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Qua, 28 Outubro 2020 17:18

Entrevista Nota 10: Elcyana Bezerra e a importância da Gerontologia na qualidade de vida

Coordenadora do novo curso de Aperfeiçoamento em Gestão em Gerontologia da Pós-Unifor destaca a qualificação profissional na assistência à pessoa idosa


Elcyana Bezerra Carvalho é Doutora em Gerontologia e fundadora da Associação Brasileira de Alzheimer – Regional Ceará (ABRAz-CE) (Foto: Arquivo pessoal)
Elcyana Bezerra Carvalho é Doutora em Gerontologia e fundadora da Associação Brasileira de Alzheimer – Regional Ceará (ABRAz-CE) (Foto: Arquivo pessoal)

Como diz a canção de Arnaldo Antunes, “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. Amiga da ciência que estuda esse processo (Gerontologia) desde a graduação, a professora Elcyana Bezerra Carvalho sabe bem como a qualidade de vida deve estar presente em qualquer idade. 

Terapeuta ocupacional e Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, ela coordena há 16 anos a Especialização em Gerontologia da Pós-Unifor. Agora estará também à frente do novo curso de Aperfeiçoamento em Gestão em Gerontologia, que tem como objetivo capacitar profissionais a aperfeiçoar suas habilidades para planejar e desenvolver projetos, produtos, ações e serviços destinados à população idosa.

Ao Entrevista Nota 10, a Doutora em Gerontologia (Unicamp) e fundadora da Associação Brasileira de Alzheimer – Regional Ceará (ABRAz-CE) fala sobre os desafios da área e ressalta as contribuições significativas dessa ciência para a saúde da sociedade. Confira: 

Entrevista Nota 10 - Professora, como a Gerontologia entrou em sua trajetória acadêmica? Já na graduação em Terapia Ocupacional descobriu o interesse pela área? 

Elcyana Bezerra - A escolha pela Gerontologia ocorreu ainda no período da graduação em Terapia Ocupacional, com o término do curso já comecei trabalhando com atendimento domiciliar a pacientes idosos com as mais diversas condições. Ao longo desse tempo, fundei a Associação Brasileira de Alzheimer – Regional Ceará (ABRAz-CE), fruto da demanda de cuidados com os familiares cuidadores de idosos com demência. Ainda hoje, mantenho atendimento em consultório a pacientes idosos, principalmente, com diagnóstico de demência.

Na minha trajetória acadêmica, desde cedo, fiz um percurso em busca do conhecimento teórico e prático na área do envelhecimento, concluí Especialização em Gerontologia na UECE; depois Mestrado em Psicologia na Unifor, com a dissertação sobre “A Escrita Autobiográfica na Clínica da Terapia Ocupacional com Pacientes com Doença de Alzheimer” e; por último, Doutorado em Gerontologia na Unicamp com a Tese “O Uso do Tempo dos Cuidadores Familiares de Idoso com Demência”

Fui docente por muitos anos no curso de Terapia Ocupacional, ministrando a disciplina de Terapia Ocupacional aplicada a Geriatria e Gerontologia, na Unifor, bem como no curso de Especialização em Gerontologia dessa instituição, desde 2003, além de orientadora de trabalhos de conclusão de curso.

Como gestora, coordeno a Especialização em Gerontologia há 16 anos e, mais recentemente, o curso de Aperfeiçoamento em Gestão em Gerontologia, os dois idealizados e coordenados por mim.

Durante a minha trajetória, aliei a clínica, a docência, a pesquisa e a gestão, todos sempre direcionados ao atendimento e formação de profissionais na assistência à pessoa idosa.

Entrevista Nota 10 - Sabemos que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou. Desde 1940, já são 30,8 anos a mais que se espera que a população viva, de acordo com o IBGE. Qual a importância da Gerontologia nesse processo?

Elcyana Bezerra - O envelhecimento se apresenta no cenário brasileiro de forma contundente, sendo um fenômeno tanto individual como social, requerendo o estudo e análise das novas necessidades de saúde, assistência social, econômicas, urbanas, acessibilidade, cultura, lazer, e outras. Essa conquista traz implicações na organização das políticas sociais e de saúde, exigindo qualificação profissional especializada. Dessa forma, a Gerontologia como um campo científico e profissional dedicado ao estudo do envelhecimento é essencial para promover ideias, formas de atendimento, gestão de serviços e políticas públicas para lidar com os desafios e soluções de múltiplos problemas enfrentados pela pessoa idosa e garantir a melhor qualidade de vida.

