angle-left Alunos apresentam releituras de obras do Espaço Cultural Unifor

Qui, 11 Junho 2020 14:38

Alunos apresentam releituras de obras do Espaço Cultural Unifor

Saiba mais sobre o processo criativo de alguns dos participantes, cujas criações proporcionaram momentos de integração, reflexão e humor


Iniciativa convocou todos os alunos da Universidade à recriar algumas das obras de arte que fazem parte do acervo do Espaço Cultural (Foto: Ares Soares)
Iniciativa convocou todos os alunos da Universidade à recriar algumas das obras de arte que fazem parte do acervo do Espaço Cultural (Foto: Ares Soares)

Há pouco mais de um mês, o Unifor Notícias publicou uma matéria sobre o Dia Internacional dos Museus, que é celebrado no dia 18 de maio. Como forma de estimular os alunos a comemorarem a data, o Espaço Cultural da Universidade de Fortaleza, um equipamento da Fundação Edson Queiroz, lançou um desafio que perdurou até o início deste mês: trata-se do concurso criativo “Recriando Obras de Arte”, que ocorreu no perfil oficial da Universidade no Instagram (@uniforcomunica). 

Como o nome da ação sugere, ela convocou todos os alunos da Universidade - de qualquer curso da graduação ou pós-graduação - à recriar algumas das obras de arte que fazem parte do acervo do Espaço Cultural. Valia de tudo que a criatividade permitisse: fotografia, pintura, desenho, técnicas mistas, etc. E, para tornar o desafio ainda mais interessante, um smartphone de última geração foi prometido para o trabalho eleito como “mais criativo” por um comitê convidado. O resultado foi divulgado na última terça-feira (09).

Para a professora Adriana Helena, gestora do Espaço Cultural Unifor, muitas das criações submetidas pelos participantes chamaram atenção pelo “novo olhar” que apresentam. “Reler uma obra de arte é ler novamente a obra propondo uma nova interpretação, sem se desviar do original. O mais interessante é que os participantes utilizaram uma estética criativa, propondo diálogos com o contexto atual e com sua próprias experiências a partir do acervo da Fundação Edson Queiroz. Achei incrível o engajamento dos alunos da Unifor e o experimentalismo nos seus processos criativos”, comenta ela.

De acordo com o coordenador de Marketing Digital da instituição, Diego Moreno, o concurso teve, sobretudo, o propósito de proporcionar um momento de conforto e união entre as pessoas por meio da arte. “A ideia [do desafio] foi exercitar o olhar do público e lembrar que há arte em tudo à nossa volta. A vida inspira, o cotidiano em casa é inspirador. É importante que, mesmo em isolamento, as pessoas consigam encontrar as suas próprias belezas e recriar a si mesmas em um momento tão difícil”, ele explica, mencionando também o isolamento social consequente da pandemia de COVID-19.

Hora de ser criativo

“Assim que vi a obra, reparei que o jogo de mesa da minha mãe era idêntico ao fundo”, conta Paulo José Pinho, estudante do curso de Direito, se referindo à obra “O Astronauta”, de Cláudio Tozzi. “Pensei em utilizar uma caixa de papelão para fazer o capacete, mas acabei encontrando o isopor utilizado e, por sorte, TNT azul, que virou a roupa que usei”, continua. Ele é apenas um dos muitos participantes que, na hora de recriar as obras, saíram em busca de materiais domésticos que pudessem ser úteis

Para Rita Melo, pós-graduanda em Direito e Processo Penal, essa atenção aos materiais foi determinante na hora de escolher qual obra recriar. “Utilizei tecidos, lençóis, cadeiras, livros, garrafas, papéis de revistas antigas etc. Até a minha cachorrinha, Jade, participou”, ela conta. As obras eleitas foram “Jovem com Chapéu”, de Décio Villares”; “Virgem Oriental ou Madonnina”, de Victor Brecheret; e “Figura Feminina”, de Artur Timóteo da Costa.

Na hora de fotografar, a advogada conta que obteve ajuda da mãe e do irmão: “A parte mais bacana [de participar] foram várias coisas, como preencher o tempo livre na quarentena, e assim diminuir a ansiedade. Como a minha família participou, houve uma maior integração entre nós e isso foi muito gostoso. Também foi um ponto bacana conhecer sobre as obras de arte, os artistas e os movimentos artísticos que os inspiraram”.

Outro caso de trabalho em equipe foi entre Vinícius Menezes, aluno do curso de Cinema e Audiovisual, e sua namorada, Luana Alves Rocha. As obras escolhidas pelo casal foram “A Espanhola”, de  Anita Malfatti, e “Mulher”, de Candido Portinari.

