A Universidade de Fortaleza tem adotado todas as medidas necessárias para conter a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Por enquanto, não é possível comparecer presencialmente à exposição; mas você pode fazer um passeio virtual através dos nossos vídeos e galerias. Aproveite!

 

50 DUETOS

A exposição “50 duetos” entrou em cartaz no Espaço Cultural Unifor em um momento no qual a apreciação artística possibilita também outro respirar, que simboliza o fruir e o oxigenar de ideias. A mostra comemora os 50 anos da Fundação Edson Queiroz (FEQ) e foi aberta oficialmente no dia 23 de março, de forma virtual.

O simples ato de respirar passou a ser ainda mais simbólico em meio ao isolamento social necessário desde 2020, quando a humanidade precisa, ao mesmo tempo, proteger-se de um vírus e cuidar da saúde mental. Como disse o poeta maranhense Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”. A mostra “50 Duetos” é um passeio por mais de 100 obras da FEQ com novas possibilidades de interação e de interpretação. 

Após as duas edições da exposição “Da Terra Brasilis à Aldeia Global”, que trouxeram o acervo da Fundação com a contextualização de cada período histórico, a “50 Duetos” abre espaço a conexões entre as obras de arte.
 

 

 

 

A presidente da Fundação Edson Queiroz, Lenise Queiroz, explica que no aniversário de 50 anos da FEQ, as obras de arte do acervo particular formaram pares, de uma maneira ao mesmo tempo lúdica e reflexiva. “Duplamente desafiadora, a montagem dá seu recado: liberta a história clássica da arte de enquadramentos formais ou conceitos fechados, padrões artísticos e gostos estéticos de diferentes épocas onde se enamoram, e revela o quão elástico e múltiplo é o potencial artístico em seu modus operandi de esculpir o belo para fazer pensar”, destaca a presidente da Fundação Edson Queiroz. 

Como explica a curadora Denise Mattar, a nova mostra “tem como objetivo abrir caminho para novos raciocínios e instigar o público à reflexão”. As conexões poderão ser estabelecidas por paralelismos visuais, afinidades temáticas e eletivas - ou até mesmo suas oposições, esclarece a curadora. “Estamos abrindo janelas para vários caminhos diferentes e a pessoa poderá acessar tudo isso por meio de seu celular. A mostra ‘50 Duetos’ tem uma dinâmica diferente, uma proposta mais contemporânea tirando um pouco o museu daquele lugar no qual você vai e entra respeitosamente. Você entra em um lugar onde muitas coisas te são propostas”, avalia Denise Mattar.

“Em celebração a seus 50 anos, a Fundação Edson Queiroz apresenta a exposição 50 Duetos, que reforça sua filosofia de aliar as iniciativas culturais à missão de educar com excelência. A mostra apresenta conexões nunca antes feitas com obras da Coleção Fundação Edson Queiroz, suscitando debates que permeiam diversas áreas do conhecimento. Imperdível tanto para a comunidade acadêmica quanto para o público apreciador de arte”, destaca o Vice-Reitor de Extensão da Universidade de Fortaleza, professor Randal Pompeu. 
 


Denise Mattar, curadora da exposição 

“50 Duetos” é, portanto, composta de obras de diferentes artistas, períodos e técnicas, revelando a essência da criação e trazendo questões subjacentes aos temas, de diferentes ordens. A exposição conta ainda com experiências sensoriais despertadas pelos áudios, vídeos e músicas que complementam as referências ao público.

Os visitantes poderão, por exemplo, ouvir o depoimento do artista plástico paraibano João Câmara (1944), sobre “Langueur do Outono/O tango em Maracorday”, 1989, cujo dueto é formado com “Figuras femininas” (circa 1900) de Belmiro Barbosa de Almeida. Já a obra “Melancholy” (2008), do paulistano Vik Muniz, faz composição com “Duas Amigas” (circa 1914), de Lasar Segall (1889-1957). Os perfis em óleo sobre tela “Autoretrato” (circa 1924), de Ismael Nery (1900-1934), e “Perfil V” (1984), de Iberê Camargo (1914-1994) completam outro par de obras em exposição.

Numa composição sobre a construção do imaginário cearense, as jangadas de “Secando a Vela” (1926) do óleo sobre tela de Vicente Leite são atualizadas na série “Mucuripe” (1952-2011), do fotógrafo Chico Albuquerque, ambos do Ceará. O personagem literário Dom Quixote inspirou tanto as formas tridimensionais na escultura do carioca Francisco Stockinger (circa, 1970) quanto a série de litografias criadas por Salvador Dali. O artista adotou uma técnica incomum para realizar esses trabalhos usando uma pistola de ar cheia de tinta e disparando a arma contra a pedra litográfica. O ponto de partida de cada obra tornou-se espontâneo, e a partir dessa primeira mancha Dali desenvolveu as imagens. Cada uma das ações tornou-se uma performance, bem ao estilo do famoso artista catalão. Dom Quichotte de La Manche, foi publicado em 1957, e teve uma tiragem pequena, apenas para colecionadores. O “buletismo”, como Dali chamou a sua técnica, ganhou popularidade depois da publicação do livro e foi adotado por outros artistas.

Por sua vez, a escultura “Os Candangos” (década de 1960), do paulistano Bruno Giorgi, está relacionada às imagens do húngaro Thomaz Farkas da inauguração de Brasília (1960) com o então presidente da República Juscelino Kubitscheck. A arte brasileira contemporânea de Beatriz Milhazes e dos irmãos Campana também estará lado a lado. Cores e formas de “As meninas de Lázaro” (1995, óleo, acrílico e tinta metálica sobre tela) dialogam com as da cadeira Harumaki (2002) e do banco Vitória Régia (2002), criações de Humberto e Fernando Campana.

