que lhe veio na bagagem de valioso em termos de conhecimento para também pensar o lado humano? E como isso repercutiu na docência?

EURICO VASCONCELOS: Ao voltar como professor para a Unifor, já através do NATI, minha missão era criar um ecossistema para a formação prática de alunos. Passei a ministrar aulas, mas com horas administrativas no NATI para criar novos programas, como o de Estágio 360 Graus e o Programa de Formação e Integração Acadêmica de Alunos, onde a ideia era fazer interagir as várias áreas de conhecimento que não dialogavam entre si. Foi aí que a gente fortaleceu a missão de apoiar a formação prática do aluno, paralela à outra missão que o NATI já cumpria, a de prover infraestrutura e suporte tecnológico para a universidade. Então, a aposta foi na formação prática de fato, a aproximação com o mercado para trazer experiências reais para o aluno. Primeiro, instituímos um programa onde o aluno tivesse uma visão mais holística da área de Computação e Engenharia, para ele se ver como desenvolvedor, mas também como empreendedor ou acadêmico. A ideia que deve ser clara é: computação não é só programação, é muito mais do que isso. Computação não é fim, é meio. E a gente tem que devolver pra sociedade um pouco do que ela nos dá, cientes de que a tecnologia tem um grande potencial para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Portanto, no programa de estágio, chamamos atenção para esse viés da cidadania.

Mas, objetivamente, qual foi o pulo do gato para promover essa aproximação, atentando para a cidadania?

EURICO VASCONCELOS: Paramos de olhar só para fora da Universidade e fomos buscar oportunidades de projetos no campus, nas outras áreas do conhecimento. Nossos alunos de graduação em Tecnologia tem que fazer um TCC, muitas vezes ele propõe um projeto sem muito impacto, tendo problemas reais e interessantes academicamente dentro do campus. Problemas que o nosso aluno de pós-graduação, que já tem um pé no mercado, por sermos uma universidade aplicada, podiam nos trazer. Então quando fiz a ponte e mostrei o que a tecnologia podia fazer pelas outras áreas apareceram vários projetos, sobretudo na área da saúde. Hoje, temos cerca de 19 projetos de tecnologia e saúde desenvolvidos  ou em desenvolvimento nos mais diversos eixos: doenças crônicas, ISTs, educação em saúde, cuidado com o idoso e a gestante, integração com sensores... Ou seja, a tecnologia veio dar algum tipo de suporte, seja ao profissional de saúde, seja para o usuário. Acredito ter sido impactante no campus a aproximação das áreas e temos melhorado tanto as áreas clientes como a área de formação do aluno da tecnologia. Porque o aluno é, de fato, o protagonista, ele atua como líder técnico, programador,  designer... Hoje coordenamos um time de 40 estagiários. Conseguimos desenvolver projetos de altíssimo nível, entregando “produto” de qualidade gerando inclusive oportunidades de negócios.

Como esse trabalho de formação aplicada vem impactando extra-muros?

EURICO VASCONCELOS: Hoje nós temos marcas-registradas e produtos que estão sendo implantados na rede pública municipal, na rede pública estadual, junto a instituições como Unicef, HGF, Unimed, além  de projetos internacionais como o da RNP, envolvendo quatro países no enfretamento da obesidade infantil, sob a coordenação da Unifor. É importante ressaltar que os projetos de integração são de posse da Fundação Edson Queiroz. Todos nós cedemos os direitos, mas temos os direitos autorais resguardados. Assim, o aluno põe no portfolio, publica artigo em cima daquilo, mas o produto é da Unifor. O que propus à Unifor? Que nós cedamos o uso não oneroso e gratuito para a sociedade dessas tecnologias em saúde que tem um viés de impacto social. Fica garantida assim a possibilidade da população utilizar gratuitamente essas tecnologias, enquanto a gente agrega valor ao eixo responsabilidade social através de parcerias com secretarias e órgãos públicos interessados em implantar essas tecnologias.

Saúde então seria o foco principal entre os projetos desenvolvidos. E quais poderiam ser destacados?

