angle-left Poesia, música e cantoria marcam a inauguração da Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel

Ter, 20 Agosto 2019 17:14

Poesia, música e cantoria marcam a inauguração da Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel

Equipamento reúne mais de 2 mil folhetos e é um dos poucos do Brasil a catalogar obras de literatura de cordel


A Cordelteca funciona de segunda a sexta-feira, de 8h30 às 17h e sábados de 8h às 13h. Foto: Ares Soares.
A Cordelteca funciona de segunda a sexta-feira, de 8h30 às 17h e sábados de 8h às 13h. Foto: Ares Soares.

Ao som dos acordes de Pavão Misterioso, do cantor cearense Ednardo, e da poética rimada do cordel, a Fundação Edson Queiroz inaugurou na manhã do dia 20 de agosto, a Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel, uma das poucas do Brasil a reunir obras de literatura de cordel devidamente catalogadas. O novo equipamento, situado no 1º andar da Biblioteca Central da Unifor, tem acervo de mais de 2 mil títulos, instrumentos musicais e xilogravuras e homenageia a primeira mulher a publicar um folheto de cordel no Brasil, em 1938.

A cerimônia de lançamento, realizada no auditório da Biblioteca Central, contou com a presença da presidente e da vice-presidente da Fundação Edson Queiroz, respectivamente, Lenise Queiroz Rocha e Manoela Queiroz Bacelar, do chanceler Edson Queiroz Neto, da reitora Fátima Veras, de vice-reitores, dos secretários de Cultura do Ceará e do Rio Grande do Norte e da idealizadora da cordelteca, a professora do curso de Medicina Paola Tôrres, além de professores, alunos, cordelistas e de familiares da homenageada, entre os quais a filha Alzinete Pimentel.

Lenise Queiroz Rocha, presidente da Fundação Edson Queiroz, destacou em seu discurso o cordel como expressão literária da região Nordeste e o papel de Maria das Neves que, mesmo em uma época marcada pelo pelo machismo e preconceito soube expressar sua arte e criatividade. “A inauguração da cordelteca é mais um passo para legitimar a literatura de cordel que, em 2018, foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil. E ao escolhermos o nome de Maria das Neves, queremos ressaltar a importância de celebrarmos a pluralidade, premissa básica na cultura, na preservação da história e de nossas potencialidades enquanto povo”, pontuou.

O secretário de Cultura do Ceará, Fabiano Piúba, declarou que a literatura de cordel é o cordão umbilical do povo nordestino, por meio do qual o ritmo, a melodia e a métrica contribuem para divulgar o amplo repertório cultural da região. E elogiou a Fundação Edson Queiroz por abrigar a cordelteca. “O acervo literário agora instalado na Unifor é uma referência de pesquisa não só para o Ceará mas para todo o Brasil”, destacou. O secretário de Cultura do Rio Grande do Norte, cordelista Joaquim Crispiniano Neto, também enalteceu a iniciativa da Fundação Edson Queiroz ao “abraçar a ideia de criação da cordelteca, por tudo o que ela representa de defesa da literatura de cordel”.

Em seu discurso, o pesquisador Bráulio Tavares lembrou frase do escritor Ariano Suassuna. “Segundo Ariano, existem o Brasil real e o Brasil oficial, e claro está que a literatura de cordel retrata o nosso Brasil real, de uma forma poética e bela”. Bráulio ressaltou ainda que os cordelistas são os únicos poetas a viver única e exclusivamente de poesia, daí necessitarem de apoio e de divulgação. “Os grandes poetas brasileiros nunca viveram de poesia, afinal, eram diplomatas, advogados ou médicos. Já os cordelistas dependem de seus cordéis para sobreviver”, salientou.

Em nome de Maria das Neves, a filha Alzinete Pimentel agradeceu a iniciativa da Fundação Edson Queiroz, acrescentando que a família ficou bastante lisonjeada com a homenagem. “Nossa família tem mais de 30 poetas, mas certamente minha mãe teve papel de destaque por ser autodidata e por ser a primeira mulher a usar o cordel para se expressar numa época marcada pelo machismo, mesmo que sob o pseudônimo masculino de Altino Alagoano”, afirmou.

Ao final dos discursos, houve apresentação musical de Paola Tôrres e da cantora paraibana Renata Arruda, que cantaram Pavão Misterioso e uma música de autoria da dupla. Em seguida, os presentes se dirigiram até a cordelteca e puderam conferir declamação de cordelistas e cantorias.

Maria das Neves Baptista Pimentel

Paraibana e cordelista, Maria das Neves Baptista Pimentel foi a primeira mulher a publicar um folheto de cordel. Seu amor pela literatura de cordel foi herdada de seu pai, que era poeta e editor de uma livraria e uma tipografia. “O violino do diabo ou o valor da honestidade” foi o título de sua primeira obra, publicada e vendida na livraria de seu pai, em 1938. 

A cordelista teve que usar o pseudônimo Altino Alagoano, formado pelo nome de seu falecido marido e o estado onde ele havia nascido. A época patriarcal não era favorável às mulheres, que enfrentaram preconceitos de gênero. Somente nos anos 1970 foi possível a publicação de folhetos de cordelistas mulheres.

Serviço

Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel
1º piso da Biblioteca Central da Unifor
Funcionamento: Segunda a sexta-feira de 8h30 às 17h e sábados de 8h às 13h
Aberta ao público
Mais informações: (85) 3477.3169