“Antes mesmo de aparecer esse projeto, a gente já tinha a ideia de recriar algumas obras de arte famosas e fazer um compilado de fotos com essa temática. Temos essa parceria em que o Vinícius fotografa, eu faço a modelagem, e nós dois realizamos a criação e direção artística. Vimos esse projeto e pensamos que seria um bom jeito de começar, ainda mais com obras brasileiras”, conta Luana.

Segundo Vinícius, participar do desafio foi uma experiência difícil, mas gratificante: “Fizemos um processo de edição muito grande. Tivemos que alterar muita coisa principalmente de cor. [...] Levamos a tarde toda, mas foi muito bom fazer. Ficamos escolhendo roupas, testando maquiagem etc. Que bom que a Universidade trouxe este incentivo, principalmente para nós do cinema, que lidamos com criação”, ele explica. 

Reflexos da pandemia

Vários participantes aproveitaram o desafio para fazer referência à atual pandemia que o mundo enfrenta. É o caso de Náyra Azevedo, aluna de Arquitetura e Urbanismo, que conta sobre seu desejo de fazer a população refletir sobre o assunto: “Tive a intenção de relacionar todas as obras [que recriei] a esse contexto porque vi o descaso de muitas pessoas que não estavam seguindo os pedidos dos profissionais de saúdes e governantes, mesmo com os números alarmantes de vítimas do novo coronavírus. Por isso, busquei fazer, da minha participação, um chamado a fim de conscientizá-los a ficar em casa”.

A estudante optou por ressignificar quatro obras; dentre elas, “Menino Com Pipa” e "Mulher", ambas de Candido Portinari. “Tentei retratar cada detalhe e emoção das obras nas minhas fotografias. À obra ‘Mulher’, eu atribuí o sofrimento da figura principal às mortes que tivemos no Brasil pelo COVID-19. Já para a obra ‘Menino com pipa’, atribuí a angústia dele para os afazeres domésticos no período da pandemia, onde esse sentimento é o que predomina”.

Confira mais depoimentos de participantes:

Cristiane Aragão, estudante do curso de Psicologia (vencedora)

“Tempo de quarentena. Tempo de se recriar. Se recriar como profissional, estudante, filha, amiga, irmã e principalmente como mãe. Quarentena, quantas mudanças que me fizeram cair em tantos questionamentos. Uns deles, a busca de uma convivência produtiva, agradável e educativa com os meus. Tempo de qualidade. Então, nessa busca, me deparei com o desafio ‘Recriando Obras de Arte’ proporcionado pela Unifor. Meu relacionamento com esse lugar, Unifor, pra mim é um pouco mágico, pois amo cada pedaço daquele campus, amo cada suspiro que solto nos momentos de silêncio e contemplação daquelas árvores, animais soltos a vagar livremente, amo minhas paqueras com os quadros da exposição do momento, amo o vento no rosto... Amo apenas em estar lá e fazer parte daquele lugar. Bateu uma nostalgia… Esse recriar artes, essa brincadeira foi um lindo momento de interação no meu lar, onde filha pinta, irmã tira o retrato, filho fica nos pitacos. No final a alegria reinou, a criatividade aflorou e o amor prevalece. Como não amar o poder de tudo que envolve a delicadeza das artes?”.

Ruanna Cordeiro, estudante do curso de Psicologia

“Escolhi a obra ‘Figuras sobrepostas’ de Ismael Nery. Com isso, utilizei tinta guache, pincéis, uma luz artificial, tripé e câmera no temporizador. Por eu ser fotógrafa, o motivo de escolha da obra se deu quando passei um tempo tentando interpretá-la, pois me veio em mente o processo de dupla exposição, feito manualmente em câmeras fotográficas. Esse método entrega um resultado parecido com o que Ismael faz em várias de suas obras, quando sobrepõe corpos ou figuras. A melhor parte do processo foi sem dúvidas pesquisar a respeito do artista, e entender a sua importância para o início do Surrealismo no Brasil, além de imaginar quais elementos poderiam ser integrados nesta criação, visto que é possível diversas leituras a respeito dela”.

Lucas Militão, estudante do curso de Engenharia da Computação 

“O momento de pandemia e o fato de eu estar no último semestre do meu curso foram as principais influências para os temas que utilizei na recriação de cada uma das obras. Recriei cinco; dentre elas, ‘Adolescência’, de Rodolfo Amoedo, ‘O Músico’, de Antonio Gomide, e ‘O Pequeno Escultor’, de João Batista da Costa. [...] Observava cada uma das obras e buscava enxergar um novo significado que poderia dar a cada uma das artes. Posso dizer que a recriação que fiz da obra ‘Virgem Oriental ou Madonnina’, de Victor Brecheret, expressa fortemente como tenho me sentido nesse meu último ano de estudos, com o Trabalho de Conclusão de Curso. A parte mais bacana foi ver que a maioria das pessoas se sentiu representada por essa mesma recriação”.