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Qui, 27 Junho 2019 14:43

Pesquisas com biofármacos buscam alternativas mais baratas para tratamento do câncer

Os estudos estão sendo realizados por pesquisadores da Unifor em parceria com uma empresa chilena, o Centro de Biotecnologia y Biomedicina (CBB).


Kaio Tavares, Leonardo Tondello e Saul Gaudêncio participam das pesquisas (Foto: Ares Soares)
Kaio Tavares, Leonardo Tondello e Saul Gaudêncio participam das pesquisas (Foto: Ares Soares)

Apesar dos inúmeros tratamentos desenvolvidos pela ciência, o índice de casos de câncer ainda é alto. Segundo dados levantados pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o câncer é a segunda doença que mais causa mortes no mundo. Só em 2018, levou 9,6 milhões de pessoas a óbito.

De acordo com um estudo realizado em 2018 pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Brasil, o pulmão é um dos órgãos com a segunda maior incidência de localização primária de câncer em homens, e a quarta maior em mulheres. Nos homens, representa 8,7% dos casos, nas mulheres, 6,2%.

Pesquisadores da Universidade de Fortaleza têm feito pesquisas direcionadas ao desenvolvimento de um biofármaco para tratar os cânceres de pulmão, o colorretal, nos rins e nos ovários. Trata-se do anticorpo monoclonal anti-VEGF, produzido no leite de caprinos transgênicos. O projeto é realizado pelo Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), sob a coordenação dos professores Kaio Tavares, Leonardo Tondello e Saul Gaudêncio.

A produção do medicamento visa uma nova alternativa de tratamento para a doença, já que as atuais têm um alto valor de comercialização no mercado. Segundo o professor Leonardo Tondello, só o Brasil gasta cerca de 300 milhões de reais por ano com a compra do anti-VEGF. “A produção do biofármaco no leite caprino permite uma redução desses custos. Criar um rebanho de animais transgênicos para a produção do anti-VEGF é consideravelmente barato em comparação às plataformas convencionais de produção de biofármacos. É uma maneira de tentar reduzir os custos em medicamentos, nisso que nós enfocamos”, garante Kaio Tavares.

Em maio, nasceram os primeiros caprinos geneticamente modificados para a produção do anticorpo monoclonal anti-VEGF da América Latina. As três cabras foram produzidas e geradas na Unifor e permitirão uma produção em larga escala do biofármaco.

Plataforma transiente

Antes do nascimento das cabras transgênicas, os pesquisadores da Unifor pré-validaram a atividade do anticorpo monoclonal anti-VEGF no leite dos caprinos através de uma plataforma de produção transiente. Esse método permitiu uma produção rápida do anticorpo em pequenas quantidades.

O procedimento na plataforma transiente é realizado com um animal não-transgênico, no caso, uma cabra. O material genético é injetado na glândula mamária do caprino, que vai produzir o anticorpo de interesse no leite, temporariamente. “Isso permitiu que o trabalho avançasse bastante a nível de pesquisa. Mesmo a produção [do leite] tendo sido pequena, foi o suficiente para purificar e para começar a fazer alguns testes muito importantes de atividade da droga”, explica Tondello.

Testes pré-clínicos, realizados em camundongos com câncer de pulmão, tiveram resultados promissores e permitiram os avanços da pesquisa. “Houve uma redução muito significativa nos tamanhos dos tumores pulmonares [nos camundongos]. Agora, nós temos os animais transgênicos nascidos, que vão produzir esse anticorpo em maior escala e seguimos com testes pré-clínicos in vitro e in vivo”, afirma Tondello.

Parceria internacional

O projeto é desenvolvido em parceria com o Centro de Biotecnologia y Biomedicina (CBB), startup da Universidade de Concepción, no Chile. O leite retirado dos animais transgênicos é purificado no Chile, sob a supervisão dos colaboradores Jorge Roberto Toledo, sócio fundador e CEO da CBB, e Oliberto Sanchez, CEO da CBB. A pesquisa e a parceria teve destaque internacional em uma matéria veiculada pelo jornal chileno El Sur, no dia 25 de maio deste ano.

A estrutura disponível no CBB permite resultados precisos na purificação do medicamento. No Chile, os procedimentos são feitos em um “sala limpa”, adequada para a realização de processos, como purificação, realização de ensaios e prototipação do anticorpo. “Essa parceria vai continuar no futuro quando tivermos o leite em escala”, afirma Tavares.

Pesquisa na Unifor

A Unifor desenvolve pesquisas com caprinos transgênicos desde 2010. No início, o objetivo era diminuir a mortalidade infantil e a diarréia no semiárido do país. Subsequentemente, as pesquisas se expandiram para o desenvolvimento de biofármacos para o tratamento de outras doenças, como a doença de Gaucher, doenças autoimunes, leucemia e linfomas, entre outras.

Além dos professores Kaio Tavares, Leonardo Tondello e Saul Gaudêncio, responsáveis pela pesquisa, as pesquisas são desenvolvidas por uma equipe de estudantes do Programa de Doutorado Renorbio, Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM) e por alunos de graduação dos cursos de Medicina Veterinária e Medicina da Unifor.