angle-left Você usa apps de paquera? Entenda por que o desejo de encontrar pessoalmente tem crescido

Qui, 15 Outubro 2020 17:29

Você usa apps de paquera? Entenda por que o desejo de encontrar pessoalmente tem crescido

Adeptos aos aplicativos de relacionamento explicam os motivos que tornam o encontro presencial indispensável ao conhecer uma nova pessoa


Com crescimento durante a pandemia, aplicativos de relacionamento despertam o desejo do encontro real entre usuários (Foto: Getty Images)
Com crescimento durante a pandemia, aplicativos de relacionamento despertam o desejo do encontro real entre usuários (Foto: Getty Images)

Os aplicativos de paquera são cada vez mais populares e abrigam usuários de diferentes idades e propósitos. O desejo em experimentar o novo por meio do mundo virtual é uma oportunidade em satisfazer objetivos distintos de cada um nas relações amorosas. Entretanto, o encontro pessoalmente é requisito importante para firmar uma opinião sobre o outro.

Thiago Costa, psicanalista e professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, explica que o desejo do encontro presencial é fundamental para o ser humano. “A presença de outro corpo vivo não gera só outro, em uma perspectiva biológica sexual, mas traz o que, na vida, nos denota à linguagem, e que tem a ver com o erotismo. Aqui podemos dimensionar o encontro com o outro ser humano a partir de um véu, de uma narrativa, uma fantasia. É isso que nos faz humanos e dá sentido à vida”, completa.

Thiago disserta sobre as variadas possibilidades que os aplicativos de relacionamento podem proporcionar. “Um encontro mais rico, uma maior produção de sentidos, temos cheiros, formas de expressões no momento da fala, entonação da voz, o olhar, o toque. Sabemos bem que uma fala digitada, como na virtualidade de um WhatsApp, nos traz vários enganos, pois é uma experiência mais pobre de estímulos sensoriais que viabilizam a produção simbólica”, explica ele.

Estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade de Fortaleza, Nicolly Tamaoki, 21, conta que já usou o aplicativo Tinder. “Não cheguei a conhecer ninguém pessoalmente, porque eu acabava levando mais na brincadeira e não fiquei tanto tempo  na plataforma. Antes nem acreditava que tinham pessoas atrás de relacionamentos sérios, mas existem sim”, comenta ela.

Nicolly ressalta que o contato físico ajuda a construir confiança. “Querendo ou não, aplicativos de paquera tem um modelo de rede social. Não sabemos se a pessoa com quem estamos conversando é realmente quem aparenta ser ou se só está respondendo para agradar. Pessoalmente é mais difícil fingir ser quem você não é”, completa.

O aluno do curso de Comércio Exterior também na Universidade, Guilherme Barreira, 22, relembra que baixou um aplicativo de relacionamento apenas quando esteve fora do Brasil. “Cheguei a encontrar com alguém e ter contato pessoalmente, sem vínculo a longo prazo. O encontro pessoal é necessário para desenvolver um possível vínculo, porém, eu acredito que exista sim uma troca de energia pelo ambiente virtual, que pode cultivar o interesse entre pessoas em se conhecerem de verdade ou não”, conclui. 

Segundo o professor, é possível desenvolver laços afetivos no ambiente virtual. “As antigas cartas de amor são um exemplo disso. O ser humano possui uma capacidade incrível de fantasiar a vida. E estamos passando por um momento de empobrecimento dessa capacidade, a partir dos artifícios tecnológicos, que atravessam as relações de hoje. O sexo virou mais um produto na prateleira, as amizades, parece que tudo gira em torno da relação vendedor-consumidor. Essa é a grande complicação que os teóricos da filosofia, sociologia e psicologia abordam sobre as relações efêmeras de hoje: são frágeis porque não suportam tanto as frustrações”, comenta ele. 

Isadora Blenda, 20, estudante de Jornalismo, conta que iniciou o seu atual relacionamento por meio de aplicativo. “Quando utilizei o Tinder, conheci duas pessoas pessoalmente e hoje em dia namoro uma dessas pessoas. É essencial o encontro real, pois por mais que consigamos estabelecer uma conversa legal, sempre vai ter o receio de ser um fake ou a pessoa ser diferente pessoalmente, ser alguém perigoso por exemplo. E é importante também para você ver o jeito da pessoa, como ela se porta, como trata os outros. Pelo celular fica fácil falar tudo o que quiser e se autopromover, mas pessoalmente é bem mais difícil de fingir”, completa.

Thiago enfatiza que o amor sustenta o laço social. “Aprendemos isso com Sigmund Freud. Entretanto, existem forças de destruição no próprio ser humano que nos trazem um retorno à barbárie. E é desse lugar primitivo que provém a fonte de poder do discurso do consumo. O que seria de nós se não fosse a tecnologia, com seu espaço virtual, nesse tempo de pandemia? Mas o que vínhamos fazendo com esse espaço? Até que ponto o virtual está atravessado pela lógica do mercado? O amor é o grande inimigo dessa lógica”, comenta. 

Portanto, experiências afetivas podem ser empreendidas das mais variadas formas, inclusive, somente pelo ambiente virtual. “A comunicação possui uma força inimaginável para o psiquismo, não importa o seu meio, mas se a mensagem a ser conduzida para o seu receptor faz enigma, traz o riso, a emoção da surpresa de um encontro, a possibilidade de articular um saber que não se sabe, há vida, na diferença, na diversidade, ali há uma relação humana de afeto”, finaliza o professor.