angle-left O namoro acabou. Como encarar o fim do relacionamento na juventude?

Qui, 10 Setembro 2020 14:59

O namoro acabou. Como encarar o fim do relacionamento na juventude?

Jovens relatam o impacto do fim de relacionamentos em suas vidas e como é possível tirar lições positivas desse momento


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De "coração partido", muitos jovens buscam ajuda psicológica para ajudar a superar o fim do namoro (Foto: Getty Images)

Se a vida é a arte do encontro, como cantam os poetas, o amor tende a ser o mais desejado e inebriante deles, mesmo trazendo em si os tropeços e as quedas que podem levar à dor e ao inevitável fim. Como lidar com o término dos relacionamentos amorosos em tenra idade? Qual o impacto emocional dos primeiros “não dá mais” junto aos jovens casais enamorados que ainda não calejaram as mãos diante do complexo desafio de esculpir a paixão e o desejo sem mais existirem sozinhos no centro do próprio espelho? E que estratégias ou lenitivos vão criando para aliviar a “sofrência” e abrir passagem para o próximo namoro? 

De repente, não mais que de repente, o mito da cara-metade se esfacelou. Fazer o que? Para o estudante de Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição da Fundação Edson Queiroz, Felipe Saraiva, cada pessoa é um universo e não há fórmulas ou manuais para lidar com as perdas. Ainda que cercado de clichês, o fim do namoro bate diferente em cada par e as reações diante do enfraquecimento e morte da paixão são insondáveis. Assim entende hoje, aos 20 anos, ao recordar a dor tamanha que sentiu ainda menor de idade ao romper o primeiro “namoro sério”, momento em que passou de gordinho voraz, famoso por raspar o prato tantas vezes lhe fosse servido, a um fiapo de gente, do tipo que só queria dormir para ver o tempo passar mais rápido.  

“Eu acho que cheguei perto do que seria uma depressão. Rezava todas as noites querendo esquecer. Foi pesado, mas também marcante e, passado o processo do luto, acho que amadureci, o que me tornou até grato ao relacionamento. Me sinto feliz por ter conseguido transformar a dor em uma memória boa”, afirma o também monitor de Filosofia no curso de Direito. A transformação que veio dar na superação não se deu da noite para o dia. “Busquei ajuda especializada, terapia mesmo. E hoje sei que foi imprescindível o apoio psicológico. Porque consegui fazer uma revisão do que sentia e de como havia lidado com o sentimento naquele relacionamento. Consegui falar não só sobre o modo como eu via o namoro como também o dela. E acho que melhorei a partir do momento em que vi o todo de outra perspectiva, para além do meu próprio umbigo. Então, é bom estar aberto a encarar os próprios defeitos e não culpar o outro pelos seus erros. Aliás, viva o Setembro Amarelo!!!”, festeja, referindo-se de forma bem humorada à séria campanha contra o suicídio.

Do fundo do poço não passa. É o que também pensa Felipe, rindo do que já lhe fez chorar. “Olha, eu era bem preconceituoso, mas para sair daquela sofrência aceitaria qualquer coisa e passei até a pesquisar no YouTube sobre ‘como parar de sofrer por amor’. Além da terapia, passei a escrever tudo o que estava sentindo e esse backstory foi importante pra mim, embora antes achasse ridículo ainda ouvir falar em diário. Buscando na internet também encontrei páginas e vídeos muito bacanas: Eureka, no Instagram, funcionou como apoio psicológico e para autoconhecimento; ouvir Raça Negra e, especialmente, os álbuns ‘AmarElo’, do Emicida, e ‘Casas’, do Rubel, me ajudaram a chorar. Aliás, não deixem de chorar, eu chorei pra minha família inteira e pros amigos, que também não são só para passar a mão na sua cabeça, mas para fazer pensar. Também assisti a muitas entrevistas de jovens juízes, pessoas muito calmas e bem resolvidas que passaram a me influenciar. Tudo isso, junto e misturado, me reanimou pra vida”, regozija-se.

