angle-left Professor: a pedagogia dos afetos na missão de doar conhecimento

Qui, 8 Outubro 2020 16:18

Professor: a pedagogia dos afetos na missão de doar conhecimento

Em alusão ao Dia dos Professores, estudantes da Universidade de Fortaleza, destacam a importância dos mentores em sua formação humana


Cássia Bezerra, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Unifor, ao lado da professora Camila Landim (Foto: Arquivo pessoal)
Cássia Bezerra, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Unifor, ao lado da professora Camila Landim (Foto: Arquivo pessoal)

Se é na sala de aula que a chave de leitura e interpretação do mundo dá voltas infindas em torno da capacidade humana de conhecer e transformar a realidade o que dizer de professores e professoras que têm como desafio o despertar da curiosidade em quem precisa aprender a abrir portas para olhar além? Em alusão ao Dia dos Professores, é o estudante de hoje, aquele que se diferencia de todos os aprendizes da história da educação, justamente por estar às voltas com informação democratizada e uma constante necessidade de adaptação ao novo, que desponta como testemunha viva das novas formas de relação e troca de aprendizado com os docentes.

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Assim, pululam perguntas que não caem na prova, mas urgem serem respondidas: o que alunos e alunas da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição ligada à Fundação Edson Queiroz, têm a dizer sobre e para os mentores de sua formação superior? Que lições a atual geração tem apreendido junto aos mestres numa fase de transição paradigmática da educação? Para Cássia Bezerra de Menezes, 27, graduanda do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifor, a atividade docente e a própria figura do professor vêm mudando consideravelmente. “Acho que aquele profissional que antes era só um repetidor e simplesmente repassava informação deu lugar a um líder que troca experiências e está bem mais interessado em se aproximar dos alunos e identificar o potencial de cada um. É também alguém sempre disponível, que quer ajudar no que for preciso, dentro e fora de sala de aula. Ou seja, o professor mudou para melhor e pode ser um amigo”, defende. 

A opinião é de quem assistiu à rotina de professoras exemplares em família: duas tias de Cássia já lhe inspiravam respeito e admiração no trato com as crianças para quem lecionavam. “Via a dedicação delas, corrigindo provas até de madrugava e não se furtando a atender e dar atenção a algum aluno ou mesmo aos pais quando estes tinham problemas domésticos que se refletiam na escola. A mesma impressão trazida de casa se repetiu na vida acadêmica. Tenho pelo menos quatro professoras da Unifor inspiradoras. A top das tops é a professora Camila Landim. Sou monitora dela e descobri que quero ser professora depois de vivenciar essa troca e proximidade maior com alguém que ouve o aluno mas não passa a mão na cabeça dele. Ela sabe conduzir para que a gente mesmo busque a informação, entende? E é capaz de mudar até a didática caso perceba alguém com maior dificuldade de apreender o conteúdo. Acho isso um dom: a empatia que vem com a entrega”, elogia.

Para Cássia, um corpo docente mais jovem também soa atrativo. E não somente pela flagrante fluidez de comunicação entre quem fala as mesmas gírias ou já nasceu interagindo em redes sociais, mas pela sensação de espelhar-se em um igual. “Temos uma identificação mais imediata com aquele professor que parece ou é quase da nossa idade. A própria Camila, que, posso dizer, fiquei amiga mesmo, tendo dividido com ela inclusive a minha intimidade... Aliás, ela foi a primeira pessoa que soube da minha gravidez. E dois meses depois ela também ficaria grávida. Assim, pude inclusive me sentir à vontade para levar a minha filha recém-nascida para a sala de aula. Ou seja, são laços afetivos importantes que se firmam entre alunos e professores, um vínculo de amizade e companheirismo que são ensinamentos e estímulos para toda a vida”, assegura a monitora.

A nota máxima também vai para os professores que, diante da pandemia da Covid-19, se viram forçados a, de um dia para o outro, levar a escola para casa e a aprendizagem para as telas e mídias. “No período de isolamento social eu faria um elogio a todos o corpo docente da Unifor, que fez mágica ao adaptar o sistema AVA e a própria didática para dar aulas remotas. Tinham uns que nunca tinham nem mexido no meet e a gente ria. Mas o legal é que fomos aprendendo juntos, trocando informações e isso acabou nos aproximando ainda mais e fazendo do aprendizado essa troca de igual para igual mesmo. No final, eles se garantiram! Provaram que estar online não tira o mérito deles, porque a essência de quem sabe orientar está em todo lugar”, completa Cássia.

Ensinando e aprendendo

Com uma mãe pedagoga, além de pai e avô professores, a estudante de Publicidade e Propaganda Gabrielle Bertini, 20, há muito aprendeu que o verdadeiro mestre é aquele que leva o aluno a ter autonomia e responsabilidade sobre o próprio processo de aprendizagem. “Como estudante , admiro o professor que quer ouvir opinião do aluno, que busca ter feedback ao invés de só arrotar conhecimento. Tenho três exemplos: Júlio César, da Administração, que é aquele que leva cases da vida real para dentro da sala de aula, o que faz o aluno entender melhor e mais rápido o mercado lá fora; o professor Carlos Velázquez, do CCG, é também músico e eu acho fantástico como ele estimula a nossa criatividade e o livre pensar em sala de aula, abrindo espaço para o debate e para o erro e o acerto; e Alessandra Oliveira, da Publicidade, que faz até a gente deixar de ter medo de fazer prova final ao usar a realidade virtual e o jogo para ensinar de um modo divertido e estimulante. Estes são referências porque estão fora da caixinha e é com quem eu acabo aprendendo mais”, credencia. 

