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Ter, 5 Maio 2020 19:03

Como manter o bom humor em tempo de isolamento social

Professores e estudantes da Universidade de Fortaleza falam sobre a importância do riso durante a quarentena


Márcio Acselrad, professor e coordenador do Laboratório do Humor e do Riso (Labgraça), da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)
Márcio Acselrad, professor e coordenador do Laboratório do Humor e do Riso (Labgraça), da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)

Desde que o pensamento ocidental se deu conta de que o homem é o único animal que ri, um nó vem arrochando o juízo de muita gente. Daí porque o riso passou a ser, ao longo da História, um objeto de estudo paradoxal, ora encarado como subversivo em si, capaz de, sozinho, embaralhar ou destituir a ordem estabelecida, incitando o questionamento crítico, ora tomado como simples válvula de escape e fuga dos problemas, um modo de deixar tudo por menos e até de fazer ruir o império da racionalidade. 

Para o professor e coordenador do Laboratório do Humor e do Riso (Labgraça), da Universidade de Fortaleza (Unifor), Márcio Acselrad, o riso, de fato, é paradoxal, mas também “não há um só tema, nem mesmo a morte, que não seja passível de humor”. Assim, justo em tempos de coronavírus, ele chama atenção: o que o isolamento social quer de nós é que usemos o humor como estratégia de sobrevivência. “Os mais bem-humorados podem até não viver muito, mas vivem melhor. Portanto, se humor é uma maneira de lidar com o mundo e com as adversidades, ou, como quer Nietzsche, um modo único de afirmar a vida e responder às imperfeições e tragicidade intrínsecas a ela, o riso seria a grande estratégia não para vencer a morte, mas, pelo menos, dar uma rasteira nela”, acredita o professor dos cursos de Psicologia e de Jornalismo e também curador do Cineclube Unifor. 

E se o trágico, em Nietzsche, é justo a iminência da morte, da qual todos somos conscientes quando confrontados à própria existência, o humor pode ser ainda uma janela para uma outra realidade – ou uma utopia possível. Algo como o dom de transcender a dor, abraçado à própria fragilidade. “Morrer é da condição humana. Não precisamos de um vírus para nos mostrar isso. Ao contrário dos outros seres, temos consciência de que vamos morrer, o que é uma benção ou maldição. Mas o que a gente vai fazer com isso é que é a grande questão. Uma das coisas que podemos fazer é humor. Diante do trágico da vida você pode se martirizar e sofrer mais, inventar religiões e deuses para se aliviar, fazer ciência e prorrogar a vida ao máximo ou usar da estratégia do riso, para Nietzsche a melhor de todas. Por isso, já no século XIX, ele disse que o mundo precisava de um pensamento leve, de uma ciência que saiba rir e dançar. E hoje se percebe a importância desse riso crítico, dessa associação entre o criticismo e o riso”, sublinha o professor.

Importante enquanto ferramenta de conhecimento do mundo e autoconhecimento, o riso também é um furo no próprio espelho, ao mesmo tempo em que se converte em exercício de alteridade. “Rir de si mesmo já é começar a perceber que as coisas não são tão definitivas assim ou tão sérias quanto parecem. E assim elas podem mudar. Quando se consegue rir principalmente da própria desgraça já se começa a relativizar um pouco essa desgraça. Daí porque costumamos dizer que um dia a gente ainda vai rir de tudo isso. Isso significa que, quando a gente tomar distância do que está acontecendo no momento e refletir sobre a realidade no futuro, vai ter a chance de perceber que tudo não era tão ruim assim. Pego o que é ruim e, pelo riso, consigo entortar essa realidade e montar outra mais lá na frente não tão ruim assim. É um jogo de criança”, ilustra o professor.

Entre a consciência e o inconsciente, o cômico e o trágico, a vida e a morte, o riso que revela o não normativo e o desvio como partes da existência joga luz, sobretudo em tempos de reclusão, sobre a “sociedade liberal depressiva”, aquela que acabou por produzir um homem polido, mas esgotado, alienado de suas paixões. “É próprio do homem o brincar, não o trabalho ou qualquer outra atividade dita séria. O homem é um animal que pensa (sapiens), que age (faber), mas também que joga e brinca (ludens). O jogo é formador da cultura e um componente fundamental da subjetividade presente na infância. Cabe ao pensamento fazer com que ele volte à cena”, encerra, apontando o humor como condição para a vitalidade coletiva.