Moral da história, segundo Felipe: procure aquilo que lhe faz bem e aproveite o momento de introspecção e solidão para tentar se conhecer melhor. Hoje, já às voltas com novos relacionamentos, ousa inclusive voltar ao início do jogo e procurar a ex-namorada via redes sociais simplesmente para agradecer e dizer que valeu à pena, apesar do fim, ouvindo de volta que até hoje ele também é o protagonista das mais românticas recordações dela. “Muitos namoros terminam por falta de comunicação, incapacidade de dizer o que se sente ou como se sente com a outra pessoa. Já não quero mais repetir esse erro e também já não tenho ansiedade em ter todas as respostas em apenas 11 meses de namoro. Quando voltar a namorar sério quero descomplicar as coisas e manter o foco naquilo que me faz bem: tenho lido enquanto tomo sol, faço exercícios físicos todos os dias, estou me alimentado melhor e ando bem feliz. Claro que posso ficar até mais feliz se encontrar a pessoa certa, mas, no momento, acho que a pessoa certa sou eu...”, conclui Felipe. 

Acabar para recomeçar

Amar se aprende amando. E o aprendizado requer resiliência, sobretudo quando o fogo da paixão arrefece e o namoro esfria até o ponto de não mais se justificar. A capacidade de se recobrar ao final do relacionamento amoroso foi o que a estudante de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Yasmim Vieira, de 23 anos, fez brotar em si mesma quando percebeu a falência de um casamento marcado por decepções e desentendimentos difíceis de lidar com tão pouca idade. “Conheci meu ex-marido aos 19 anos. Começamos a namorar e um mês depois estávamos morando juntos. Com o tempo, descobri mentiras e traição da parte dele. Tentei contornar, até perdoar, mas aquela se tornou uma relação que hoje entendo como abusiva e tóxica. Ainda passei quase três anos com ele, mas era totalmente reprimida, infeliz, não me reconhecia mais. Fui cansando das brigas até que minha mãe disse que eu poderia voltar pra casa dos meus pais. Me senti acolhida e assim tomei coragem para acabar, isso depois de também perder um bebê e uma tia que adorava e que era muito alegre e cheia de vida”, recorda. 

Em meio às perdas, Yasmim decidiu por reconstruir uma vida da qual também pudesse dizer que havia sido vivida intensamente. Para tanto, não fugiu do sentimento de luto. Preferiu isso a sublimar a dor. “Na Psicologia, tive contato justamente com questões relacionadas aos lutos que a vida nos proporciona. E é preciso acolher esses lutos para que deixem de ser monstros. Eu vivi todas as fases do luto, encarei de frente, da minha maneira: fiquei triste ao voltar para o meu primeiro quarto de solteira em que não tinha sequer uma cama, chorei bastante, tive saudade, quis voltar, mas busquei a minha rede de apoio, família e amigos, além de terapia, para resistir e entender que a minha real vontade era virar aquela página, ou seja, voltar para mim mesma. Veio então o sentimento de alívio e a certeza de que tudo passa... Não foi fácil descobrir o que queria dali pra frente, mas entendi o que não queria: estar naquele relacionamento novamente”, reafirma, categórica. 

Aos poucos, a ajuda psicológica especializada afastou pensamentos ruins e autossabotagens. “Comecei a botar o pé na “solterice”, conhecer pessoas novas e aquilo me trouxe de volta o sentimento de liberdade, algo que prezo muito hoje e não quero mais abrir mão. Foi bem pesado e difícil, mas me redescobri. E passei a gostar do que vi no espelho. Saí de uma imagem recatada, calada, reprimida e reconquistei uma voz ativa. Hoje entendo que só eu posso decidir ou mudar a minha vida. E não preciso de homem pra nada, nem para ter filho. Outra coisa: namorar só daqui a uns bons cinco anos, quero curtir muito a minha vida, sair com amigos e jamais me deixar sabotar ou me tornar dependente emocional de alguém. Namoro é para dividir alegria e iluminar a vida. Não o contrário. Mas para isso há de se preservar sua luz própria primeiro”, ensina.