Entrevista Nota 10 - E a nossa sociedade? Como tem enxergado o “envelhecer”? Sabemos que ao longo do tempo muitos tabus foram alimentados sobre isso...

Elcyana Bezerra - Nossa sociedade, como o restante do mundo, coloca o envelhecimento em pauta constante, devido ao envelhecimento populacional e suas consequentes demandas. Em relação a como a sociedade brasileira vem enxergando o envelhecer, não é tão diferente dos demais países no mundo. No entanto, precisamos considerar o perfil diferenciado de envelhecimento, de acordo com a cultura, gênero, classe social, e a época histórica em que essas pessoas envelhecem.

Quanto aos preconceitos e estereótipos, infelizmente, ainda se perpetuam em relação à velhice. É um dos grandes temas tratados na Gerontologia, por exemplo, existe o neologismo ageism, cunhado pelo médico e gerontologista norte-americano Robert Neil Buther (1969), que se refere aos preconceitos como resultado de falsas crenças a respeito dos idosos e determinam a descriminação social por critério de idade. Esses preconceitos são os principais determinantes das políticas e práticas sociais discriminatórias, segregadoras e paternalistas oferecidas pela sociedade ao idoso. 

Os preconceitos aparecem na forma de falsas crenças de que todas as pessoas idosas envelhecem do mesmo jeito e que todos são iguais, improdutivos, dependentes e incapazes, sem poder político, que vivem no passado, são assexuados; existindo ainda a vitimização com tratamentos superprotetores, infantilização e paternalismo (velhinho, vovô e senhorzinho) e a supervalorização da juventude em detrimento das perdas físicas do envelhecimento. Os estudos apontam as consequências dos preconceitos para a pessoa idosa, como o isolamento social, depressão, perda da autoestima e a autodeterminação, sentimento de invisibilidade, perda da autonomia, menores chances de empregos, baixos salários, falta de crédito, desemprego, constrangimento, falta de atendimento adequado e prioritário nas Unidades Básicas de Saúde.

Chamo atenção aqui, para os profissionais que não tem uma formação adequada e se lançam a trabalhar com a pessoa idosa, acabando por vincular o envelhecimento a um problema médico-social e de total responsabilidade do idoso, sem considerar sua multidimensionalidade. Portanto, para erradicar o ageísmo, será necessária uma construção cultural de mudanças de perspectivas em relação ao envelhecimento, assim como também ratificar a importância da convivência intergeracional entre jovens e velhos, além de políticas, programas e serviços que efetivem os direitos da pessoa idosa e um envelhecimento digno.

Entrevista Nota 10 - Em tempos de pandemia, como os profissionais que trabalham na área do envelhecimento (Gerontologia) têm contribuído para a pessoa idosa superar os diversos desafios vividos no momento?

Elcyana Bezerra - Entre os diversos desafios enfrentados pela pessoa idosa podemos elencar: o isolamento social tendo como consequência a deterioração física, muitas vezes, por postergação do atendimento médico, aliado a falta de atividade física e, por apresentarem com maior frequência, doenças crônicas como diabetes, acometimento cardiovascular, pulmonar, renal, neurológico, entre outros. O impacto na saúde mental não pode ser desconsiderado, expressos pelo medo, depressão e ansiedade intensificados nesse período; assim como o aumento da violência, seja por parte de seus cuidadores, familiares ou conhecidos próximos. Outra questão para termos em mente, diz respeito às questões econômicas com a diminuição dos proventos pelo afastamento do trabalho ou por contribuir com o sustento dos familiares; e por fim, a situação dos idosos institucionalizados com o aumento de mortes, dependência funcional e o isolamento.

Posto isto, os profissionais de diversas áreas que trabalham com a pessoa idosa precisaram se reinventar para dar conta das demandas que vinham surgindo ao longo da pandemia. 

Os profissionais contribuíram nos atendimentos presenciais e virtuais nos hospitais, clínicas e serviços, nas instituições de longa permanência entre outros, todos imbuídos na tarefa de prestação de assistência à pessoa idosa, apesar dos parcos recursos.

Houve uma disseminação do conhecimento à população, com a produção de materiais educativos pelos profissionais destinados aos cuidados à pessoa idosa para a população e para os profissionais das diversas áreas que contemplam o envelhecimento, bem como, o número de Lives que traziam temas da área da gerontologia, cursos online e congressos. 

