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Qui, 12 Novembro 2020 14:55

A pressa pode esperar: como pausar o tempo a favor de si

Em meio à correria do cotidiano, é fundamental reservar tempo para dedicar ao autocuidado


O desafio de
O desafio de "ter tempo": rotina acelerada é uma característica do estilo de vida contemporâneo (Foto: Getty Images)

Vidas conectadas 24 horas. Rotinas turbinadas pelo excesso de atividades. Horas que mais parecem evaporar. E uma promessa jamais cumprida: a de que, com a ajuda das tecnologias, iríamos ganhar enormes quantidades de tempo em quase todos os campos da vida social. O paradoxo incontornável da sociedade contemporânea é temporal: em geral, não dispomos de tempo, embora o ganhemos em abundância. Como lidar com a aceleração social típica da hipermodernidade e encontrar atalhos para não sucumbir à exaustiva corrida por desempenho e resultados imposta por ela? Como alargar o tempo e torná-lo aliado na tomada de decisões capazes de trazer mais sentido e significado à própria vida?   

Coordenador do OTIUM – Laboratório de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre – e professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, instituição ligada à Fundação Edson Queiroz, Clerton Martins mobiliza autores como o germano-coreano Byung-Chu Han para dizer sobre tempos acelerados que conduzem os sujeitos a uma arritmia diante dos excessos na produção, no consumo e no estilo de vida contemporâneo. “A ideia do presente como única dimensão temporal possível é algo que tem levado a um cansaço crônico e fatigante, um esgotamento de si mediante o imperativo internalizado do autodesempenho”, afirma.

Para ele, na sociedade que se cobra por mais produtividade e tem pressa em consumir nada dura muito tempo. “O culto ao novo é fascinante. O último modelo seduz por sua imagem de inovação e dinamismo. Tudo se torna obsoleto e velho rapidamente. Isso vale para pensamentos, ideias, sentimentos e, pasmemos, relações. Essas dinâmicas agora são rápidas e fluidas, não existindo mais o sentido do vínculo e do tempo da apuração dos valores que antes sustentava as tradições, as relações, as crenças etc”, assinala o professor. 

Presos ao virtual, mas desconectados das redes de sentido, não é à toa que os indivíduos de um tempo sem tempo, segundo ele, tendem a adoecer: “síndrome do pânico, síndrome de burnout, depressão e TDAH são algumas das doenças que dizem sobre o não acesso a nós mesmos. Confusos e com uma necessidade contínua de comunicação com outros para provar a si mesmos que não estão sozinhos, é nas redes sociais, via blog, e-mail, facebook, celular, que os sujeitos contemporâneos vivem a ilusão de se sentirem acompanhados, sem saber ou conhecer o valor e a necessidade da verdadeira companhia”. Daí porque o professor reivindica: é preciso criar o tempo para a desconexão, sem que isso esteja ligado ao tédio, ao lado negativo do ócio, a um nada fazer sem sentido.

“Atualmente, parar é algo tão difícil diante das cobranças e urgências relacionadas à produtividade que o sujeito que pausa ou silencia pode inclusive se sentir desconfortável, sem rumo, sem ocupação, sem vibração, sem força, sem potência essencial. Tudo porque estamos perdendo o valor existencial do ócio - e do silêncio -, algo que nos leva a parar para escutar, pensar mais devagar e olhar de novo. A dificuldade de parar, de se haver com a solidão radical, reduz o homem a um constante fazer e parecer fazer, não ser e parecer ser. E o que vemos é a somatória de informações e imagens sem fim, onde o sujeito não consegue elaborar uma experiência e dela extrair densidade ou significado”, alerta o professor. 

Resistir ao culto da velocidade é um desafio possível. Segundo Clerton, o modelo hegemônico de uma duração sem interrupções pode ser confrontado pela ideia do ócio como reencontro com o “nada fazer” pleno de sentidos, uma busca desejada e guiada pela escolha livre. “Na sociedade apressada e produtivista, o ócio nos falta, apesar de, ao mesmo tempo, esperarmos o momento em que possamos reunir as condições para desfrutá-lo. Daí porque prestigiá-lo como constituinte da vida, qualificá-lo como oportunidade de construção e aprimoramento humano e valorizá-lo em contextos educativos e de trabalho podem levar a melhor conviver com a complexidade das temporalidades no mundo hipermoderno”, observa. 

Tudo porque, segundo ele, o ócio convoca ressignificações, troca, vivacidade, reelaboração da vida, demonstrando que “é essencial parar e recriar toda uma rede de valores mercantilizada, em nome de tempos mais humanos, pautados pelos encontros, vínculos e compartilhamento de experiências”. Tal convocação ganha contornos ainda mais fortes em meio à pandemia da Covid-19. É o que o projeto de pesquisa “A Covid-19 e o isolamento social: os impactos sobre a saúde mental, o uso do tempo e a relação pessoa-ambiente no domicílio”, do qual fez parte como pesquisador do Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGP) da Universidade de Fortaleza, também atestou. Clerton não tem dúvida: o isolamento social conduziu o brasileiro a pensar novas configurações sobre tempo e espaço, tempo de trabalho e ócio. A era do “tempo vegetativo”, onde um instante parece igual ao outro, passou a incomodar mais, gerando mudanças subjetivas e objetivas na vida social.

