angle-left Entrevista Nota 10: Mariana, Virna e Letícia e seus ensaios arquitetônicos

Qua, 9 Outubro 2019 16:21

Entrevista Nota 10: Mariana, Virna e Letícia e seus ensaios arquitetônicos

Virna Leite, Letícia Façanha e Mariana Ximenes, estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Unifor. Foto: Ares Soares.
Virna Leite, Letícia Façanha e Mariana Ximenes, estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Unifor. Foto: Ares Soares.

“Três meninas do Brasil, três corações democratas/
Tem moderna arquitetura/Ou simpatia mulata...”. 
Três Meninas do Brasil, de Fausto Nilo.

As três nasceram com talento ímpar para o desenho. As três sonharam acordadas com o resultado do vestibular que as levariam a estudar Arquitetura, precisamente na Universidade de Fortaleza. Por méritos próprios, as três tiveram a mesma oportunidade de fazer intercâmbio em outros países e, ao retornarem ao campus de origem, ousaram transformar o próprio lugar onde hoje cursam o oitavo semestre, prestes a se tornarem arquitetas urbanistas. 

Mariana Ximenes, Virna Leite e Letícia Façanha são também as alunas nota 10 “com sangue no olho” que fizeram bonito na mais recente edição da Bienal do Livro do Ceará, ambientando o espaço principal de debates e as praças de alimentação criadas no Centro de Eventos. Em entrevista, elas falam dessas primeiras experiências empíricas e não titubeiam em alçar a arquitetura ao patamar das artes, ao mesmo tempo em que dizem sim de antemão ao novo projeto pedagógico do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza, que, a partir de 2020, quer casar teoria e prática do início ao fim da grade curricular.

Por que vocês escolheram arquitetura? E o que as trouxe até a Universidade de Fortaleza?

Mariana – Minha mãe é dentista, mas sempre gostou muito de arquitetura, decoração, e estava sempre mudando a cara da casa. Ela me levava nas lojas. Eu, piveta, 12 anos, adorava aquilo. No Ensino Médio, minha mãe queria me convencer a seguir a carreira dela. A ponto de me dizer que odontologia é como ser arquiteta de dente (risos). Mas bati pé, já sabia que queria ser arquiteta e quando conheci a Unifor e esse campus maravilhoso tive a certeza de onde eu queria estudar e que carreira profissional seguir.

Virna – Comigo também foi amor à primeira vista. No nono ano do Ensino Médio vim para um campeonato de judô aqui na Unifor. E adorei o campus, achei lindo, agradável e ideal para quem queria pensar o espaço. Pensei: quero estudar aqui. 

Letícia – Minha trilha não foi tão romântica como a da Virna. Até porque eu botei na minha cabeça que eu queria Medicina. Aliás, estava entre Medicina e Direito. Mas no vestibular coloquei uma segunda opção: Arquitetura. Passei e vim fazer. E aí começou uma paixão grande por arte. Comecei então a conseguir me comunicar através do desenho. E acabei por encontrar a lógica de cuidar de pessoas na própria arquitetura, sobretudo através de disciplinas ligadas ao direito à cidade, sociologia, antropologia, literatura. Esse curso aumentou tanto meu leque de referências. O arquiteto é sim meio médico, meio psicólogo, meio filósofo e só assim ele é capaz de entender o desejo de todos. 

Para que serve a arquitetura, afinal? E como ela dialoga com as artes?

Mariana – Arquitetura lida com espaço. Espaço lida diretamente com pessoas. Penso que a gente mexe com o inconsciente das pessoas. Tipo assim: às vezes você não sabe por que está se sentindo bem em determinado lugar, mas está. E o arquiteto está por trás desse bem-estar, sempre buscando isso. A gente prepara os ambientes para as pessoas, a gente quer a cidade para pessoas, parece meio óbvio, mas é difícil manter equilibrada uma equação que também tem que levar em conta o fluxo dos automóveis e a produção e circulação das mercadorias.

Virna – Sim, porque tem a ver com você conseguir ler e traduzir a confusão de desejos das pessoas. Fiz parte da empresa júnior de arquitetura e urbanismo aqui da Unifor, a Construtiva Júnior, e eu era da diretoria de gestão de pessoas, o RH da empresa. Justamente para entender o que pensam as pessoas sobre o que elas precisam. E quanto mais eu me aproximava das pessoas mais fazia uma boa arquitetura, acho. Porque era uma tentativa de traduzir as sensações e demandas, mas também de propor outras soluções e sensações que elas nem sabiam que poderiam experimentar.

Letícia – E na verdade o Curso de Arquitetura é isso: a gente se humaniza através da forma plástica... é como uma obra de arte, que traz ali um discurso. A gente está mexendo sim com comunicação, com sentido, a gente tem o poder de afastar ou aproximar pessoas... temos uma responsabilidade sensorial e social enorme sobre as pessoas, dos modos como elas vão se relacionar com o espaço e se comportar. Na disciplina Espaço e Sociedade, quando a gente começou a ler sociologia, entender os movimentos de revolta entre as comunidades e até aquele abismo de quem não tem nem ciência sobre o direito à cidade e à legislação, por exemplo, é que passamos a entender que mais importante do que o desenho perfeito era entender como as pessoas se comportam num ambiente. Isso é que deve fundamentar todo o nosso discurso plástico. 