Artistas cearenses também compõem a exposição que traz um dueto em têmpera sobre tela, formado pelas obras de José Guedes, que participa com “Fenda” (2019), e Alfredo Volpi (sem título, circa 1962), ambas com marcantes tons de azul. A mesma cor também predomina na infogravura Acqua XLVII (2013), de Sérgio Helle, ao lado do óleo sobre tela “Ambiente Virtual I (2001)”, da série “Saunas e Banhos”, de Adriana Varejão. Guedes e Helle são referências nas artes plásticas no Ceará. Em 30 de março, Helle inaugura individual na Unifor.

O também cearense Sérvulo Esmeraldo (1929-2017) está em dois duetos. Ao lado do argentino Carmelo Arden Quin, mostrando a geometria que permeia a obra de ambos, e com Abraham Palatnik, pioneiro da arte cinética,  também desenvolvida por Esmeraldo. A arte cinética busca romper com a condição estática da pintura e da escultura.

ÁGUAS DE MARÇO


Sérgio Helle

Os ciclos de vida-morte-vida da natureza e o nome da canção do Antônio Carlos Jobim trazem à tona a promessa de vida de “Águas de Março”, a maior exposição individual de Sérgio Helle, com curadoria de Izabel Gurgel. As séries Resurgentis e Paradisus fazem parte da mostra no Espaço Cultural Unifor, que teve abertura virtual dia 30 de março de 2021.

Sérgio Helle apresenta pinturas, instalações em técnicas variadas e infogravuras (sobre papel, sobre tecido, sobre pedra Cariri).

Ele começou Resurgentis durante a pandemia. É uma série de infogravuras, utilizando menos cores, com foco na vida brotando de um cenário de destruição. “Sem grandes pinceladas, imagens realistas, quase fotográficas. É a vida brotando, renascendo das cinzas. Em uma época tão difícil, esse trabalho me trouxe um certo conforto e esperança. Afinal, mostrar a resistência e a força da vida nunca foi tão essencial”, reforça.

É com esse espírito que o artista plástico cearense retorna à instituição, onde participou de várias edições da Unifor Plástica, a primeira delas em 1983. “É uma honra (voltar a expor neste momento). Sempre fui incentivado pela Universidade de Fortaleza”, conta o artista. O artista plástico se formou na Unifor em Administração de Empresas em 1986. Das nove edições da Unifor Plástica que participou, foi premiado em duas, em 1991 e 2011.

Com 50 obras, a exposição “Águas de Março” segue todos os protocolos de biossegurança que o momento requer. O artista participa também da exposição 50 Duetos, comemorativa dos 50 anos da Fundação Edson Queiroz. Com curadoria de Denise Mattar, acontece ao mesmo tempo no piso superior do Espaço Cultural Unifor. “Águas de Março” ocupa as galerias térreas.

Em seu trabalho, Sérgio Helle mescla ferramentas digitais com tradicionais técnicas de desenho/pintura. Entre os primeiros na cidade a usar o computador como instrumento artístico, realizou em 1995 a primeira exposição de infogravuras. Tem quatro livros publicados: Acqua (2010), Sérgio Helle – infogravuras (2013), Perfil Cearense (2013) e Paradisus – Uma reverência ao sagrado (2018).

 

 

“Águas de Março” se conecta com três acervos da Unifor: os jardins, os livros e as obras de arte

“Sérgio Helle segue rastros da vida, de vida, e traz o que colhe, e reelabora, como uma espécie de convocatória aberta às criaturas humanas. Um convite para olhar a força da vida, que teima em resistir, em renascer. Daí a nova série de trabalhos, fragmentos do que ressurge, iniciada logo em seguida em meio à pandemia em curso. Resurgentis, por ele assim intitulada a nova série, dá passagem à vida que brotava em um cenário de destruição”, explica Izabel Gurgel, curadora de “Águas de Março”.

Ela lembra ainda que, no Ceará, o céu de nuvens cor de chumbo ganha interpretação positiva e muito particular. “Somos o povo que olha o céu carregado, cinza, chumbo, o que seria o tempo fechado e feio na maioria dos lugares do mundo, e dizemos ‘está bonito pra chover’, considera a curadora de ‘Águas de Março’”. A 13ª mostra individual do artista também faz conexões com os acervos e os espaços da Fundação Edson Queiroz, destaca Izabel Gurgel.

Há intenções claras, como um convite, a “olhar melhor” e de “usufruir” dessas conexões, ressalta. “Há conexão com o jardim, que é um espaço aberto ao público, com os acervos de livros e artísticos da instituição”, reforça. Izabel cita ainda a importância de reafirmar que nossos espaços de vida e de produção da existência não estão apartados. “Vale pra tudo. Quando a gente diz, por exemplo, pra jogar o lixo fora ou pra rebolar algo no mato (expressão cearense que significa o mesmo que jogar no lixo), esse ‘fora’ não existe. A Terra é a casa comum”, esclarece.

“É da fecunda, fértil, forte e frágil Terra, o fabuloso acervo de onde tudo vem (o alimento, a habitação, a vestimenta, os livros etc.) e de tantos modos ameaçado”, diz Izabel Gurgel. Sérgio Helle guarda cascas, troncos de árvores, folhas, flores e sementes. Em fotos, em imagens.”Sérgio é, a seu modo, um arquivista”, destaca.

Foi a folha seca de Torém que atraiu seu olhar e cuja arquitetura de dobras sobre si disparou a série Paradisus, que compõe a mostra “Águas de Março” com a série Resurgentis. Esses materiais podem vir da Amazônia brasileira, onde Sérgio Helle fez uma residência artística em 2018; de um passeio pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro; de uma visita ao Parque do Cocó, em Fortaleza, cidade onde vive e trabalha.

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