O riso porvir

Atônita, a humanidade se vê obrigada a esboçar modos de resistência e proteção física e psíquica, buscando algum refúgio de prazer em seus casulos reprogramados para abrigar vidas remotas. Mas como reconquistar o poder do riso em meio à dor? Para o professor dos cursos de Publicidade, Jornalismo e Cinema da Universidade de Fortaleza (Unifor), Glauber Filho, é inevitável a monotonia frente ao tema quase único e sempre doloroso replicado em todas as mídias e por isso mesmo vale redobrar os cuidados frente ao excesso de informações negativas, apesar da necessidade premente de se atualizar sobre a doença e as pesquisas em torno do tratamento ou cura dela. 

“Não somos passivos diante dos meios de comunicação, apesar de que, mais do que nunca, estamos reféns deles para nos informar e entreter. Então, temos que fazer valer a capacidade de ressignificar as narrativas que nos afetam, ou seja, mais do que nunca é preciso selecionar pelo critério da qualidade – e não da quantidade - o que você quer ver ou saber, dosando os conteúdos para minimizar o impacto emocional causado. Minha sugestão é reservar um só momento do dia para se atualizar. E muitos outros momentos para fabular a vida, ou seja, dar vazão à imaginação e se voltar à potência criadora que é própria do homem e está refletida na literatura, na música, no cinema e em outras fontes de prazer e riso que soubemos inventar justamente para escapar dos sofrimentos que vêm e vão”, destaca. 

Para Glauber, o humor é inteligente, além de dialético, e vai saber como encontrar brechas risíveis nos escaninhos domésticos de cada ser confinado desse planeta, retirando peso e pó da seriedade das coisas. “É importante sair do lugar da vitimização e uma das saídas é tentar rir de si mesmo. Tem sido engraçado, para mim, experimentar esse espaço da virtualização dentro dos nossos espaços íntimos. O erro e o inesperado, por exemplo, são super bem-vindos e acabam sendo incorporados às aulas. É um enquadramento decâmera que escapa, o ruído de um áudio que vazou, o gato de estimação da aluna que entrou em foco ao vivo, tudo isso abre espaço para o humor. No futuro, acho que podemos ter aí um acúmulo de histórias e aprendizados que nos farão rir, afinal só o fato de estarmos nos tornando avatares nesse momento estranho já é motivo para riso. Inclusive, quando pudermos nos encontrar, vamos perguntar um ao outro se ainda somos reais mesmo”, diverte-se.  

O momento nonsense, que beira o absurdo e por isso mesmo faz rir, também leva Glauber a pensar sobre um novo real. “Jamais seremos os mesmos pós-pandemia. Isso é certo. Então, as instituições, sobretudo as de ensino, que tiverem a capacidade de dar respostas e correr riscos para ajudar a desenhar essa nova realidade se destacarão. Penso e torço por uma humanização da sociedade pós-coronavírus, o que levará ao fortalecimento da ciência, ao avanço da educação e à valorização ainda maior do fazer artístico. O que seria de nós nesse momento sem o conhecimento, as tecnologias da comunicação e sem as artes? São essas as nossas tábuas de salvação, que agora respondem muito fortemente aos nossos mais caros e genuínos desejos. Podemos viver sem muitos dos chamados sonhos de consumo da pós-modernidade, mas nunca sem criação, beleza, pensamento, humor, esse é o verdadeiro oxigênio criativo afetivo que emana de nós mesmos”, observa o professor.  

A graça das pequenas coisas

Social e democrático, o humor quer estar em todas, habituado que é a ser usado como protagonista no elenco de emoções postas à venda pela sociedade do espetáculo. Assim é que, em sua ânsia de interlocução, vínculo e senso crítico compartilhado tornou-se um imperativo generalizado. É preciso ser feliz e rir, apesar de tudo. Ou, como podemos ler até dentro do elevador, a ordem é: “sorria, você está sendo filmado”. Mas quando a forma humorística perde espaço e força diante de calamidades públicas como a atual, causada pela propagação planetária do novo coronavírus, é preciso revolver o próprio cotidiano para tentar achar alguma graça no ínfimo e no doméstico – ou naquilo que nos parece mais comum e banal.