Resiliência e paciência são outras virtudes que Gabrielle vê cultivadas na docência. “São muitas barreiras hoje a serem vencidas, principalmente se o ensino remoto vier para ficar. E não se trata só de desenvolver novas habilidades, acho. São experiências de aprendizado que devem ser construídas, levando em conta a necessidade de inclusão digital e a dificuldade maior de quem sequer tem acesso às ferramentas tecnológicas numa sociedade conectada, mas desigual. Tem ainda os desafios culturais e comportamentais. Existe aluno de todo o jeito hoje e é preciso que o professor atente para a diversidade, as deficiências de cada um e os diversos níveis de aprendizado, inovando sempre que possível na forma de ensinar, inclusive para a vida. Então, é preciso estar aberto e acolher as diferenças cada vez mais”, opina.

No terceiro ano consecutivo de monitoria, o estudante do curso de Farmácia da Universidade de Fortaleza, Matheus Freire de Souza, 22, trilha um caminho sem volta em direção à docência sem que tivesse sonhado com isso até o vestibular. “Fui me apaixonando pelo modo apaixonado como meus professores e professoras exercem esse ofício. Então, como futuro docente, planejo ser a síntese de cada um e cada uma: da professora Arlândia Nobre quero a capacidade que ela tem de planejar e conduzir uma aula, tornando o conteúdo acessível; do professor Paulo Germano os ensinamentos que traz do mercado de trabalho; da professora Fabiana Soares a capacidade de tornar um conceito complexo em algo simples; e do professor Ângelo Roncalli, meu orientador de iniciação científica, a ética e o compromisso com os preceitos legais para o bom exercício da Farmácia”, elenca.  

Para ele, a monitoria tem sido esse exercício diário de ensino e aprendizagem, mas também de empatia. “Quem quer alcançar um nível de excelência como eu para vir a ser professor tem que saber que nem todos os alunos estão no mesmo nível, então é importante mirar um possível nivelamento e isso se consegue aprimorando sempre a didática. Eu gosto muito de desenvolver materiais, tipo atlas, apostiladas para auxiliar no aprendizado e o feedback dos meus professores e também das turmas em que sou monitor tem sido muito bom. O professor não está em sala de aula para dar tudo mastigadinho para o aluno. Ao contrário ele tem que se reinventar sempre para justamente plantar uma semente. E os meus souberam plantar em mim a curiosidade científica inclusive para eu querer chegar inclusive a pesquisador. Fui fisgado para a docência e só tenho a agradecer”, sublinha Matheus.

Conhecimento solidário

Estudante da graduação em Direito, Ingrid Pita, 22, foi outra que também se rendeu aos encantos da docência após se tornar monitora das disciplinas Direito Constitucional e Direito da Família. “Entrei na faculdade querendo defender os direitos das pessoas e percebi que o professor é também esse defensor do direito que todos temos de saber. Ou seja, o poder e o saber caminham juntos e só com conhecimento é que poderemos mudar o mundo e defender aqueles que têm seus direitos desrespeitados. Então, na verdade, toda e qualquer profissão precisa do professor para ser exercida de forma crítica e plena. Portanto, não vejo profissão mais importante que essa”, sentencia a futura advogada.

Para ela, o bom professor é também aquele se revisa, admite limitações e está disposto a se abrir para o novo, questionando paradigmas dados como prontos e acabados. “Sobretudo no Direito as leis são muito duras e às vezes austeras demais. Então o professor que nos ensina a questionar e a argumentar para mim é o melhor. Posso citar alguns com esse perfil, como Erica Janaina, Gustavo Liberato, Ana Beatriz, Rômulo Weber e Elisabeth Coelho, que dão aulas incríveis, daquelas que você já sai com todo o conteúdo claro na cabeça, mas que também, na hora de avaliar não fecham questão sobre o certo e o errado, valorizando muito mais nossa capacidade de discorrer sobre um assunto com lógica e responsabilidade”, destaca.

Interessada em discutir na monografia final acerca dos direitos das pessoas com deficiência, Ingrid também chama a atenção para o exercício da solidariedade no mundo do trabalho, valor que só o professor, segundo ela, é capaz de incutir na cabeça do aluno. “Na Unifor, os professores todos do Direito direcionam muito os debates para a necessidade de termos responsabilidade social, de olharmos para o outro, para quem é mais vulnerável na sociedade e precisa de ajuda. Sempre chamam atenção para que não sejamos só aquele profissional que retém conhecimento e não compartilha ou não investe pelo menos parte do que aprendeu em prol do bem-estar coletivo. O professor solidário e preocupado com o social tem muito mais o meu aplauso do que os chamados experts. Aí quando isso pode vir tudo junto numa só pessoa, melhor ainda, né? Nota dez com louvor!”, ri-se Ingrid.