Nos tempos da Pandemia, creio que se descortinou a real situação da pessoa idosa no Brasil. Acredito que nunca tinha se evidenciado um preconceito tão acirrado em relação à pessoa idosa, principalmente, por ser um dos grupos de risco mais afetado pela pandemia. Associado a esse fato, reforçou-se a vulnerabilidade e fragilidade da pessoa idosa. No entanto, os profissionais da gerontologia contribuíram intensamente no combate aos preconceitos contra a pessoas idosa, seja participando das discussões, seja por suas ações. 

Entrevista Nota 10 - A Pós-Unifor lança o curso de Aperfeiçoamento em Gestão em Gerontologia. Quais são os objetivos e diferenciais explorados na matriz curricular? 

Elcyana Bezerra - Capacitar profissionais dos diversos campos na área da Gerontologia, visando à compreensão do processo de envelhecimento nas suas múltiplas dimensões, contemplando reflexão, crítica e ética no desempenho de uma práxis voltada para a qualidade de vida da pessoa idosa.

Específicos:

- Analisar questões do envelhecimento e da velhice do ponto de vista teórico e metodológico.

- Aprofundar estudos relativos aos processos biológicos, psicológicos, sociais e culturais do envelhecimento.

- Fundamentar a participação diferenciada e integrativa da equipe multidisciplinar no atendimento ao idoso, à sua família e à comunidade.

- Possibilitar o planejamento de pesquisas e trabalhos científicos voltados para assuntos correlatos ao envelhecimento. 

- Capacitar os profissionais para executarem as políticas de atenção ao idoso.

O envelhecimento e a longevidade apresentam-se como um fenômeno tanto individual como social, requerendo o estudo e análise das novas demandas de saúde, assistência social, econômicas, urbanas, acessibilidade, cultura e lazer, entre outras. Os cenários que são palcos da longevidade na atualidade, instauram desafios e oportunidades para a Gestão em Gerontologia, demandando ações, estratégias, tomada de decisão e resolução de problemas, necessitando, portanto, coadunar conhecimentos de diversas áreas da Gestão como: projetos, cuidados, economia, marketing, comunicação, tecnologia e alocação de recursos, tanto no campo público como privado.

A oferta do Aperfeiçoamento Gestão em Gerontologia justifica-se não só pela expansão do mercado e serviços em Gerontologia, mas, sobretudo pela necessidade de qualificar profissionais para a Gestão em Gerontologia, em organizações públicas e privadas, na área organizacional e de negócios destinados à população idosa. 

A proposta aqui apresentada oferece aspectos inovadores. O curso se pauta pelo estrito equilíbrio entre aspectos individuais, sociais e organizacionais do envelhecimento na perspectiva da Gestão em Gerontologia, além de oferecer mentoria individual para elaboração de projeto, formas de atendimento, gestão de serviços e para lidar com os desafios e soluções de múltiplos problemas enfrentados pela pessoa idosa, assim como pelas organizações e instituições na atualidade.

Entrevista Nota 10 - Quais são as possibilidades de atuação profissional para o Especialista em Gerontologia?

Elcyana Bezerra - Em serviços, instituições e programas diversos que assistam à pessoa idosa. Além de um mercado que necessita cada vez mais de pessoas qualificadas na área do envelhecimento.

Entrevista Nota 10- Atualmente, como podemos destacar o papel da inovação e da tecnologia para a Gerontologia?

Elcyana Bezerra - Vivemos um novo fenômeno na contemporaneidade, as pessoas idosas não serão responsáveis por ensinar os mais novos, nesse sentido, a ciência, a tecnologia e a informática vieram para ocupar esse espaço. Porém, temos outro lado, a tecnologia ajudará cada vez mais os idosos a permanecem ativos na sociedade.

Em um mundo que envelhece vertiginosamente, surge cada vez mais as demandas por produtos e serviços que precisam ser modificados para atender o público idoso. Assim surge a Gerontotecnologia que se configura como campo interdisciplinar de pesquisa científica em que a tecnologia é direcionada para atender às necessidades e proporcionar oportunidades aos idosos, 

O papel da tecnologia e inovação será trazer para o cotidiano dos idosos uma maior possibilidade de ter uma vida autônoma e participativa. O idoso será favorecido com os dispositivos de inclusão e alfabetização digital, tecnologia assistiva, uso de exergames (jogos em vídeo que servem como exercício físico), cidades amigáveis aos idosos, casas inteligentes, teleassistência, uso de aplicativos para apoiar o cuidado e muitas outras mais possibilidades.

No curso de Aperfeiçoamento teremos uma disciplina que contempla a gerontotecnologia, a inovação, o empreendedorismo, todos contextualizados dentro da economia prateada que se apresenta na atualidade.