Eis o desafio também encarado como “dever de casa” por estudantes da Universidade de Fortaleza (Unifor) que puderam optar pelo confinamento domiciliar como forma de proteção diante da virulência da Covid-19. Aluno do nono semestre do curso de Psicologia, Lucas Brun, 21 anos, é membro do Núcleo de Estudos e Vivências Nietzsche do Laboratório do Humor e do Riso (Labgraça) e tem aproveitado a quarentena para ler o que mais gosta: Filosofia. Assim é que já comemora antecipadamente a conclusão do TCC, cujo tema é “Crítica de Nietzsche à verdade na metafísica socrático-platônica e na Ciência”.

“Depois de um primeiro momento de muita tensão e incerteza em relação ao ensino virtual, resolvi tirar partido dele e centrar foco justamente no que eu poderia fazer de melhor remotamente. Foi assim que intensifiquei o estudo e a escrita técnica, deixando os conteúdos das disciplinas da Psicologia em segundo plano. Acho que foi uma decisão acertada porque me trouxe um grande alívio e alegria ler e escrever sobre o que mais tenho interesse”, afirma. Para Lucas, pensar tem sido uma forma de melhorar o humor, mas isso nada tem a ver com uma ideia de felicidade idealizada. “Essa pandemia nos coloca em uma situação de humor melancólico, quebrando justamente com a visão idílica e utópica do humor. Ninguém é bem-humorado o tempo todo e o riso não é só de alegria. Nessa relação entre sujeito e objeto existem infinitas possibilidades de desconstrução de uma situação vivida e reconstrução criativa da vida, demonstrando que a realidade não é una ou absoluta, mas múltipla”, sustenta.

A ordem é também dessacralizar o pensamento sério. Eis a sugestão do também estudante de Psicologia e membro do Labgraça, Giovanni Perruci, 25, que cita como inspiração o doutor em pedagogia e professor de filosofia Jorge Larrosa, para quem a educação é justamente um lugar de recomeço do mundo e de refúgio da infância, o que pressupõe um foco sobre a dimensão do riso. “As aulas realmente tem sido esse refúgio de prazer para mim, mesmo que remotamente. Acho que porque só ali falamos confiantes sobre o futuro, sobre novos aprendizados trazidos com o sofrimento e também sobre os caminhos que já podemos começar a traçar juntos, mesmo no microcosmo da sala de aula que por enquanto é virtual. É entre uma aula e outra que encontro dicas de leituras, de saúde, de boa convivência doméstica e assim vejo reacender uma esperança de que, ao final, vamos fazer bom proveito de todos esses ensinamentos que chegam pela dor, mas também pela alegria de pensarmos e estarmos juntos, apesar de tudo”, sublinha. 

O exercício de autonomia que pode vir do pensamento - e o conseqüente e declarado prazer embutido nisso – também aparece como o “lado positivo” da quarentena para o estudante de Direito, Lucas Albuquerque, 21. Mas em conversas remotas com amigos e amigas ele também já sabe que isso está longe de ser uma unanimidade. “O que eu mais ouço é a frase “estou surtando”. Tudo porque vivemos em uma sociedade tão objetificada que a rotina cronometrada de estudo e trabalho faz falta e chega a tirar o chão da pessoa. Porque estudar estando na Universidade é fácil, mas sozinho e on line é outra coisa, porque você pode ligar a câmera, mas na verdade nem estar ali prestando atenção. Existe um hábito difícil de ser modificado e aí é quando a ansiedade e a depressão disparam. A sensação da maioria é de dispersão e de estar cansado de viver um dia igual ao outro sem ao menos saber quando tudo vai acabar”, relata.

Lucas arrisca dizer que pensa diferente justamente porque gosta muito da própria companhia. “Tenho estado confortável porque o isolamento social foge ao meu controle. Quando você constata isso acho que a situação fica até risível mesmo porque o que reclamávamos o tempo todo é que não tínhamos tempo para nós, para fazer o que mais gostávamos. Eu agora escrevo meus artigos com mais liberdade, ouço muita música, que é uma forma de meditação e faço muitas vídeo-chamadas com amigos, apesar de que nada substitui uma conversa e um abraço. Mas me permito jogar conversa fora até de madrugada porque posso no outro dia replanejar meu dia de estudo. É o momento de amadurecer, acho, e tomar pé da nossa rotina, dos nossos afazeres e prazeres também. Um tempo para autoconhecimento. É assim que tenho jogado esse jogo comigo. E o humor tem ganhado da dispersão e da angústia”, acredita.