Um dia depois do outro

Inquietação avessa a pausas. Atenção focada não nos processos, mas nos resultados. Notória habilidade para empreender e realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Eis o retrato generalizado de uma geração marcada pelo excesso de estímulos cujo comportamento vem sendo analisado pela psicoterapeuta e professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, Roberta Cavalcante, sobretudo quando atua com orientação profissional junto ao público de estudantil. “De um modo geral, esses jovens estão muito mais preocupados com o futuro do que atentos ao presente. Reféns de uma vida acelerada e conectada com telas, eles têm muito acesso à informação, mas poucos meios ou canais de orientação. Portanto, há um nível cognitivo alto, mas também imaturidade emocional para refletir sobre o próprio tempo e tomar decisões baseado no aqui e agora, pulando etapas”, observa.

Para Roberta, é a dificuldade em viver um dia após o outro, aliada ao ritmo hiperativo de vida adotado pelos jovens de hoje, que podem estar por trás de repetidos episódios de ansiedade e estresse observados justo na fase que antecede a escolha profissional. “Ainda que saibamos que não há o tempo certo ou ideal para tomadas de decisão que podem direcionar uma carreira a pressa e a pressão que paira no ar em ter que fazer algo é inversamente proporcional à predisposição para parar e pensar. Ao contrário da geração de seus pais, que normalmente se formava para seguir uma só profissão, o estudante de hoje quer abrir o leque de oportunidades ao longo da vida. Mas esse excesso de metas ou a sensação de poder abarcar tudo às vezes atravanca o processo e gera frustrações ou dúvidas paralisantes”, complementa. 

Que se olhe também - e de frente - para o tempo cindido por uma pandemia. Para Roberta, a pausa forçada por conta da Covid-19 é um convite incontornável para que todas as gerações repensassem o próprio tempo e se encorajassem a reinventá-lo sem tanta pressa. “Como o recolhimento compulsório global, acho que mesmo os jovens passaram a valorizar mais os pequenos acontecimentos, rituais e celebrações, aqueles que rapidamente caíam no esquecimento, por serem rotina, mas que durante o difícil isolamento social se revelaram como ancoradouros emocionais. O tempo do 'eu faço' e do 'eu posso' vem pedindo uma trégua. E até o autocuidado já não depende só de mim, mas de nós todos. Assim, essa parada pode levar a uma revisão de valores e estilos de vida, como também a novos modos de uso do tempo, já que hoje ele é quase que inteiramente voltado a uma sobrecarga de atividades ou de trabalho. Isso vai exigir pensamento crítico, resiliência, criatividade, autonomia, autoconhecimento: uma atenção mais aprofundada sobre quem fui, sou e pretendo ser para, enfim, encontrar sentido no presente e projetar o futuro”, defende.

Meu tempo, minha vida

Trabalho, estudo, lazer, ócio. Para a psicóloga e mestranda em Psicologia pela Universidade de Fortaleza, Renata Mota, 29, entender e se apropriar do próprio tempo para fazer caber o utilitário e o bel prazer, escapando inclusive das autocobranças ligadas à produtividade, é o maior dos desafios da contemporaneidade. Como membro do Laboratório OTIUM (Laboratório de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre), ela vem pensando em como equilibrar essa balança para não se sobrecarregar de atividades protocolares e burocráticas, esquecendo daquilo que de fato lhe dá prazer, mesmo que pareça “improdutivo”. 

“No livro 'Aroma do Tempo', o filósofo coreano Byung-Chu Han nos chama atenção para o fato de não sorvermos mais o passar do tempo... Não é o tempo que está acelerado. Quem está no modo imediatista somos nós, os sujeitos. Nós que assumimos diversas atividades, afazeres e autocobranças 24 horas na vida. É autossabotagem. A gente trabalha muito, estuda muito e esquece do principal, de nós mesmos, de pausar para realizar aquilo que de fato nos dá prazer hoje. Há de se perguntar: será que estou apropriada do meu tempo ou tenho me dedicado somente às obrigações, a cumprir uma agenda lotada? Estou presente e inteira em todas essas atividades? O que de fato me move? Em algum momento da semana eu tenho um tempo para mim, inclusive para não fazer nada?”, questiona Renata.