Mariana - A arte é política. A arquitetura é política. Desde o Modernismo isso está muito claro na obra dos artistas e dos arquitetos. Quando Lina Bo Bardi, por exemplo, faz o MASP e deixa um grande pilotis, ela podendo usar o térreo para construir, mas deixa aquele vazio justamente para qualquer coisa acontecer, como feiras e manifestações, a gente percebe uma postura política. Para mim, a importância da arquitetura na história é notória e serve para pensar como podemos contribuir para a cidade evoluir. Viajamos recentemente com um grupo de estudantes de Arquitetura para a Missão Rio de Janeiro. É um projeto aqui da Universidade de Fortaleza, onde vamos ver de perto determinadas obras arquitetônicas... e de repente a gente tava frente a frente com o arquiteto Índio da Costa, ele falando o quanto a teoria é importante. Ficou todo mundo se olhando porque não é comum a gente ouvir isso, todos dizem “vocês têm que estagiar, ir para a obra, praticar...”. E a gente tinha isso da teoria forte no nosso coração, mas quase nem podia expressar entre os amigos... (risos)

O curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza vai colocar em prática um novo projeto pedagógico a partir de 2020, apostando justamente na complementaridade da teoria aplicada à prática, desde os primeiros semestres. O que fez diferença na formação de vocês e o que esperam com essa mudança?

Virna – Acho que o que fez a diferença na minha formação foi realmente a qualidade dos nossos professores e a facilidade de comunicação com eles e elas, sem dúvida. Além da sala de aula, temos diversos encontros e estamos sempre em contato via Whatsapp, mantendo uma amizade. Essa proximidade abre portas, porque eles têm muito a ensinar. Inclusive veio daí a minha paixão pelo ensino. Quero fazer mestrado e lecionar no futuro. Por isso sou grata a eles, que me trouxeram sensibilidade para fazer arquitetura. E agora, com as disciplinas ligadas entre si, teoria e prática, penso que essa prática vai ser ainda mais consistente e compromissada. No meu caso, o paisagismo foi um divisor de águas. Nem sabia que fazia parte da arquitetura. E acabou direcionando o meu estilo, como vou projetar. Falo dessa disciplina e da professora Fernanda Rocha emocionada, porque me ensinaram a pensar, a me comunicar... Comecei a pensar mais no usuário, a conseguir rebater no meu projeto uma linguagem, a dar sentido. 

Letícia – Benedito Abud, no livro dele chamado “Criando Paisagem”, fala que dentre as profissões é a que mais se assemelha à arte é o Paisagismo, porque você mexe com todos os sentidos e sensações das pessoas: tato, visão, olfato, audição... Para mim está ligado à poesia, à música. São sons, cheiros...

Mariana - O senso comum pensa que paisagismo é só planta. Também é. Mas está ligado à paisagem. A professora Fernanda Rocha fala, e a gente leva pra vida, que quando você está pensando em prédio é paisagismo, independente de colocar uma planta ali ou não. Porque você está interferindo na paisagem, em todo o entorno. Qual será a inclinação daquele prédio, o gabarito, o sol bate aonde, isso já é paisagismo, toda escolha que se faz em relação à paisagem. Arquitetura é paisagismo, é vida. Não existe o paisagista. Somos arquitetos. Ponto.

O campus em si, em termos de paisagismo, também é uma grande sala de aula não?

Virna – Demais. E para além das aulas com a Fernanda a gente percebeu ainda mais isso quando fez intercâmbio pela Universidade de Fortaleza. Fomos para outros países e tivemos a oportunidade de aprender fora e voltar transformadas. E a gente voltou pensando que a precisava se envolver mais com a Unifor, se apropriar e interferir nesse espaço. 

Letícia – O intercâmbio foi extremamente importante. Eu e Mariana moramos juntas em Paris, a gente estudou numa “école” de arquitetura que era uma antiga fábrica. E a gente se impressionou como era apropriada pelos alunos e professores, de tal forma que a universidade ficava aberta 24h na época de “entregas” (provas finais), as pessoas até dormiam lá, porque como os apartamentos em Paris são muito pequenos não havia onde trabalhar... Então, a universidade disponibilizava área de trabalho, grandes oficinas, salões enormes como depósito de maquetes, inclusive... e tinha uma cafeteria que foi montada pelos próprios alunos, trazendo uma cadeira de casa, ou algum mobiliário encontrado na rua... Era um espaço que funcionava como a segunda casa deles. Isso abriu muito nossa cabeça e também as disciplinas ligadas à arte, produção artística, instalação...  Quando voltamos nos perguntávamos por que essa universidade era tão pouco apropriada? A gente começou a se incomodar com essa rigidez e a querer quebrar isso...

