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Qui, 2 Julho 2020 11:30

Webpaquera: relações virtuais crescem entre os jovens

Em período de isolamento social, a chegada das férias de julho leva jovens solteiros a se relacionarem por meio do “flerte virtual”


Em tempos de isolamento social, os jovens têm procurado cada vez mais os relacionamentos virtuais (Foto: Pixabay)
Em tempos de isolamento social, os jovens têm procurado cada vez mais os relacionamentos virtuais (Foto: Pixabay)

O isolamento social ocasionado pelo novo coronavírus (Covid-19) causou impactos relevantes no estilo de vida de toda a sociedade. No âmbito emocional, a privação do contato físico com amigos, familiares e parceiros amorosos aumenta o sentimento de solidão. 

Entre os solteiros, o uso de aplicativos de relacionamentos aumentou conforme as restrições da pandemia foram se tornando cada vez mais fortes. O aplicativo Tinder, em 29 de março, registrou um recorde de mais de 3 bilhões de swipes no mundo. Os swipes são os gestos que os usuários realizam para a escolha de quem lhes chama atenção: aprovação com o dedo indicador para a direita e desaprovação para a esquerda. 

Além dos aplicativos, houve um crescimento de troca de mensagens considerável nas redes sociais habituais, como Instagram e WhatsApp. Segundo Davi Rocha, professor do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, o meio digital melhora a sensação de solidão, por ter deixado de ser circunstancial para integrar a nossa rotina diária:  “o que antes era visto como um tipo de interação social de menor relevância para muitos, hoje é a principal forma de convívio social. Sendo assim, há plataformas e ferramentas que garantem esse tipo de contato próximo, mesmo que virtual”, destaca Davi.  

O estudante de Jornalismo Vinícius Ferreira, 24, conta que voltou a usar um aplicativo de encontros e tem conversado de forma descontraída com novas pessoas. “Acredito que as relações virtuais sempre foram complicadas no quesito de encontrar relacionamentos duradouros. Principalmente agora, que estamos vivendo a era das relações líquidas e do narcisismo, as pessoas buscam cada vez menos um relacionamento. Então, minhas conversas acabam sendo rápidas e no máximo trocamos whatsapp. Para mim não flui muito, pois sei que no momento não podemos nos encontrar pessoalmente”, afirma ele.

Já para Yan Celton, 23, graduando em Jornalismo pela Unifor, a vontade de conhecer pessoas novas é permanente neste período. Ele relata ter feito uma amizade com uma garota que só conhecia de vista. “Senti muita vontade de conhecer pessoas novas, principalmente por ter ficado tão longe dos meus amigos. A garota com a qual fiz amizade foi com quem mais conversei durante a quarentena, nós dividimos sentimentos parecidos e foi bem legal. Melhorou muito a minha sensação de solidão nesse período”, conta. 

Para explicar a discrepância de sentimentos nas interações virtuais do ponto de vista social, a professora Alessandra Oliveira, também docente do curso de Publicidade e Propaganda, relembra a obra "Amor Líquido" de Zygmunt Bauman. “Observo essas questões a partir do comportamento dos usuários. Bauman fala que temos medo de sofrer decepções, por isso é comum que optemos por ter relações mais efêmeras. Em seu texto '44 cartas do mundo líquido moderno', na carta 'Sexo Virtual’, ele analisa que os encontros virtuais não tem muita profundidade, e por isso sentimos a necessidade de mais e mais encontros. Isso acaba gerando um excesso de relações virtuais e poucas relações profundas. É comum que nos cause ansiedade, depressão e a sensação de estar sozinho”, explana a professora.

As vontades não são as mesmas para todos os solteiros. Vinícius Negreiros, 21, estudante de Publicidade e Propaganda comenta que durante esse período não sente tanta vontade de conversar virtualmente. “Se inicio alguma conversa, não consigo sustentar muito. Confesso que tenho um ‘contatinho’ em especial, que mando mensagens de vez em quando. Acho que se você tem alguém em específico, não deixe de mandar um ‘oi’ ou enviar um meme. Mas acredito que é difícil encontrar um solteiro ou comprometido que afirme que a experiência virtual esteja sendo boa. Estamos acostumados ao toque, olho no olho, então virtualmente isso é bem difícil’, completa ele. 

Preservar a segurança é indispensável

Durante a troca de mensagens virtuais, é importante estar atento a algumas recomendações indispensáveis para preservar a imagem pessoal. O professor Davi Rocha destaca que é necessário tomar cuidado com um certo exagero no fornecimento de informações sobre os envolvidos na relação. “É necessária a verificação sucinta das credenciais ditas por ambas as partes e uma saudável atenção aos detalhes e às incoerências surgidas de possíveis mentiras contadas por um ou outro”, frisa. 

Além disso, o professor enfatiza que apesar de ainda não existir uma ferramenta que garanta a integridade plena de uma pessoa, plataformas como o Tinder e o próprio Facebook buscam ativamente garantir a segurança de seus usuários contra perfis falsos e pessoas mal intencionadas. “Confiar em plataformas pensadas para ajudar pessoas que buscam relacionamentos, como essas duas, ao invés de outras como o Instagram, que não foram feitas para tal intento, é recomendado”, ressalta. 

A professora Alessandra Oliveira relembra recomendações básicas como não se deixar fotografar ou filmar. “Principalmente se você vai ter um encontro presencial com a pessoa depois da quarentena, é importante que se atente para marcar em lugares públicos e verificar se essa pessoa faz parte da sua rede de amigos. Perceber qual rede de contatos essa pessoa possui e quais são as suas interconexões, para você se sentir mais resguardado. É aconselhável também informar para algum amigo para onde você está indo”, enfatiza ela. 

Alessandra destaca ainda que as relações virtuais, se vivenciadas com segurança, são válidas e se tornam um ambiente de trocas e afetos. “Apesar de pontos de vista negativos como os citados pelo Bauman, é possível repensarmos esse uso, pois nunca foi tão importante o contato nas redes sociais nesse momento que estamos vivendo”, finaliza a professora.