EURICO VASCONCELOS: O primeiro projeto com a Saúde foi Missão Kid, uma tecnologia desenvolvida pelo NATI em parceria com a Saúde Coletiva para o enfrentamento da obesidade infantil. Desenvolvemos uma ferramenta, um aplicativo que visa ensinar a criança de forma lúdica a melhorar os hábitos alimentares e as práticas de exercícios físicos. Um jogo que através de um enredo chama atenção para isso. E aí tinha um desafio. Toda uma motivação para que ela usasse a ferramenta durante quatro meses e nesse período viesse a mudar seu comportamento, passando a entender que é protagonista da sua própria saúde ao adotar boas dicas alimentares, beber água, passar menos tempo em frente à TV ou computador. Hoje, em parceria conosco, o Instituto Atlântico está mediando a negociação dessa ferramenta. Depois, veio o GestAção. Uma ferramenta que acompanhava todo o período gestacional de mães adolescentes, porque observamos garotas cada vez mais jovens engravidando e não sabendo fazer uma boa gestão desse período. A ferramenta, por meio do smarthphone, usava o celular como apoio educacional e identificação de situação de risco. Ao logo dos nove meses, indicava as vitaminas que tinha que tomar e quando, o que ia acontecer com o corpo dela, que exames ela deveria fazer e em que períodos... inclusive a ferramenta foi também pensada para analfabetas funcionais, porque tinha a Rádio Mamãe, que literalmente contava o que ela tinha que fazer a cada mês. Essa ferramenta está sendo implantada nos postos de saúde de Fortaleza, através de uma parceria com a Prefeitura, e já foi tema de extensão de três alunas da Saúde Coletiva. Temos também, por exemplo, uma ferramenta de enfrentamento à sífilis neonatal, que também está em implantação na rede municipal de saúde.

E em outras áreas, o que vem sendo desenvolvido e emplacando lá fora?

EURICO VASCONCELOS: Temos o Voice Guard, uma ferramenta que apoia a gestão do uso da voz por profissionais da educação ou qualquer outro que faça uso da voz. Uma ferramenta que foi desenvolvida por nós e validada em Fortaleza e Portugal. E hoje estamos tentando firmar uma parceria com a Secretaria de Educação de Fortaleza para que se torne política pública, gestão do uso da voz para diminuir o absenteísmo do professor. O Voice Guard foi premiado pela Fundação Clinton, inclusive.  Fugindo do eixo saúde, desenvolvemos uma tecnologia que respondia a uma pergunta simples: como eu empodero uma pessoa com deficiência visual, alguém cego, a comprar roupa sozinho? Uma aluna da moda e um aluno da tecnologia desenvolveram um aplicativo que permite que uma pessoa com deficiência visual possa se empoderar na aquisição do seu vestuário, criando uma etiqueta especial com audiodescrição da peça, o que faz com que ela se projete na roupa. Outra: um aplicativo para enfrentamento de fobias, um trabalho desenvolvido junto à Psicologia usando realidade aumentada. Um auxílio ao tratamento de dessensibilização sistemática que expõe o paciente ao objeto-foco através de etapas controladas. Também podemos destacar o Lixeira Inteligente, outro em parceria com a Prefeitura de Fortaleza, onde o foco é incentivar, de forma lúdica, o descarte adequado do lixo, através de um mecanismo que se comunica com a pessoa que está utilizando, como também avisa para a coleta quando a lixeira está com sua capacidade máxima. A ideia é implantar primeiro em escolas públicas, por serem ambientes controlados, para depois chegar às ruas, promovendo consciência ambiental.

Para onde o NATI e o Laboratório de Formação caminham diante de tantas possibilidades interativas?

EURICO VASCONCELOS: Esse laboratório hoje é especialista em tecnologias de saúde móveis. Eu vou empoderar você, já que o celular é um computador poderoso, cheio de sensores e todo mundo, ou quase, tem um. Através dele, eu sei aonde você vai, aonde está, então posso agendar a hora do seu medicamento, repassar informações, coletar informações biológicas suas em tempo real, me comunicar e controlar a sua saúde em tempo real. Empoderando o usuário, ele usa menos a saúde pública, adoece menos, faz melhor a gestão da própria doença já instalada, e isso tudo junto melhora a qualidade de vida das pessoas e desonera o setor de saúde publica. Então, um outro eixo muito importante de atuação é o de saúde eletrônica. E, para fechar citando o último grande projeto captado, temos o OCARIoT, Obesity Caring Solution, financiado pela União Europeia, através de uma rede nacional de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência e da Tecnologia, que envolve Portugal, Espanha, Grécia e Brasil. Trata-se também do desenvolvimento de uma tecnologia de enfrentamento à obesidade infantil, onde a Unifor, através do NATI, assume a coordenação, já como reconhecimento do projeto Missão Kid e dado o nosso know-how. Um projeto que trouxe para a Unifor um aporte vultuoso de recursos financeiros e que hoje permite que seis alunos e seis professores tenham suas pesquisas apoiadas. O objetivo principal do OCARIoT é promover a melhoria dos distúrbios alimentares e físicos, bem como a prevenção do aparecimento da obesidade em crianças entre 9 e 12 anos. Para isso, desenvolverá uma solução de coaching personalizada que permitirá observar a evolução da saúde das crianças ao coletar em tempo real os padrões de atividade infantil da vida diária, parâmetros fisiológicos e comportamentais, além dos dados ambientais. Toda essa informação combinada com padrões e informações da área de saúde será capaz de capacitar as crianças, famílias e cuidadores no controle da saúde, por coletar informações em tempo real sobre nutrição e atividade física e interconectar médicos, crianças, pais e tutores.