Ela mesmo admite a dificuldade de dar corda no próprio relógio existencial e abrir espaço na rotina de trabalho e estudo para abraçar o tempo livre sem culpa. “Sou uma pessoa que se cobra muito por produtividade e foi difícil adquirir a consciência de que preciso me permitir o ócio, que é diferente do tempo de lazer, algo mercantilizado também, levando em conta que até uma saída para a praia leva você ao consumo. Já tive crise de pânico no final da graduação e ansiedade no começo da pandemia até entender como viver nesse tempo diferenciado. Mas acabou que a pausa forçada me ajudou a parar de me cobrar tanto e me fez ter paciência para viver o processo. Foi assim que me reapropriei do meu tempo, priorizando o que me faz bem: além de escrever meu projeto de mestrado, que há muito me esperava, encontrei tempo para escrever cartas, pintar, praticar meditação e ioga. Criei enfim esse momento de recreação solo e hoje posso dizer que me reconheço como autora do meu tempo”, felicita-se. 

Para Renata, essa conquista causa uma erosão na “sociedade do cansaço”, termo também cunhado por Byung-Chu Han, já que bate de frente com a centralidade do trabalho produtivo e nervoso no mundo contemporâneo. “A primeira pergunta que fazemos ao conhecer alguém é: em que você trabalha? O que você faz? Vive de que? E tudo gira em torno disso: vou comprar um notebook melhor por conta do trabalho; vou morar mais perto do trabalho para ganhar tempo; vou fazer um curso para ter uma melhor colocação no emprego. Em paralelo, o tempo do lazer se tornou extensão dessa máquina que alimenta o consumo, com a indústria do entretenimento. É preciso então defender o tempo do ócio, que não tem exatamente um fim utilitário, é o tempo dedicado ao prazer simplesmente, ao mergulho em si mesmo, algo que esquecemos ou que dizemos não ter tempo para tal, veja que contra-senso. Eu escolhi a sexta-feira só para mim e não abro mão disso, para saúde mental e emocional”, aferra.

Pela duração dos acontecimentos

Por que ir tão rápido? E o que perdemos quando não apreendemos o tempo? Para o psicólogo e mestrando em Psicologia da Universidade de Fortaleza, Lucas Ponte Bonfim, 26, há um excesso de positividade na “sociedade do cansaço” de Byung-Chu Han. “Trata-se de um poder fazer tudo e de uma euforia generalizada em torno do que ainda pode ser feito ou da superação de seus próprios limites. É esse admirável mundo de possibilidades que leva o sujeito contemporâneo a entrar na corrida desenfreada para atingir o máximo de produtividade. Não há dúvida de que estamos mais rápidos e produtivos – e isso não é ruim. O problema é quando esse poder fazer se torna um dever, um imperativo que leva à exaustão e nos torna escravo da produção. É aí que passamos a reféns de um tempo atomizado, que só passa, mas não nos atravessa ou nos transforma - e muito menos nos liberta. É só pano de fundo, espécie de forma sem conteúdo”, explica.

Para Lucas, que também é membro do laboratório OTIUM, uma resposta contrária às imposições que forjam uma vida hiperativa diz respeito à construção processual de uma vida contemplativa, aquela que cria maneiras de dizer não ao excesso de estímulos. “O pedagogo espanhol Jorge Larrosa ratifica essa negativa como resistência sobre a qual nos fala Byung-Chu Han. Para ele, o excesso de informação impede a experiência, que é aquilo nos toca, nos arrebata, nos atravessa e acaba por constituir a nossa história e a nossa memória. A experiência não apenas acontece, ela tem ligação com a duração dos acontecimentos e com um tempo pleno de densidade, capaz de incitar a reflexão e contemplação. Mas me parece cada vez mais rara a capacidade humana de trocar experiências em um mundo raso de atenção”, sublinha. 

Atento ao presente, Lucas também chama atenção para a falácia do teletrabalho que chega junto com a pandemia. “Parece um tempo mais maleável esse do trabalho remoto? Ele pode de fato ser mais livre, já que os prazos e horários se flexibilizaram? À princípio parecia que sim. Mas não. Na verdade estamos trabalhando até mais porque o teletrabalho acaba invadindo o dia todo. E assim compromete os outros tempos: o domestico, o do lazer, o tempo livre. Na queda de braço, é o tempo econômico que vence de novo. Mas não deixar que expulsem os elementos contemplativos da vida pode ser um caminho de resistência frente ao trabalho invasor. Defender o ócio como alguma liberdade e direito ao desfrute desvinculado do trabalho, um caminho possível para a apropriação do próprio tempo. Nunca se trabalhou tanto na história da humanidade. E é preciso parar para questionar qual o sentido disso tudo”, sustenta. 

No plano pessoal, Lucas utiliza a arte como forma de se apropriar do próprio tempo e reter prazer em meio à rotina atribulada. “Sou músico amador, tenho muitos instrumentos e quanto estou tocando ou escutando música consigo estar de fato com a atenção focada em mim. Pode ser uma música de cinco minutos mas parece uma eternidade aquele momento. É um respiro para não sucumbir ao esgotamento geral que cada vez mais se torna estatística e preocupa cientistas e pesquisadores de várias áreas, já que as doenças correlacionadas a isso também geram improdutividade e prejuízos ao mercado”, alerta