Virna – Fiz intercâmbio em Lisboa. E também voltei com essa inquietação. Foi quando nos envolvemos com a Semana da Arquitetura aqui na Unifor. Falei com a Mariana pra gente fazer alguma coisa. E ela topou. Mas existia um tabu que a não podia intervir de forma alguma no prédio. Mesmo assim, fomos falar com nossa coordenadora, Camila Girão. Ela levou aos superiores e acabou que foi aceito. Primeiro, demos uma palestra para explicar o que é place make, ou seja, “fazer espaços”. A grosso modo, você pega um estacionamento vazio e coloca um mobiliário e ali já tem uma mini pracinha...  No outro dia após a oficina já tínhamos 25 inscritos e a partir daí, separados em grupos, todos propuseram um projeto para a pintura da rampa do boco C, o que acabou virando um concurso de idéias. Os projetos foram expostos e no final o mais votado seria executado por todos. Aconteceu que a equipe da Letícia venceu (risos). E juntou gente de tudo o que é curso pedindo pra pintar um pouco...

Letícia – As meninas pensaram esse projeto e eu puxei umas amigas, impactada por uma disciplina que era ligada à história do Brasil e arquitetura brasileira. A gente lia sobre a fenomenologia do brasileiro na época. E nosso projeto para a rampa partiu justamente da música cearense... Fizemos um cordel com trechos de músicas do Pessoal do Ceará como justificativa. Então, vencemos e nosso grupo coordenou a intervenção e criou os desenhos. Isso virou um evento, com banda de música e tudo. Faltou tinta e pincel de tanta gente que veio pintar. Era para ser um dia e foram dois. Parece pouco pintar a rampa, mas para a gente foi um acontecimento, comentado inclusive por pessoas de outras universidades, que viram pela internet e viralizaram. Vieram até pedidos para que a gente fizesse isso em outras rampas. 

Ou seja, sucesso de público e crítica! Então foi a partir dessa repercussão que vocês também foram convidadas a intervir na última edição da Bienal do Livro do Ceará?

Letícia – Sim. Isso foi a partir de uma parceria do Governo do Estado com o curso de arquitetura da Unifor. Com a repercussão da rampa, nós três fomos lembradas e nos disponibilizamos. Foram convidados na verdade seis alunos da Arquitetura, mas só nós três assumimos o compromisso. Participamos de um workshop ministrado pela editora Ana Dantes, ela é do Rio de Janeiro, muito envolvida em movimentos colaborativos e coordenou toda a equipe. Ficamos responsáveis pela ambiência da Bienal do Livro, dos espaços de convivência e praças de alimentação. Pensamos tudo, do chão ao teto, literalmente. Mas não podíamos pendurar nada nas paredes do Centro de Eventos, nem arranhar, então foi um desafio grande. 

Mariana - Outra dificuldade desafiadora foi em relação à verba. Aqui na Unifor, quando a gente faz a disciplina dos ateliês, não somos levadas tanto a pensar nos custos, ou seja, quanto seria aquela obra que estamos projetando. Aí, quando a gente chegou à Bienal e foi projetar pra valer, e ainda mais lidando com verba pública, tomamos um banho de água fria, porque era muita responsabilidade. Tínhamos que fazer o melhor naquelas condições, fazer algo barato e criativo. E trabalhamos junto com os estudantes da Comunicação e Publicidade, que fizeram a parte de comunicação visual, além do pessoal especializado em eventos, que também nos dava a medida do que era possível ou não fazer com aquele recurso. Se não desse tínhamos que pensar noutra coisa. Ou seja, a gente dependia de várias pessoas e o grupo de profissionais envolvido era bem heterogêneo. Mas foi muito positivo o respeito que tiveram com a gente, a valorização do arquiteto como profissional.

Letícia – Isso. A gente teve que ir apresentar nossas ideias na Secretaria da Cultura do Estado. E aí foi também um treino de como defender uma ideia junto a uma mesa cheia de gestores... Foi muito rico. 

Virna – O tema da Bienal era “A cidade e os Livros”, o que, por si só, já puxa para a Arquitetura... E tínhamos o desafio de ambientar espaços já projetados: o palco principal, as arquibancadas, os espaços de exposição e até por onde iam passar algumas iluminações... Pensamos em mobiliários que pudessem ser reaproveitados também. Como a ideia era a de fazer um grande terreiro então tinha que ser uma coisa mais acolhedora. Fomos lembrar a casa do nordestino e decidimos cobrir a arquibancada com chita... O palco teve um recorte diferente, circular... Usamos como materiais como pallets, cadeiras do mestre Espedito Celeiro, madeira reciclada prensada... 

Mariana – também grama sintética nas praças de alimentação, mesa de piquenique, cadeira de praia... Enfim, um local frio, com um pé direito tão alto, acabou ficando aconchegante. E a ideia de sustentabilidade estava ali, porque todo o material poderia ser reutilizado, como, por exemplo, em um parklet.

Virna – Para isso, passamos por um workshop durante quatro dias. E o contato com a arte local foi um capítulo à parte incrível. Descobrimos as obras do Sérvulo Esmeraldo e essa experiência e conhecimento a gente vai levar para a vida, com certeza!