A perda da inocência também virou de ponta cabeça a vida do estudante de Engenharia Elétrica da Universidade de Fortaleza (Unifor), Alex Vieira Rocha. Aos 28 anos, ele ainda procura entender as razões de uma crise de ansiedade que se tornou peso em seu mais sério namoro, hoje terminado. Ele tinha apenas 17 anos e ela 15 quando se conheceram por meio do Orkut para meses depois poderem enfim se encontrar, mas com as restrições impostas pela família dela, que seguia os preceitos da religião evangélica. “Só podemos sair juntos sozinhos quando ficamos maior de idade e para até para dar o primeiro beijo foi um processo. Aquilo tudo foi me deixando muito ansioso. E depois de dois anos sentia que ela não tinha desejo de ter relação sexual comigo. Cobrei muitas respostas que ela não sabia me dar e minha autoestima foi minando junto com o relacionamento”, rememora.

A insegurança também levou a conflitos internos próprios de um jovem nascido em uma sociedade patriarcal e machista. “Tinha aquela pressão na minha cabeça de que homem precisa conhecer várias mulheres, transar não só com a namorada, trair, enganar, enfim... e eu nunca fui de joguinhos, ao contrário, sempre me doei por inteiro e quis ser totalmente transparente nas relações. Tanto é que contei para ela quando comecei a conversar com outra menina nas redes sociais. Não a traí mas ela queria que eu interrompesse aqueles contatos fora do namoro. Não concordei e foi aí que a coisa se perdeu de vez e os desentendimentos aumentaram”, acredita. Com o fim do namoro, Alex buscou terapia. Seu diagnóstico foi de hiperatividade com fortes indícios de depressão. A tristeza aumentou quando a ex começou a namorar um amigo seu. Fundo do poço. Medicação. Muita conversa. 

Sentia muita culpa pelo término e ao colocar os prós e contras na balança ainda me propus a reatar o namoro umas seis vezes. Mas sempre que voltava era aquele círculo vicioso: as mesmas brigas se repetiam e passei a não gostar mais de mim naquele relacionamento. Aos poucos fui me perdoando, aprendendo a lidar com autoaceitação e autoestima. Estava desmotivado, protelando inclusive as atividades da Universidade. Foi bem difícil. Passamos seis anos até conseguir terminar de vez. E durante todo esse tempo de vai e vem ainda sonhava com ela e acordava me sentindo mal. Cheguei a achar que não ia mais me envolver com ninguém”, desabafa Alex. Nos amigos, vislumbrou a porta de saída. E depois de ter se afastado de vários deles por conta do namoro se viu motivado a reconquistá-los. Erro que jura não mais cometer no futuro. “Sem amigos não há como se recuperar de um amor perdido. Agora meu foco é fazer novas amizades, ampliar cada vez mais essa fonte de alegria e prazer”, admite.

Estar aberto aos riscos que envolvem uma nova paixão já não é problema para Alex. E ele se orgulha de não ter sucumbido ao apelo de “usar” alguém para esquecer o antigo amor. “Nunca gostei dessa cultura do desapego dos jovens da minha idade. Eu me apego e gosto de me doar para a pessoa com quem me relaciono. Quero continuar assim, mas de forma equilibrada a partir de agora. E sem cobrar que a pessoa seja o meu espelho. Cada um ama de uma forma e é preciso respeitar os limites e a individualidade do seu par. Acho que ainda terei dificuldades ao terminar um namoro e conviver com a ideia de aquela pessoa que você gostou tanto de repente vai sumir ou ser ‘bloqueada’ de suas redes de contato. Bloquear é como se a pessoa tivesse morrido. De qualquer forma, decidi passar dois anos sem ver, mesmo ela morando bem próximo a minha casa. E a distância física foi importante para que a poeira baixasse e hoje nós podermos ser amigos e confidentes, até”, comemora.

