angle-left Retomada da economia no Ceará: novas rotas e expectativas para o pós-pandemia

Sex, 22 Maio 2020 13:14

Retomada da economia no Ceará: novas rotas e expectativas para o pós-pandemia

Especialistas da Universidade de Fortaleza falam sobre o atual cenário da economia cearense e as previsões para depois da crise sanitária.


Economista Allisson Martins, professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas da Unifor, estima retração de até 4,1% na economia cearense em 2020. (Foto: Ares Soares)
Economista Allisson Martins, professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas da Unifor, estima retração de até 4,1% na economia cearense em 2020. (Foto: Ares Soares)

Desde o início da pandemia de Covid-19, para além de todos os problemas de saúde, sociais e de gestão pública, uma outra situação tem afligido o mundo inteiro por conta do novo vírus: uma crise econômica global. Em meio à luta diária e persistente pela preservação das vidas, também se faz presente a necessidade de manter a população recebendo renda e as empresas produzindo insumos essenciais à sociedade.

Sendo, atualmente, o segundo estado do Brasil com o maior número de casos confirmados de coronavírus, de acordo com a Secretária de Saúde do Estado, o Ceará também enfrenta tais problemas. Para analisar esse cenário, conversamos com alguns especialistas da Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, sobre as perspectivas e projeções de retomada na economia local. Confira a seguir.

Entendendo o cenário atual

“A economia cearense, assim como toda atividade econômica global, foi afetada fortemente, sendo observados impactos negativos no fluxo de caixa das empresas, empregos e renda em baixa e, por consequência, queda nas finanças das famílias”, situa o economista Allisson Martins, professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas da Unifor

“Segundo estudo do Núcleo de Práticas em Economia (NUPE) da Unifor, a economia do Ceará poderá apresentar, no cenário pessimista, retração de até 4,1% em 2020, com perdas econômicas estimadas em R$ 11,1 bilhões de reais.” Alisson Martins, coordenador do curso de Ciências Econômicas

O economista vislumbra que um retorno efetivo não ocorra até o final do mês de maio, em razão dos números diários de contaminação e da situação hospitalar, que está no limite. Entretanto, ele ressalta que a dinâmica econômica deve ocorrer de forma gradativa, assim como em outros países. O intuito desse comportamento cauteloso é o de minimizar a possibilidade de uma “segunda onda” de infecções pelo novo coronavírus, além de adequar as condições de higiene e distanciamento dentro das empresas em um primeiro momento. 

“Na seara de serviços da economia cearense, a atividade do turismo tem forte representatividade no nosso Produto Interno Bruto (PIB) por irradiar efeitos econômicos nas mais diversas atividades”, exemplifica Martins ao pontuar que, para além da hotelaria, o turismo também impacta positivamente em restaurantes, comércios, artesanatos e demais atividades. Todos esses serviços, no entanto, sofreram um baque por conta das medidas sanitárias contra a Covid-19.

“Em curto prazo, não se vislumbra retomada deste segmento econômico [turismo], infelizmente. Mas, em médio prazo, as atividades turísticas, principalmente nacionais, devem apresentar crescimento no fluxo de renda por haver uma demanda reprimida por este tipo de serviço.”
Alisson Martins, coordenador do curso de Ciências Econômicas.

O professor Josimar Costa, coordenador dos cursos de Administração e de Comércio Exterior, conta que as empresas foram atingidas diretamente no modo de fazer negócios. “As empresas consideradas essenciais, em razão do distanciamento social e da redução do fluxo de pessoas nas ruas, foram impactadas nas compras presenciais, aumentando os custos logísticos de entrega e obrigando a utilização de plataformas online de vendas e/ou relacionamento”, explica ele.

Segundo Josimar, apesar das grandes empresas já possuírem estruturas digitais de suporte que facilitam processos de virtualização, alto poder de barganha com fornecedores para negociar prazos e facilidade para alavancar crédito junto ao “mercado financeiro”, existem contrapontos. Por serem grandes, esses empreendimentos apresentam estruturas organizacionais mais rígidas, o que faz com que mudanças radicais demandem mais tempo, impactando diretamente em seu desempenho.

“Contudo, as micro, pequenas e médias empresas apresentam uma vantagem competitiva quando comparada às grandes: criatividade e resiliência para se reinventar com muita velocidade.” Josimar Costa, coordenador dos cursos de Administração e de Comércio Exterior

Perspectivas e esperanças

Josimar (foto acima) explica que, independentemente da situação, os investimentos das empresas precisarão ser maciços em biossegurança. Ele também aponta que o Estado precisará trabalhar intensamente na identificação e rastreamento de infectados; ou seja, testando a população para isolamento individual e de prováveis contatos. Apesar disso, o administrador acredita que as oportunidades de empreendimentos serão possíveis.

“O mercado sempre busca o homem criativo que Schumpeter chamou de ‘empreendedor’. O empreendedor é aquele que tem a habilidade de encontrar oportunidades onde ninguém mais percebe e, mais importante ainda, saber usar sua criatividade para transformar ideia em resultado.” Josimar Costa, coordenador dos cursos de Administração e de Comércio Exterior.

Allisson aponta que sempre existem caminhos prósperos para a retomada do crescimento econômico dentre os mais diversos tipos segmentos. “Mas, de forma geral, os agentes econômicos devem compreender que entramos em uma nova fase do sistema econômico em que as relações humanas devem ser potencializadas, de modo que seus produtos e serviços estejam adequados a este novo momento”, completa.

“O consumo pelo consumo deve ser página virada, de modo que os empresários deverão buscar conhecimento e assessoria técnica para o desenvolvimento de novos produtos, marcas e mercados.” Allisson Martins, coordenador do curso de Ciências Econômicas

“Em função da pandemia do novo coronavírus, a economia deverá ser ‘reconfigurada’ e as opções serão mais voltadas para a saúde, bem-estar, convívio familiar experiências de lazer, cultura, viagens etc”, discorre o economista.  Ele ainda acredita que a sociedade será mais assertiva em suas demandas, impulsionando uma nova fase de infraestrutura no país em médio prazo, como expansão do saneamento, mudança na rede hospitalar, avanços no sistema educacional e demais demandas nacionais.

O economista explana que empresas e governos serão convocados para atender a essas demandas, podendo vir a catalisar o processo de desenvolvimento econômico. “E neste contexto, a iniciativa privada certamente será peça-chave e motor do desenvolvimento econômico, e assim restabelecer a economia”, conclui Martins.