Olhos nos olhos da “sofrência”

É humano demasiado humano o sofrer por amor. E não há como falar de amor sem olhar para a cara da morte, refletida na finitude presente em cada relacionamento amoroso. Para a psicoterapeuta e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Anna Karynne Melo, rupturas não são necessariamente ruins e, se tudo tem começo, meio e fim, os finais podem e devem ser constitutivos, como também transformadores. O xis da questão, portanto, está em como o jovem às voltas com o término de um namoro vai lidar com a “morte simbólica” do sentimento investido naquela relação. 

A também coordenadora do Laboratório de Psicopatologia e Clínica Humanista Fenomenológica da Unifor (Apheto) sublinha: “É próprio da juventude a intensidade dos sentimentos e emoções. Essa intensidade pode ser pensada pelos extremos: a gente vê relações afetivas e amorosas de Facebook e redes sociais extremamente fugazes, com direito a fim de relacionamento pelo WhatsApp e por mensagem, e, por outro lado, jovens com extrema dependência afetiva, vivendo um relacionamento amoroso como se fosse único ou para sempre, tendo que dar certo. Nesse último extremo, para os que fazem um investimento mais confluente e intenso, os términos podem acabar sendo vividos como grandes rupturas, algo extremamente desorganizador e perturbador”. 

Entender que as “desorganizações” podem não ser necessariamente ruins é que são elas. Segundo a professora, as mortes simbólicas irão permear toda a existência, portanto, estar diante do sofrimento, sem fugir dele, significa, paradoxalmente, dizer sim à vida e apostar na capacidade humana de superar-se.  “É preciso sofrer. Se é humano, tem que ter essa dose de sofrimento. O sofrer por amor, tema que se propaga, por exemplo, tão fartamente na música ou na literatura ao longo dos tempos, nos dizem isso, ou seja, falar de amor é falar do sofrimento. Tudo porque amar é um deslocamento, é estar diante da alteridade, então não é algo fácil ou tranquilo. Daí porque enlutamento, tristeza, frustração, esses sentimentos que estão em volta do término de um relacionamento são importantes e devem ser vivenciados. Acontece que quando esse fim passa a ser sentido como uma morte real - e não simbólica -, quando é algo que inviabiliza ou paralisa a vida do jovem, precisamos ajudá-lo a desenvolver mecanismos de superação, o que, necessariamente, passa pelo acolhimento da dor”, observa.

Para Anna Karynne, a geração marcada pela velocidade e liquidez do ciberespaço, onde as interações tendem a ser fugazes mas há inúmeras possibilidades de invenção, parece ter mais dificuldade em lidar com as mortes simbólicas da vida.  “Os jovens de hoje estão às voltas com inconstância do laço social, acesso desordenado à informação e hiperconsumismo. Portanto, existencialmente, o tempo de espera é mínimo. Mas o tempo de espera é necessário, é a espera que faz a gente se deparar com aquilo que nos é possível e nos impõe limites. Assim, é importante que a rede social que circunda esse jovem possibilite essa condição, ao mesmo tempo em que observe se o lidar com a finitude, se isso que é existencial está sendo tomado como algo intensamente concreto. Se sim, é hora de pedir ajuda para compreender o que se passa, o que acontece para esse término ser tão desorganizador assim... Se o sofrimento se cronifica, tomando uma dimensão ou intensidade que não é pontual, tornando-se extensivo a outras camadas da existência, aí não diz respeito só ao término do namoro, mas a outras questões”, alerta.

E, afinal, como superar? Como psicoterapeuta, Anna Karynne afirma que, para a Psicologia, superar significa atravessar, portanto não há fases nem estratégias universais ou progressivas de superação a serem enumeradas. “Superar é viver essa dor, não é fugir, se trancar no quarto ou fazer de conta que não aconteceu, passando para outra relação de forma imediata. E ser impactado pelo sofrimento também não é algo negativo. A gente precisa ser impactado ou deslocado pela vida, porque é isso que vai fazer com que a gente a redimensione, a transforme. Esse impacto é dolorido, pode ter uma grande intensidade mesmo e com o tempo precisa ir diminuindo, de forma que o jovem possa transformar esse impacto em algo potente”, estimula.